segunda-feira, julho 10, 2017

What a wonderful world

Naquela manhã, Cecília acordou sentindo-se revigorada. Há tempos uma noite de sono não lhe proporcionava tamanha energia.  Ainda na cama voltou-se para Johnny ao seu lado. Desejou o namorado como há semanas não o desejava – não que o romance houvesse esfriado. A vida só andava atribulada demais. Deslizou o corpo entre as pernas do homem, esgueirando-se nas curvas do edredom.

Após o ato, ela vestiu o roupão, abriu as cortinas do quarto e dirigiu-se à cozinha, onde preparou o desjejum. Carregava na sutileza dos movimentos a harmonia e serenidade. De ombros erguidos portava-se como se fosse a abelha-rainha, o útero da casa. Apalpou o paletó que Johnny costumava usar durante a semana, na universidade onde ministrava teoria literária, para checar se a veste finalmente secara. Em seguida, separou as cuecas do filho, fruto do primeiro casamento.

O namorado apareceu em seguida. Ele distribuiu as xícaras e pratos pela mesa da sala, ao passo que ela depositou as travessas de torrada e frios, além da cafeteira. Das caixas de som de um velho home theatre, Milestone, de Miles Davis, ecoava pelo apartamento e embalava a primeira refeição do dia.

O cheiro de café da manhã atraiu Igor, que deixou o quarto acompanhado da namorada. O adolescente era todo hormônio, naquela fase em que os primeiros traços da maturidade são esboçados no rosto ainda infantil. Auto confiante ao ser um dos primeiros de sua turma iniciados nos jogos sexuais, o adolescente garoteou um cumprimento com o padrasto, roubou uma fatia de pão e logo voltou ao quarto com a jovem.

Ao concluírem o desjejum, Cecília recostou-se sob a cadeira e acendeu um cigarro, encarando carinhosamente a gata que desfilava, languidamente, no parapeito da janela, sob a neblina leitosa que engolia os prédios ao redor.  Ao seu lado, Johnny saboreava o último gole de café imerso na leitura do jornal. Em tom professoral, ele comentava sobre o governo golpista, a crise, a Lava Jato e o que dizia aos alunos quando questionado sobre o quadro político do país.

Cecília aproximou-se e o beijou ao som de Take a Five, enquanto a fumaça do câncer encaixado entre o indicador e o dedo médio dançava pelo ar ao som do piano de David Brubeck.

quinta-feira, junho 29, 2017

A filha desleal

Bóris entrou no elevador e foi como se todo cubículo espelhado houvesse ficado ainda menor. O ar tornou-se rarefeito e pesado, empesteado pelo cheiro daquele homem. Pressionei o meu corpo fortemente contra a parede de vidro, na tentativa de me manter o mais distante dele.

Pelo reflexo que revestia todo local reparei na cor escura da pele de Bóris, o mesmo tom da minha, bem como, em sua estrutura óssea angulosa, assim como eu também possuía. Ele ainda era mais alto, mas eu não ficava muito atrás. Subitamente um pensamento me veio: e se este homem fosse meu verdadeiro pai?

- Você está passando bem, menina? - perguntou o vizinho.

Ele sorria exibindo os dentes perfeitamente brancos e alinhados, cuidados por minha mãe. As imagens dos caminhos que a pouco vi percorridos por aquela boca me invadiram. Corri para fora do elevador como se fugindo delas. Estava completamente enojada.

Com dificuldade abri a fechadura de casa. Vomitei na pia do banheiro, sem tempo de alcançar a privada. Em seguida, deitei nos azulejos gelados do assoalho até conseguir retomar a calma. E se sou o produto de uma mentira, o fruto de uma traição, um caso extra conjugal? Pensei no homem que acreditei ser meu pai a vida toda e senti pena dele, tão apaixonado e devotado aquela mulher. Com certeza não sabia de nada.

