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De Ulisses para Penélope

Como casal nós nunca fomos frequentadores assíduos da areia e do sal, mesmo morando pertinho da praia. Exceto aquela vez em que viajamos para Arraial do Cabo.
Você mergulhava para longe, desembaraçando as ondas do mar enquanto eu te esperava voltar, encantado, cada vez mais imerso. Não tive medo de você nadar para longe. Eu sabia que você voltaria. Talvez aquela tenha sido a nossa melhor época.
Às vezes me pego tentando desvendar o exato ponto em que a vontade de enfrentar o mar aberto, a incerteza da imensidão, se tornou maior do que voltar para os meus braços. Quando eu virei âncora e o peso de meu corpo sob o seu, insuportável, o meu sal, intragável? A certeza absoluta, inabalável e inquestionável de que eu não poderia mais te fazer feliz como já fiz?
Qual canto da sereia te roubou de mim?
Protetor, sinto medo de você ser sequestrada por piratas que lambuzem seu corpo, seu sexo, te embriaguem da flor de lótus a ponto de você se esquecer de mim, mesmo sabendo o quanto fui importante na…

Chá de Camomila

- Há mais de 15 dias eu não consigo dormir direito, ando tendo insônia brava. Comprei até um chá diferente, mais caro. - Como você vai ferver a água? - No micro-ondas. - Dizem que não é bom. Pega a chaleira embaixo da pia. - No micro-ondas é rapidinho. - Faz mal esquentar água dessa forma. - Quer saber? Deixa que eu faço do meu jeito!
[...]
- Você anda muito chato, todo nervoso. Não se pode falar mais nada. - Olha, foi mal. Tô atravessando uma fase difícil, a maior barra, você sabe melhor do que ninguém. O que custa ser um pouco solidária, hein? - E tu é solidário comigo, menino? - Eu te amo. Cê sabe. Você é tudo que eu tenho agora. - Humpft... Me deixe assistir a novela, anda.
Girei os calcanhares. Dei meia volta.
Eu fui para lá, ela, acolá. Respirei fundo, meio orgulhoso, meio culpado. Não ia chorar porque homem não chora. (mas para ela eu ainda não era o menino?)
Um tempo depois, retornei.Ela estava de pé em frente a bancada da cozinha, onde a garrafa térmica repousava.
- Fiz teu chá. Mergulhei dois …

A Tempestade

Acordei.
Não consegui encarar o mundo. Me mantive cabisbaixo do quarto ao banheiro. Mijei, escovei os dentes e joguei um punhado de água na cara. Não retribui o olhar do outro lado do espelho.
Calado, não quis me aproximar de ninguém, quem quer que fosse. Me servi de café e deixei o local. Os ladrilhos da cozinha se transformaram no chão de madeira da sala de estar. Sentei no sofá diante das amplas janelas, ainda decoradas com alguns adornos do natal, com o mar e a praia de Ipanema ao fundo. O céu cor-de-chumbo, confeitado pela chuva, era o palco das gaivotas. Depositei a caneca de café sob a mesinha de centro. 
De repente percebi a ruptura do mal estar que estava desencaixado dentro de mim desde que abri os olhos. Trouxe a falta de ar, a respiração ofegante e ríspida. Chorei. As lágrimas desabaram sem anúncio. Um rosto, hoje inexistente na minha vida de alguém que foi embora a pouco tempo, piscou entre os meus pensamentos.
Senti o pânico de uma criança esquecida na escola.
Reconheci os ob…

André Marciano

Devoto
No coração da casa de Dona Hera há um suntuoso altar de madeira. No centro, um imponente Jesus Cristo de gesso, de aproximadamente um metro e meio, expõe as chagas, rodeado pelas estatuetas de outros santos.  À esquerda há Nossa Senhora disso, Nossa Senhora daquilo, São Francisco de Assis e São José. Já à direita, mais uma infinidade de Nossas Senhoras e o Menino Jesus, peladinho na manjedoura. Velas, terços, quadros e crucifixos completam o acervo.
Dona Hera foi a grande entusiasta da minha comunhão. Entre os 8 e 9 anos de idade fui um pequeno e fervoroso devoto do catolicismo. Frequentava a missa todo domingo, rezava antes de dormir, lia a bíblia. Não tirava o escapulário do peito, chegava até a chorar quando tia Branca, a catequista, faltava.
Um dia antes da prova de inglês, ainda na escola, Eu e Daiana, minha colega do fundamental e, também, da catequese, juntamos nossas mãozinhas para começar a oração. No que nosso professor, um sujeito estranhíssimo, diga-se de passagem, de…

Café Expresso

- Tá bonitão todo vestido de preto – saudou Arthur.
- Estou vivendo um rito de passagem – brinquei. – Ou só arriscando um charme de filósofo existencialista.


Sentamos numa mesa no térreo de uma pequena livraria, em Botafogo. Pedimos dois expressos.