terça-feira, junho 20, 2017

O velho e a moça

Uma goteira persistente e distante quebrava o silêncio da madrugada. Eram três da manhã e, como de hábito, eu estava no escritório, concentrado, de olhos pregados no computador, ocupado na revisão de um livro. Eu já estava acostumado com o som ritmado do pinga pinga, ao passo que o alerta de entrada de e-mail na caixa postal, em último volume, me assustara feito um diabo.

- PUTA QUE PARIU! – xinguei ao me erguer, instintivamente, da cadeira giratória, levando dicionários e gramáticas ao chão.

Chiara, uma ex-aluna que eu sequer lembrava, surgia:

Assunto: Dragões não conhecem o paraíso
Professor,

Fui sua aluna de literatura contemporânea em 2006 na Unisal. Não sei se o senhor vai recordar de mim. Não sei se a foto ao lado do e-mail é suficiente para fazê-lo lembrar da mulher que sempre tentava chamar a sua atenção com considerações óbvias sobre os textos rsrs

São duas e meia da manhã. Talvez o senhor goste de saber que sou gerente de marketing de uma grande empresa de cosméticos. Nada a ver com literatura, né? Tenho um bom salário, um apê legal, um namorado que me ama, um cargo estratégico nessa multinacional. No entanto, hoje, enquanto Marcelo roncava feito um porco, subi no parapeito da janela e senti uma leve excitação ao me encontrar tão frágil, tão suscetível aos ventos do destino. Uma vertigem ou - um segundo de prazer – me assustaram e desci.

Depois chorei calada no banheiro para não acordar Marcelo. Enfiei o punho na boca para silenciar a angústia e o sofrimento que nem sei de onde eclodiram dentro de mim. Mais calma, lavei o rosto e lembrei de uma aula em que o senhor citou um conto de algum escritor brasileiro badalado, morto e hoje tietado pelas editoras. Portanto, essa noite lhe devolvo a pergunta que o senhor lançou há dez anos “por que pessoas como nós não são felizes?”

Fred – posso te chamar assim? Sem tanta formalidade -, não sei se você ainda usa o e-mail institucional do campus ou ate mesmo se está vivo. Espero que o meu relato não o assuste assim como aguardo qualquer contato.

Atenciosamente,

Sua aluna,

Chiara.


A imagem ao lado do e-mail revelava um rosto talvez conhecido, mesmo assim, indecifrável para a memória de um velho cada vez mais desacostumado com o convívio humano. Reli mais duas vezes o e-mail de minha ex-aluna. Ela citava Caio Fernando Abreu. Recordei da aula citada, embora seu rosto permanecesse oculto. À minha pergunta uns culparam o capitalismo, outros, a vida cada vez mais apressada. Lembrei da ausência de uma voz conhecida. Alta, forte, imperativa, feminina. Talvez Chiara.

Recolhi os livros no chão e preparei uma xícara de café. Salvei o trabalho que me dedicara anteriormente e me dediquei ao e-mail. Os professores e as professores são figuras de autoridade e muitas vezes nossos alunos nos procuram como se fossemos seus pais.

A bem da verdade, desde que Irene me deixara eu havia rompido com o resto do mundo. Me mudei para este sítio, comprado com o dinheiro da herança do meu pai, e, aos poucos, abandonei toda a minha vida anterior. Às vezes recebia alguns amigos e meus filhos. Vez ou outra, uma mulher para satisfazer as necessidades de um homem. Passo a maior parte do tempo ocupado com o trabalho, assistindo filmes de neorrealismo italiano ou ao lado da vitrola, ouvindo "velharias e gente morta", como diz meu caçula. 

Poderia dizer a minha querida ex-aluna, perdida nas brumas da memória de um velho, que, para pessoas como nós, há um grande muro que nos afasta do resto do mundo. Uma transparente e intransportável parede de vidro e que a noção de toda vida efervescente do outro lado nos aflige pela nossa inadequação ao cotidiano, a realidade. A ideia de entrar em contato com o que está além do muro é o que nos causa essa vertigem. Poderia assegurá-la, sem sombra de dúvidas, de que o contato pleno com qualquer outro individuo nos era impossível. Mas não era para se desesperar, é necessário acreditar que todos vivem um grande amor.

sábado, junho 17, 2017

Eu estou totalmente perdido no supermercado


Escolhi Lost in the Supermarket, do The Clash, para tocar quando fiquei chapado no supermercado. Punk rock diretamente dos fones de ouvido para o meu cérebro. Caminhei entre as seções atento as cores, os cheiros e os formatos das embalagens como em Fake Plastic Trees, certamente mais excitado do que Thom Yorke.