            ***
Naquela noite não jantei com meus pais, tampouco no outro dia. Mais tarde, meu pai – ou o homem que acreditei a vida toda ser– apareceu em meu quarto. Carinhosamente, tentou conversar. Perguntou se eu estava doente. Me afagou em seus braços peludos. Percebi o quanto contrastávamos: ele, branco, eu, escura. Ele, gordo, eu, tão esguia. Seus traços remontavam a uma ancestralidade que em nada eu me identificava.

Enquanto isso eu fugia de minha mãe. Nem me dava ao trabalho de responder suas mensagens. Comecei a odiá-la. Tinha raiva do que ela havia me transformado, do que fazia com o pobre homem que a amava, de não ter, naquele dia, fechado a porta do consultório odontológico em que trabalhava, e desde que clinicara ali, ter me dado uma cópia da chave por precaução e por não ter atendido o celular quando eu liguei avisando que ia visitá-la. Eu a odiava pelo que me obrigou a ver. Fui tomada por ódio e asco daquela mulher. Incapaz de reconhecer qualquer gesto sincero de bondade e preocupação. Eu também me sentia traída. Eu queria expô-la, constrangê-la, xingá-la de vagabunda, vadia.

No terceiro dia, jantei com ela e Mario. Fixei o olhar em meu prato como se a tarefa de comer demandasse uma grande concentração. Às vezes erguia os olhos e via a mão daquela mulher a acariciar o marido, ofertar-lhe um sorriso, beijá-lo e ele, tão devoto, tão idiota, demonstrava o quanto a amava desde a forma de servi-la até corresponder às carícias. Fuzilei os dois com o meu olhar. Todo ódio que sentia por ela começava a contaminar Mario. Como alguém poderia ser tão cego, tão burro? A esposa estava dando para o vizinho debaixo do seu nariz, há anos, e o corno não desconfiava de nada. O casal de amantes, inclusive, o fizera assumir a paternidade de uma criatura que talvez não pertencesse a ele.

Resolvi provocar. Soltar um pouco do veneno que estava me corroendo, ou quem sabe, só herdei dos meus pais verdadeiros.

- Luciana, há quanto tempo o Bóris é seu cliente? - perguntei, maliciosamente.

- Não chama mais sua mãe de mãe, Valentina? - intrometeu-se Mario.

A mulher tocou a mão do companheiro e me encarou numa falsa candura.

- Desde que nos mudamos para esse prédio, uns vinte anos. Um dia ele bateu aqui desesperado por causa de uma cárie. Por quê, filha?

Não respondi e a encarei seriamente na tentativa de fazê-la entender o meu olhar, reconhecer que eu sabia da sua infidelidade, mas Luciana o sustentou cínica e bravamente. Levantei da mesa, levei o prato para a cozinha e me enclausurei no quarto.

Comecei a espionar a rotina de Bóris na tentativa de encontrar mais semelhanças entre nós. Descobri por Raimundo, o porteiro, que nosso vizinho era contador, no que depositei mais semelhanças entre a gente: a aptidão para os números. Remexi o lixo, vasculhei as redes sociais. Comparava nossos rostos e gostos e cada dia eu me convencia mais de que era o maldito fruto da relação entre ele e minha mãe.

Decidi estragar seus encontros no consultório que ocorriam duas vezes na semana, de acordo com a agenda dela. Na primeira vez, inventei que estava passando mal e que ela precisava me levar ao médico. Mario estava aplicando provas na universidade em que era professor de teoria literária e, segundo a minha mentira, não queria incomoda-lo. Na segunda vez, surgi de repente no local de trabalho da minha mãe. Bóris não apareceu.

Eu também o odiava. Não tanto quanto minha mãe, mas não suportava. Ele e a mulher haviam me transmitido a sua doença. Aliás, eu era o resultado dela. Além disso, um inocente estava sendo enganado. Mario, um pai tão afetuoso e bondoso. Um marido tão apaixonado e dedicado. Quem dera que ele fosse meu pai de verdade. Às vezes, entrava em casa decidida a contar tudo e esperava que ele matasse Luciana e o amante. Quiçá a espancasse, a punisse. Mas, no fundo, temia que ele fizesse algo contra si mesmo. 

