domingo, abril 01, 2018

Diabólica

Pia

A voz de JP se diferencia das outras porque ele ainda é uma criança.  O padre me encara com as mãos unidas e as balança. Talvez queira que eu imite os adultos, assim como meu irmão faz. Ao nosso redor há rostos de homens e mulheres de olhos fechados. Somos as únicas crianças. Quer dizer, JP é. Eu já tenho 11 anos. 

Entre nós dois, no banco da igreja, está seu saco de soldadinhos de plástico.


Pai Nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome, venha vós ao nosso reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu...

Encaro o padre. Desistiu de mim. Está virado para a estátua de madeira do homem pregado na cruz. Em silêncio escondo no bolso do vestido o saco de soldadinhos de JP.

Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido, não nos deixeis cair em tentação e livrai-nos do mau, amém.

Todos abrem os olhos. Papai se levanta. As pessoas o encaram. Ele é tão lindo. Em seguida, meu pai caminha até o altar. Fala algumas palavras, entrega um cheque ao padre. O barulho de salvas de palmas explode.

Velhas apertam as minhas bochechas durante o caminho até o carro. No banco traseiro eu e JP escutamos papai falar sobre Nosso Senhor e, mais uma vez, em como se tornou devoto quando, ainda na barriga de minha mãe, disseram que eu tinha um problema na coluna. Eu podia nascer e nunca mover um dedo. Com sorte, aprenderia a andar.

- Pia, por sua causa fui até o Vaticano e prometi que, se você nascesse perfeitinha e bem de saúde, eu batizaria todos os meus filhos com nomes de pontífices  – contou papai.

- Pai, perdi os meus soldadinhos. A gente pode voltar na igreja? - perguntou JP.

- Eu avisei para não levar à missa, João Paulo – ralhou papai.

- E agora, papai?

- Tomara que o padre Pedro encontre e presenteie alguma criança necessitada. Isso é o que acontece quando você não me obedece.  E Pia, você nasceu perfeita e linda. Deus te abençoe – disse papai, que acabou voltando ao assunto.

- E de que adiantou, hein? O nosso meio irmão é debilóide. O tico dele não bate com o teco – gritou JP, furiosamente.

Nosso pai deu uma freada brusca. Virou-se do banco do motorista e desferiu um tapa na cara de JP. Em seguida, voltou a posição normal. Meu irmão começou a chorar.

- Engole o choro que homem não chora – censurou papai.

Ao chegar em casa. Me tranquei no banheiro, subi na tampa do vaso sanitário. Pela janela basculante me livrei do saco de soldadinhos de plástico que havia furtado de meu irmão.

quinta-feira, fevereiro 15, 2018

Destinos Cruzados

O motorista pediu demissão e avisou que não rodava de graça. Sem salário, a cozinheira abandonou o avental em cima do pia. Até mesmo o padre não lhe aplicara mais a comunhão. O açougueiro do bairro parou de vender fiado. Agora que o seu Inácio foi embora de casa, quem é que iria pagar a conta no final do mês?

Não foi fácil para dona Magnólia quando o marido se pirulitou com uma gostosona do Grajaú. Os amigos se mobilizaram, juntaram dinheiro, faziam vaquinhas para que ela e os filhos tivessem sempre, à mesa, o arroz, o feijão e o filé mignon – que posteriormente foi substituído pelo carré de porco.

quarta-feira, janeiro 10, 2018

Chá de Camomila


- Há mais de 15 dias eu não consigo dormir direito, ando tendo insônia brava. Comprei até um chá diferente, mais caro.
- Como você vai ferver a água?
- No micro-ondas.
- Dizem que não é bom. Pega a chaleira embaixo da pia.
- No micro-ondas é rapidinho.
- Faz mal esquentar água dessa forma.
- Quer saber? Deixa que eu faço do meu jeito!

[...]

- Você anda muito chato, todo nervoso. Não se pode falar mais nada.
- Olha, foi mal. Tô atravessando uma fase difícil, a maior barra, você sabe melhor do que ninguém. O que custa ser um pouco solidária, hein?
- E tu é solidário comigo, menino?
- Eu te amo. Cê sabe. 
- Humpft... Me deixe assistir a novela, anda.

Girei os calcanhares.
Dei meia volta.
Eu fui para lá, ela, acolá.
Respirei fundo, meio orgulhoso, meio culpado.
Não ia chorar porque homem não chora.
(mas para ela eu ainda não era o menino?)

Um tempo depois, retornei.  Ela estava de pé em frente a bancada da cozinha, onde a garrafa térmica repousava.

- Fiz teu chá. Mergulhei dois sachês na água.
- Obrigadão. Você é dez, dez não, mil! Viu o açucareiro?
- Aonde já se viu tomar chá com açúcar? Garoto, você tem cada uma.
- Eu gosto, mas você está completamente certa. Sobretudo porque quero pregar o olho e açúcar é estimulante.
- Cuidado para não se queimar.
- Obrigado mais uma vez, minha joia rara. 
- Tá... Tá... Tá... Vê se agora o doutor me deixar terminar a novela.


Glup! Glup! Glup! Glup! Glup! Glup!Glup!Glup! Glup! Glup! Glup!

Há muitas maneiras de dizer Eu Te Amo. Entre elas, cuidar do moleque cujo coração você sentiu bater lá dentro e antes de ser um pingo de gente com um nome sequer, já chegou tomando espaço e exigindo ar, sangue, alimento. Cada célula daquele corpo. Se espreguiçando todo. Te chutando feito Pelé, Ronaldo, Romário, Neymar. 

