quarta-feira, agosto 16, 2017

O dilema de Julia

Léo tinha cismado com o decote do meu vestido.

A gente estava curtindo uma festa no apartamento do Marquinhos, um amigo da faculdade dele e de meu irmão – os três eram calouros de engenharia. Quanto a mim estava no último ano do ensino médio e fazendo cursinho pré-vestibular. Léo havia me largado no meio da sala de estar, transformada em pista de dança, para conversar com dois amigos. Continuei dançando até que ele surgiu, apertou meu braço e me puxou para mais perto de forma agressiva.

- Qual foi, Julia? Peguei os caras olhando para os seus peitos. Mulher minha não fica doidona e mostra o corpo assim. Se comporta – mandou.

Ele implicava com tudo e, na real, eu estava ficando de saco cheio. Fui atrás de meu irmão para irmos embora. Afinal, era ele quem dirigia. Chamei, gritei, perguntei por Daniel aos outros convidados e vasculhei em cada quarto.

Quando encontrei o Dani não quis acreditar no que vi. Fiquei estática. Perto para gravar cada detalhe da cena, mas longe o suficiente para não ser observada. Me sentia incapaz de mover um músculo. Meu estômago estava pesado e o resto do corpo, dormente. Não sei quanto tempo durou aquilo, mas quando vi meu irmão sair do quarto ajeitando a braguilha da calça jeans tive um medo que nunca senti por ele. Como andava de cabeça erguida, não me viu.

Me aproximei da porta do quarto. Uma garota estava, completamente inerte, na cama. Vestia camiseta branca e da cintura para baixo estava despida. Um odor conhecido impregnava o quarto, misturado a um cheiro azedo. O perfume de Dani estava no ar e um filete de vômito escorria da boca da desconhecida. Ela tossiu. Assustada, corri para fora do cômodo e voltei para a sala. Puxei Léo, dançando com amigos, e disse que não estava me sentindo bem a fim de irmos embora.

- Eu pago o Uber – anunciei.


                                                           ***
Quando, ainda adolescente Daniel vazou um vídeo íntimo da ex. namorada, nossa mãe não fez nada. Quando Dani assediou a empregada, nossa mãe a demitiu. Após aquela noite e nos dias subsequentes eu só conseguia pensar naquela cena protagonizada pelo meu irmão e no que ele havia se tornado. Não pude deixar de culpar a negligência, a subserviência e a tendência de sempre protegê-lo de mamãe pelo monstro que ele se transformara.

Léo estava lá em casa quando comentei sobre o que vi. Ele devia a ser a pessoa que eu mais confiava no mundo, não é? Almoçamos e nos trancamos no meu quarto. Estávamos abraçados na minha cama com Víbora, música da Tulipa Raiz saindo das caixas de som. Contei todos os detalhes, da diferença de cor entre os dois corpos entrelaçados, da inércia de um e a velocidade do outro, o silêncio de um e os gritos abafados de prazer à terrível sensação de que agora eu era cúmplice do que, como mulher, eu sempre temi que me acontecesse.

- Julia, você tem certeza do que viu? - perguntou.

- Claro, Léo – respondi, indignada.

- Você está fazendo uma acusação muito grave.

- Eu sei o que vi, Leonardo.

- Você não bebeu nessa festa?

De repente, comecei a chorar. Sentei na cama com as mãos nos olhos.

- Viu, você é muito frágil, Julia. Eu não falei nada para você ter um ataque histérico – afirmou Léo.

- Vai embora – pedi.

- Julia...

- Vai embora, porra! – gritei.- Eu não quero mais te ver. Mete o pé da minha casa!

Ele levantou, jogou a mochila nas costas, balbuciou “maluca” e bateu a porta.