Em casa as brigas com a mulher eram frequentes. Um dia não aguentei e a chamei de puta, saboreando cada letra, p-u-t-a, as vogais e consoantes, agridoces, estalavam prazerosamente na minha boca. Mario não só a defendeu, como desferiu uma bofetada em meu rosto. Fiquei em choque. Quase vomitei na mesma hora todas as verdades que eu sabia; que ele era um corno, um chifrudo e sustentava uma mulher infiel e a filha ilegítima. Que era um gordo sedentário e não à toa era traído debaixo de seu nariz, também com aquela barba nojenta de comunista e a barriga de Papai Noel ele nem deveria mais saber como trepar. Como ele ousava ficar contra mim que o protegia? No entanto, me contentei em correr para o meu quarto e chorar. Chorei a noite inteira. Chorei até o dia raiar. Chorei até ficar seca e sentir mais nada dentro de mim, nenhuma gota d’água, um fragmento de sentimento qualquer.
         ***

No dia seguinte, após Mario e Luciana saírem para o trabalho, fiz que ia para a escola. Tomei banho, vesti o uniforme e coloquei a mochila nas costas. Subi três andares de escada e pousei o dedo sob a campainha de Bóris. Respirei fundo enquanto ouvia a movimentação do outro lado da porta. Ele atendeu vestido somente de cueca. A expressão sonolenta e irritadiça revelou que ele não havia gostado nada de sair da cama.

- Preciso falar com você, é importante – declarei, enfaticamente.

 Meu coração batia apressado.  Eu estava decidida a revelar o que sabia a partir do dia em que entrei no consultório de minha mãe e vi aquele homem dentro dela. Na porta de Bóris, fingi checar as horas no celular e disquei para Mario. Pelo horário, devia estar no intervalo de suas aulas. Coloquei no viva voz ao ouvi-lo atender e escondi o aparelho no bolso do casaco, rezando, interiormente, para que ele não desligasse. 

Entrei no apartamento do amante de minha mãe decidida a contar toda a verdade.

Um corpo em Copacabana

Na calçada em frente à Galeria Menescal, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, Sônia fumou um cigarro, depois, outro. Logo, o último maço foi consumido enquanto a senhora observava os automóveis que percorriam o bairro. Aquela era uma via de tráfego intenso, nunca parava. Sônia caminhou até a beira da rua, desceu o meio fio, colocou um pé no asfalto. O sinal estava aberto quando o ônibus a atingiu. A bolsa e os sapatos voaram para longe. O corpo da velha foi lançado pelo coletivo. Já estava morta antes de atingir o chão. Uma multidão de curiosos que passava pelo bairro se reuniu no local.  


Dois dias antes, o diagnóstico, ao consultar o médico, lhe trouxe dois sentimentos: medo e alívio. Medo porque estava morrendo e a descoberta da morte sempre assusta. Alívio porque já lhe fora roubado todos os prazeres da vida, envelhecia sozinha entre memórias e quinquilharias. O doutor ofereceu opções de tratamento, mas não a iludiu: estava com os dias contados. Ela, sem fraquejar, de cabeça erguida, prometeu voltar na semana seguinte.

Ao chegar em casa, no suntuoso apartamento no edifício Chopin, em frente a praia de Copacabana, sentiu uma repentina vertigem. Quase não reconheceu a sala repleta de tapetes, os sofás antiquados para a época, as estatuas, quadros e fotografias espalhados pelo cômodo.  Germana! Germana! Germana!, gritou. Mas Germana havia ido embora anos atrás. Outra mulher vestida no mesmo uniforme da alemã apareceu.

- Dona Sônia, a senhora está bem? - perguntou a empregada.

Dandara ajudou a patroa a sentar-se na sala de estar. Ofereceu um copo d’água, sendo repelida com um gesto grosseiro. A doméstica voltou com uma dose de conhaque, encontrando uma recepção melhor.