As garotas, em  justíssimos vestidos pretos, seguidas por garotões trajando camisas de botões e bonés se pareciam  com personagens da MTV. Peguei um chocolate e segui para o caixa.

As filas demoradas não me incomodavam. 1979, música dos Smashing Pumpinks – que também me vinha a mente já que o videoclipe se passava num supermercado - nunca fez tanto sentido quando assisti um rapaz arrancar, violentamente, o produto que acabara de comprar, das mãos da caixa. Ninguém fez nada. Eu não fiz nada. A funcionária retornou mecanicamente para a máquina registradora, como se aquela cena fosse comum em seu trabalho. Os amigos que acompanhavam o jovem agressor começaram a rir. Double cross the vacant and bored*Não houve um gesto de indignação ao redor. Digo a mim mesmo que estou muito chapado para agir. Sou a porra dum covarde. Não me sinto tão diferente das outras pessoas.

Paguei.
Embolsei o troco.

Apaguei as luzes ao entrar no elevador. Encarei a escuridão fatiada por brevíssimos fachos de luz dourados que anunciavam mais um andar. Em casa, me livrei das roupas rapidamente. Me senti dormente, mais quente e ágil. Troquei mensagens de texto com a minha namorada.

Me lancei na cama e selecionei Pink Floyd, no Spotify. Encaixei os fones de ouvido e fechei os olhos a fim de curtir o resto da trip. Home, home again / I like to be here when I can / When I come home cold and tired**...


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* 1979, da banda americana Smashing Pumpkins. Originalmente, no disco Mellon Collie and the Infinite Sadness (1995).
* Time, da banda britânica Pink Floyd. Originalmente, no disco The Dark Side Of The Moon (1973).

terça-feira, junho 06, 2017

Girassol

Na noite em que o meu mundo desmoronou de forma irreversível, Alice desviou de sua rota habitual para me encontrar. Quando seus cabelos flamejantes surgiram da saída do metrô, caminhei em direção a mulher de pouco mais de um metro e meio feito um menino desamparado. Na curta duração de um abraço, seu corpo pequeno, miúdo, preencheu todo o meu vazio.

Caminhamos até uma cafeteria próxima da estação, onde ela me pagou um café. Desde o primeiro gole a bebida maltratou meu estômago que havia acordado irritado. No entanto, sorvi saborosamente a fim de sentir todo calor da infusão em meu sangue. Eu queria me sentir vivo.

A bem da verdade, aquela era uma das poucas pessoas do meu círculo social com quem eu conseguia me sentir plenamente a vontade. Não que a nossa relação fosse isenta de conflitos. Às vezes um breve curto circuito nos afastava por dias, semanas, porém, sempre voltávamos um para o outro. Alice, inclusive, esteve ao meu lado quando recebi a minha primeira carta de demissão, bem como, meses depois, celebramos juntos  a conquista de um novo emprego. Eu a considerava uma irmã mais nova, embora, muitas vezes, sua sabedoria fosse capaz de inverter estes nossos papeis. 

Do outro lado da mesa, Alice me ouviu pacientemente, como de costume. Seus olhos perspicazes me fitavam, atentamente, através dos óculos de lentes longas e hastes finas. Após o desabafo, ela ponderou  o meu relato e ofereceu possibilidades sobre o futuro e um horizonte de paz. Analisamos de forma racional todos os últimos acontecimentos que me fizeram procurá-la tão transtornado. Cercados pelo aroma de café, ela me legou o questionamento de pitonesa*.

- Gregório, não vale a pena abrir mão de tudo agora para ter um pouco de paz no futuro?

No final da noite, caminhamos novamente até a estação de metrô. Também conversamos trivialidades, banalidades cotidianas. Na plataforma, antes que seus cabelos de girassol desaparecessem completamente do meu campo de visão, levados pela escada rolante, gritei:

- Eu te amo.

- Eu te amo, chato – ela devolveu, docemente. 

Naquela noite, Alice acalentou o meu coração revolto, irado, inquieto e traído.

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Pitonesa: como eram chamadas as sacerdotisas do deus Apolo em Delfos.