Por que todas as mulheres que afrontam os homens são consideradas loucas?

terça-feira, agosto 15, 2017

A Antessala do Crime


Nova Itália, uma pequena cidade no vale Paraíba do Sul, deve seu desenvolvimento a um estrangeiro, Hercules Salvatore. Italiano como os outros barões do café de São Paulo, coube a ele construir a principal ferrovia de transporte de grãos para os portos do Rio de Janeiro e Santos. A crise de 1929 quase o deixara pobre, se não passasse a usar a sua malha ferroviária para o tráfico de plantas e animais para a Europa.

Com a sua morte, aos 90 anos de idade, em 1995, os gêmeos Saulo e Sílvio assumiram o comando da Companhia e expandiram os negócios. A bem da verdade, Sílvio, que tinha visão empreendedora e nervos de aço, ao contrário do irmão, mais aventureiro. Suas composições carregavam armas, drogas, dinheiro ilegal, pessoas. A família fazia negócios com políticos, repórteres, milicianos e traficantes. Para manter a fachada, envolvia-se em atividades filantrópicas. Catarina, filha caçula do velho Hercules ministrava aulas na escola politécnica da cidade. Bem como a mãe, a matriarca do crime, dona Magnólia. Robson, marido de Catarina, não por acaso, foi eleito prefeito no mesmo ano em que se casou.

Essa era a história da cidadezinha para a qual fui transferido após rastrear uma das maiores quadrilhas de tráficos de drogas do Rio de Janeiro que incluía, entre traficantes, milicianos e políticos, o próprio prefeito da capital do estado. Como punição minha equipe foi emboscada numa operação e eu, enviado para a antessala do crime.


A Morte do Caseiro

O histórico criminal de Nova Itália se baseava em brigas de bar, pequenos furtos e motoristas que cometiam atropelamentos e não prestavam socorro. Anormalidades, como um corpo encontrado com um tiro a queima roupa na principal – e única – via da cidade, eram passadas ao delegado Conrado, um filho da puta corrupto, sujo e vendido.

Naquela manhã, eu passava um sermão em um bêbado que se envolvera numa briga, antes de liberá-lo, quando o rádio anunciou uma tentativa de roubo na casa dos Salvatore. Código 748 603 111, o bandido tinha sido morto. Olhei para Conrado na mesa em frente. Ele sempre resolvia as chamadas da poderosa família.

- O cara foi chumbado. A gente não tem o que fazer – disse Conrado - Vai lá. Faz umas anotações e pronto. É bom que você leva a sua bunda mole para passear.

O cabo Arthur foi comigo na viatura. Garoto tímido, quieto, mas honesto. A honestidade chega a ser muito mais valiosa que o ouro naquela região. Eu quase confiava nele. Chegamos rápido a suntuosa residência. Repórteres e curiosos já se reuniam feito corvos no portão.

Sílvio, Saulo, Catarina e dona Maria estavam reunidos no extremo da sala. Me apresentei aos familiares. Sílvio nos levou até o corpo. Arthur o reconheceu de imediato.

- Dedeco! – espantou-se.

- Quem? - perguntei.

- Uma tristeza, policial – afirmou Sílvio – Dedeco era o nosso caseiro, foi criado como um irmão para mim, Saulo e Catarina.

- Delegado – me apresentei. – Delegado Garcia.

Olhei atentamente o corpo no chão. Uma mancha de sangue seco manchava o assoalho de mármore. O tecido queimado em torno do orifício revelou que o menino fora morto com tiro de pistola. Vestia camiseta, bermuda e chinelos. O que estranhei, quem é que vai assaltar uma casa de chinelos?

Sílvio me pegou pelo braço e me levou ao extremo da sala.

- Vou enviar uma perícia ao local – disse.

- Não é necessário, delegado. Está claro que o que houve foi uma tentativa de assalto – retrucou Sílvio. - Dedeco era o caseiro, tinha todas as chaves e códigos de segurança. Além disso, ele cresceu aqui. Sua mãe trabalhava para a gente. Inclusive, os empregados concordaram em testemunhar.

- Sob que pressão eles concordaram?