Recomposta, Sônia caminhou até o quarto. O som dos sapatos ecoava pela casa vazia, povoada somente pelas suas lembranças, fantasmas. Os filhos viviam suas vidas, os netos, quase não os via. Zé, o ex. marido, estava nas Bahamas com a nova namorada, uma garota que ostentava 1/3 de sua idade.

O que aconteceria se dissesse aos filhos que estava morrendo? A casa se encheria de vida, eles a cortejariam, diariamente, ao pé da cama cumprindo cada um de seus mimos? Zé perceberia que estava perdendo o amor de sua vida e voltaria? Os netos se mudariam para o apartamento, a fim de gozar os últimos dias com a matriarca?

E o bastardinho? A perdoaria pelo que fizera no passado?

Sônia encarou-se no espelho. Ao se despir, imaginou os tumores espalhados, o pulmão tomado e os ossos infiltrados. Acendeu um cigarro. De que adiantava abandonar o vício agora? Tragou observando o reflexo na penteadeira. Em breve, mais um fantasma.

Ligou para o primogênito. A doméstica avisou que Ricardo estava de férias na Disney com Cecília e as crianças. Já Daniela foi doce e cordial, como de costume, prometeu visitá-la com os netos na próxima semana. O que certamente desmarcaria em cima da hora. Sônia, desiludida, não comprava mais os sanduíches e refrigerantes para receber os fantasmas que só anunciavam a sua chegada, mas nunca apareciam. Evitava falar com Zé desde a separação.

Morreria sozinha e a consciência da solidão arrancou um choro convulsionado das profundezas de seu âmago. Talvez, percebeu, já não vivesse, fosse somente um corpo que respira e se ocupa de outras funções básicas. Porém, indesejadas. Queria morrer.

Fumou mais um cigarro, bebeu outra dose de conhaque. Pensou em dar um teco, mas ao invés disso engoliu dois comprimidos de Rivotril. Seus sonhos foram povoados pelo bastardo. No dia seguinte acordou decidida a encontrá-lo.

***
Foi Zé quem trouxe o bastardo para casa. Já era madrugada quando o menino apareceu, assustado, segurando a mão do, então, marido de Sônia.

O garoto não possuía mais que dez anos de idade. A mesma idade de Daniela, dois ou três a menos que  Ricardo. Numa fúria de Hera desvairada, ensandecida feito Medeia, Sônia atirou vasos em direção ao companheiro infiel. Zé mandou o novo morador aos cuidados de Germana e sacudiu Sônia para tirá-la daquela histeria.

O bastardo dividia o quarto com Ricardo. No mesmo ano, foi matriculado no Santo Inácio. Os dois eram unha e carne, melhores amigos. Na adolescência, passaram a frequentar as mesmas festas e a curtir as mesmas garotas. O hobby preferido dos irmãos continuou o mesmo, implicar com Daniela.

A bem da verdade Sônia até tentou amá-lo, mas tudo no garoto a lembrava da traição. A pele negra em contraste com a brancura dela e de seus filhos, os cabeços ouriçados que nada tinham em comum com as longas madeixas estendidas que Ricardo e Daniela herdaram. Via o nariz largo e os lábios grossos do bastardo como uma afronta ao refinamento que seus genes legaram do velho mundo. Paradoxalmente, as semelhanças entre pai e filho a incomodavam muito mais. Se reclamava de alguma predileção, ouvia do esposo: um é tão meu filho quanto o outro.

A convivência com o bastardo a angustiava. Começava a acreditar que ele eclipsava os próprios filhos, os legítimos. Precisava fazer alguma coisa. Tentou acusar o enteado de roubo, mas a tramoia não deu certo, Germana levou a culpa, foi demitida. Um dia, ao buscar Daniela na escola, enquanto a menina cruzava o portão e dava a volta no carro, Sônia admirou os peitinhos da filha. Em breve seria uma mulher linda, se já não o era. A mãe pensou algo irreversível, definitivo, que ninguém pudesse encontrar outro culpado.