- Me dá um abraço? Eu te amo, dona Maria. Viu? Te amo.
- Te amo também - ela disse. - E vem cá, provou o empadão que eu fiz?
- Ainda não.
- Pois ficou ótimo. Toma nota, come amanhã, não esquece.


Deitei na cama esperando a bebida fazer efeito durante o resto da noite e sonhando acordado com o almoço do dia seguinte.

sexta-feira, janeiro 05, 2018

Café Expresso

- Tá bonitão todo vestido de preto – saudou Arthur.

- Estou vivendo um rito de passagem – brinquei. – Ou só arriscando um charme de filósofo existencialista.

Sentamos numa mesa no térreo de uma pequena livraria, em Botafogo. Pedimos dois expressos.

- O que tem feito, cara? - perguntei.

- Ralando. Nem te conto, tô partindo para o velho mundo no final do mês. Pintou um especial. Me puseram na fita e é isso aí, viagem e uma grana extra à vista.

Brindamos com os cafezinhos recém chegados.

- E você, Gregório? Como anda a vida, brother?

Contei como foram os dias que se seguiram quando Marina resolveu bater o prego no caixão do nosso namoro. Narrei a vertigem, a queda, o grito.

quarta-feira, dezembro 27, 2017

O penúltimo dia do ano


Rio de janeiro, dezembro de 2017
Vênus em Capricórnio


Meu velho,

Hoje passei em frente ao seu quarto e te vi assistindo a novela. Bora comer uma pizza, pedi. Você nem tava a fim, todo jogado de bermudão na cama, mas topou. Bebeu três chopes, me assistiu devorar algumas fatias. O garoto pediu portuguesa, vocês não ouviram?, bradou aos garçons.

Você puxou assunto tentando me resgatar do buraco que eu tinha me metido dentro de mim. Filho, faz mal pra você ser tão fechado, afirmou. E eu lá tristinho, tristinho continuei empilhando as rodelas de tomates e bebericando a limonada. Você falava e dava de cara com o silêncio uma, duas, três vezes até contar uma história sobre puns-plofts e cuecas sujas que me fez rir de exibir todos os dentes. O nó na garganta cedeu.

Velho, muitas vezes você tem um jeito ríspido, que machuca para valer. Tu fala umas coisas sem sentido quando fica puto, inventa lorotas até do Papa, da Virgem Maria, da Nossa Senhora. Nem a Santíssima Trindade se salva quando a sua língua estala por conta da raiva. Mas, no fundo, tem um bom coração. Mesmo assim quantas vezes não tive vontade de pegar minhas coisas e ir para, sei lá, Katmandu? Me revolto. Grito. Bato porta. Nossa história é um prato cheio pra qualquer psicanalista de meia tigela confabular sobre Complexo de Édipo adoidado. 

A bem da verdade você sempre tá aí. Forte. Resiliente. Resistente. Esses dias sem você eu teria pirado. Minhas massas cinzentas teriam se transformado em miojo aguado.

Sei que não é a primeira vez que você me acode, não. Você era quem me salvava do chinelo da mãe quando o boletim chegava, bem como da dieta macrobiótica das férias no sertão ao enviar caixas de refri, bala e chiclete. 

Eu voltava de viagem, correndo pelo saguão do aeroporto louco pra te ver. Em casa, tinha até presente em cima da cama. Pena que nunca consegui montar a pista Hot Wheels Laboratório Cientifico. Mas dos livros que você comprou quando eu estava me alfabetizando tipo A Boca do Sapo até todos os Harry Potter, eu devorei. Se sou um grande leitor a culpa é sua, velho. Ou melhor, o mérito é seu também. Embora eu, particularmente, ache que todo sujeito caladão, solitário e observador feito eu, se encontra nos livros, na literatura, na palavra.

Quando cresci as nossas pelejas começaram. Seja pelo choque de gerações ou por dois temperamentais vivendo sob o mesmo teto, mas na infância éramos melhores amigos. Você era meu herói, meu salvador, conselheiro e companheiro de viagens. Cruzamos o eixo Rio-São Paulo de trem. Chorei num brinquedo do Playcenter agarrado em você. Exploramos o mosteiro de São Jerônimo, em Portugal, bem como as cidades histórias de Minas Gerais.

Vô! Vô, compra um ioiô pra mim?, perguntei ao pararmos pra almoçar em Barbacena.

Não quer algo melhor, menino?

Apontei para o boneco de um desenho muito famoso no início dos anos 2000. Pendurava o brinquedo novo na janela do veículo até o fim do passeio e dormia com o balançar do ônibus.

Ele vai saber mais da viagem que você, ralhou o velho.

Numa parada vimos a miniatura de um canarinho numa gaiola de alumínio. Cabia na palma da mão. Levamos para casa.

Vai se chamar Gaia, batizei a ave de mentira, todo prosa.



Quando voltamos da pizzaria, você voltou pro teu canto, para as tuas novelas acumuladas e o pokerzinho no celular. Já eu me meti nas cobertas.  Me joguei na cama desarrumada a dias e de onde tenho saído pouco. Pluguei os fones no ouvido, “adoro os teus cabelos, adoro a tua voz, adoro teu estilo, adoro tua paz de espírito.”, cantou Renato Russo. Não tive como não associar imediatamente a letra da música ao senhor.

Sua cara tá melhor, garoto. Comida é revigorante, você disse, satisfeito.

E olha que o senhor come feito passarinho. Gosta mesmo é da cervejinha ali do lado, mas tem o coração do tamanho de um jumbo. Bem grande.


Te amo pra caralho.

Teu neto,
Gregório