Sílvio fixou os olhos nos meus. Não era um homem acostumado a ser questionado. A postura confiante, os ombros eretos, o queixo erguido e a expressão arrogante demonstravam que ele julgava todo o resto da humanidade a seu serviço.

- Talvez não saiba como as coisas funcionam. É melhor deixar o caso com o delegado Conrado – afirmou, friamente.

- Eu assumi o caso – rebati.

Dei a volta e retornei ao corpo estirado no chão. Saulo, gêmeo de Silvio, andava nervosamente pela sala de um lado para o outro. Não tinha a empáfia do irmão. No entanto, o que mais me surpreendeu foi era a calma de dona Magnólia, elegantíssima com pulseiras de ouro, um lenço com estampas de tigre e um penteado que valia o meu aluguel. Agia como se não tivesse um defunto na sala de estar.

Escrevi umas anotações em um bloco e fotografei o corpo com o meu celular. Em seguida, solicitei a perícia. Praxe, os caras também deviam ter sido comprados.

Antes de ir embora passei o olhar rapidamente em todos os membros. Os olhos esbugalhados de Saulo encaravam Dededo. Duas esferas castanhas que emitiam uma única mensagem: o sentimento de culpa.

Antes que eu partisse, Sílvio apertou a minha mão com força.

- Você não sabe como as coisas funcionam por aqui – murmurou.

Chamei o cabo Arthur sem dar atenção à ameaça. Entramos na viatura e voltamos para a delegacia.

- Entrarei em contato – disse aos familiares antes de sair, pousando o olhar sob o outro gêmeo.


Conrado me leva para passear

segunda-feira, julho 10, 2017

What a wonderful world

Naquela manhã, Cecília acordou sentindo-se revigorada. Há tempos uma noite de sono não lhe proporcionava tamanha energia.  Ainda na cama voltou-se para Johnny ao seu lado. Desejou o namorado como há semanas não o desejava – não que o romance houvesse esfriado. A vida só andava atribulada demais. Deslizou o corpo entre as pernas do homem, esgueirando-se nas curvas do edredom.

Após o ato, ela vestiu o roupão, abriu as cortinas do quarto e dirigiu-se à cozinha, onde preparou o desjejum. Carregava na sutileza dos movimentos a harmonia e serenidade. De ombros erguidos portava-se como se fosse a abelha-rainha, o útero da casa. Apalpou o paletó que Johnny costumava usar durante a semana, na universidade onde ministrava teoria literária, para checar se a veste finalmente secara. Em seguida, separou as cuecas do filho, fruto do primeiro casamento.

O namorado apareceu em seguida. Ele distribuiu as xícaras e pratos pela mesa da sala, ao passo que ela depositou as travessas de torrada e frios, além da cafeteira. Das caixas de som de um velho home theatre, Milestone, de Miles Davis, ecoava pelo apartamento e embalava a primeira refeição do dia.

O cheiro de café da manhã atraiu Igor, que deixou o quarto acompanhado da namorada. O adolescente era todo hormônio, naquela fase em que os primeiros traços da maturidade são esboçados no rosto ainda infantil. Auto confiante ao ser um dos primeiros de sua turma iniciados nos jogos sexuais, o adolescente garoteou um cumprimento com o padrasto, roubou uma fatia de pão e logo voltou ao quarto com a jovem.

Ao concluírem o desjejum, Cecília recostou-se sob a cadeira e acendeu um cigarro, encarando carinhosamente a gata que desfilava, languidamente, no parapeito da janela, sob a neblina leitosa que engolia os prédios ao redor.  Ao seu lado, Johnny saboreava o último gole de café imerso na leitura do jornal. Em tom professoral, ele comentava sobre o governo golpista, a crise, a Lava Jato e o que dizia aos alunos quando questionado sobre o quadro político do país.

Cecília aproximou-se e o beijou ao som de Take a Five, enquanto a fumaça do câncer encaixado entre o indicador e o dedo médio dançava pelo ar ao som do piano de David Brubeck.