***
Sônia contratou um detetive para encontrar o bastardo. Com as redes sociais não foi difícil identificá-lo.

Durante todos aqueles anos pensou tê-lo desgraçado. Até a proximidade da morte não sentia culpa ou remorso. Anteriormente, se pegava pensando nele. Será que virou bandido? Está na cadeia? Virou mendigo? A senhora se surpreendeu quando o detetive lhe forneceu um endereço na rua barata ribeiro.

Sônia caminhou por Copacabana até chegar a Galeria Menescal. Reduziu o passo ao aproximar-se do número fornecido pelo investigador. Parou em frente a uma estreita vitrine de livros usados. Adentrou o local. Um rapaz estava do outro lado do balcão.

- Você é o Leonardo? - perguntou Sônia, cordialmente.

- Não. Sou filho dele – disse o balconista. – Quer falar com meu pai?

- Ele está aqui?

- No estoque. Só um minuto que vou chamá-lo. Qual é o nome da senhora?

- Daniela – mentiu.

O rapaz entrou por uma porta. Pouco depois, voltou acompanhado de Leonardo. Os traços grosseiros sustentavam os óculos de grau de lentes grossas e aro de tartaruga, já os cabelos ouriçados em Black Power foram substituídos por uma reluzente careca.

***
Sônia e Leonardo sentaram-se um em frente ao outro em um café ao lado do sebo. Ela sentiu emanar do olhar do bastardo rancores acumulados. A velha falou da ausência dos filhos, da separação de Zé e, finalmente, contou sobre as dores, as suspeitas, os exames e o diagnóstico: estava morrendo. O olhar de Leonardo não se abrandou, tampouco o rapaz mostrou-se condescendente.

- Eu quero pedir perdão – disse Sônia. – Você perdoa essa velha?

- Não – afirmou Leonardo - você sempre me considerou uma mancha, uma ameaça a sua família perfeita.

- Vim pedir desculpas, mesmo depois de todos esses anos.

- Você vem se desculpar com essa cara de pau? Eu quase fui preso!

- Seu pai nunca ia permitir que você fosse para a cadeia. Foi só um susto. Eu estava com medo.

- Medo de que?

- Daniela e você estavam crescendo na mesma casa. Você, homem. E ela...

- Você me acusou de estuprar a sua filha, minha irmã.

- Meia irmã - corrigiu Sônia. - Hoje sabemos que isso não aconteceu.

- Você fez de propósito e continua mentindo – gritou ele. - Eu tinha treze anos quando um policial me algemou por causa da sua mentira!

- Leonardo, eu errei – disse Sônia, constrangida pelo tom de voz elevado do outro. – Estou pedindo desculpas.

Ele respirou fundo na tentativa de controlar a raiva. Retirou os óculos e pressionou os olhos. Em seguida, recolocou o adorno e encarou a mulher, desferindo um olhar cheio de nojo e ódio.

- Pois não desculpo. Pode ir embora e não volte a me procurar e nem chegue perto do meu filho.

- Quem você pensa que é? O que custa dizer “eu te perdoo”. Você sempre foi difícil de lidar e impossível de amar.

- Agora sim estou reconhecendo você – disse Leonardo, ironicamente. – Está colocando as asinhas de fora.

- Quer saber, não vou me humilhar por um criolo que sempre andou com o rei na barriga.

- Racismo, não!

Leonardo depositou uma nota de dez sobre a mesa e fez que ia levantar. Sônia tocou sua mão.

- Me perdoa – pediu.

- Não, você só não quer morrer sozinha – disse ele.


Leonardo deu as costas e voltou para o sebo. Sônia deixou o local pouco depois, sem olhar para as vitrines da loja do enteado. Despontou na rua oposta à barata Ribeiro, a Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Procurou o maço de cigarros na bolsa observando os transeuntes e automóveis que transitavam pelo bairro como formigas rodeando uma carcaça em decomposição.