segunda-feira, outubro 23, 2017

Eternidade

A ambulância cruzou os céus de Copacabana emitindo luzes vermelhas. A sirene dobrava o som das ondas e das outras naves. Antes de pousar no alto do edifício Chopin, ao lado do hotel Copacabana Palace, a assistência reduziu os freios anti-gravitacionais que a permitiam voar. O corpo de Marieta Guinlle chegou sem vida ao veículo. 

A matriarca morrera de causas naturais. Quando o filho caçula, que ainda morava com a mãe, entrou no quarto ela jazia, de olhos fechados, na cama de casal. O semblante tranquilo revelava uma morte calma, pacifica. Indolor.

Frederico, aos 40 anos de idade, viveu com a mãe toda uma vida. Seus irmãos moravam com as famílias em colônias intergalácticas em outros planetas. Um negócio lucrativo, afinal, havia um mercado espacial em crescimento. Fred também teve a oportunidade de abrir um resort em Marte ou nos anéis de saturno, mas preferiu cuidar de dona Marieta. Velha demais, aos 209 anos, para aguentar uma viagem interplanetária. 

Após o falecimento, como de costume naqueles novos tempos, o corpo foi cremado e descartado. Já a consciência, transferida para um cartão de memória feito a partir de diamante. 

O dispositivo ficava em poder do governo. Era possível comprá-lo por um alto valor. A grosso modo, só os privilegiados poderiam ter seus entes de volta.

sexta-feira, setembro 08, 2017

A garotinha do papai


Quando meu pai foi embora de casa, a loucura de mamãe foi dividida em duas partes: o esquecimento – a chaleira deixada no fogão, a água que transbordava da banheira, os nomes que se descolavam dos rostos. O trajeto da escola para casa podia ser medido por quantas voltas dávamos no mesmo local –, e o surto.

O surto foi a constatação de que, com a separação, minha mãe havia perdido o juízo. Ao tentarmos algum contato éramos recebidos com hostilidade e xingamentos. 

Seis anos se passaram desde a tarde em que uma vizinha precisou me buscar na escola (“Bianca, sua mãe não está bem”, ela murmurou ao pé do ouvido) até a manhã dos gritos e jalecos esvoaçantes. Reencontrar meu pai era, depois de tanto tempo, como rever um estranho. Meu pai, já instalado em outra casa, com outra mulher, não teve saída a não ser me levar para viver a sua nova vida.

O apartamento em que ele morava, em Copacabana, nada tinha a ver com o que passei a viver no Rio Comprido, na instável e solitária companhia de mamãe. No endereço da Rua Barata Ribeiro as centenas de livros de papai estavam perfeitamente alinhadas na estante, o jornal esticado, sem um vinco, à mesa da sala de estar, bem como seus discos, organizados.  Madalena, minha madrasta, se esforçava em me agradar na tentativa de agradar ainda mais papa. E talvez eu tenha sido feliz durante aqueles primeiros anos. Afinal, formávamos novamente uma família.

quarta-feira, setembro 06, 2017

Os Darmas

Os quatro cavaleiros do apocalipse

A morte de Gregório foi uma notícia amarga.

Eu estava na Redação quando Caetano me ligou e contou, sem rodeios, que o cara tinha, de uma noite para a outra, se entupido de remédios. Imediatamente, senti o gosto ácido da bílis sob a glote. Corri para o banheiro, sem sucesso. Cheguei com o azedume preso na ponta da língua.

Gregório e eu havíamos nos conhecido há 10 anos na faculdade de jornalismo. Embora uma das pessoas mais divertidas que convivi, dosava como um judeu o que destinava de si para os outros. Quem o conhecia tão bem quanto eu sabia reconhecer como ele era um nerd ermitão. Gregório se esforçava para esconder a dificuldade em conviver com as pessoas. Acho que por isso nós dois nos entendíamos tão bem. Éramos parecidos nessa questão e, talvez por isso, o suicídio dele não fosse uma surpresa.

Nós dois integrávamos o Darmas, um quarteto formado no bar ao lado do campus, no quarto ano, e composto por mim, Greg, Caetano e Renatinho. Durante a faculdade, costumávamos nos reunir para encher a cara, fumar cigarros e baseados e ter conversas sobre sexo, política, cinema, música, literatura e, é claro, mulheres. 

sexta-feira, setembro 01, 2017

Corpos no Vazio

O corpo dele estremeceu sob o dela. E ele sentiu que havia atingido o ápice. Ela apertou as cochas ao redor da pélvis do homem, enquanto ele repousava a cabeça entre os seios dela. Os braços que a rodeavam e apertavam as costelas quase a ponto de quebrá-las, durante o ato, começaram a afrouxar. Rapidamente, a mulher desvencilhou-se.

Ela caminhou até o banheiro, carregava o sêmen dele dentro de si e embora fosse extremamente cuidadosa quanto aos métodos contraceptivos, estava ansiosa por fazer a higiene. Nu, Heitor deitou-se de costas no colchão, encarando o teto. O apartamento precisava de uma reforma. Era herança do avô. Portanto, sentiu-se culpado por deixar o imóvel em estado tão lastimável. As paredes apresentavam rachaduras e infiltrações e o cheiro de mofo e umidade era constante. Exceto pelo colchão em que descansava, não havia mais nada no cômodo. Nada de sofás, cadeiras, mesas, quadros, abajures, porta-retratos, tampouco utensílios de cozinha. No toalete, só o essencial para se lavarem. Fora isso, não existia nenhum registro de presença humana no local.

Dandara era a primeira a chegar. Em seguida, Heitor aparecia esbaforido e apressado. Fizera, inclusive, uma cópia da chave para ela. Depois de tanto atrasos ele tentou se justificar, disse que haviam marcado na mesma hora que o filho entrava na escola. Com a frieza que lhe era tão habitual, sem abandonar a elegância, Dandara respondeu:

- Eu não quero saber da sua vida, querido.

Os amantes não se conheciam a fundo. Haviam se visto inicialmente na sessão de autógrafos de um ex-aluno de Heitor, o autor publicava seu livro pela pequena editora de Dandara. Na ocasião, o escritor puxou o professor pela manga da camisa e os apresentou.  

- Este foi o homem que me ensinou tudo que sei – salientou.

Um convidado logo puxou assunto com a jovem estrela, deixando Heitor e Dandara a sós. Os dois logo passaram a jogar os dados da sedução entre olhares, meio sorridos, breves toques. A atração fora imediata. Se o carisma instantâneo e, ao mesmo tempo, tão resiliente de Heitor atraíram Dandara, somado aos cabelos desalinhados e rebeldes e a barba por fazer do homem, por sua vez, ele se viu cativado pela altivez e autoconfiança daquela mulher que agia feito uma deusa de ébano. Na mesma noite em que se conheceram Dandara, sugestivamente, entregou o cartão de apresentação com o celular para Heitor. No dia seguinte ele enviara uma mensagem. Dali a mais dois, passaram a se encontrar no apartamento da rua das palmeiras, em Botafogo.

A única regra entre eles consistia em manter as vidas privadas da porta para fora. Sem macular o espaço. Qualquer tema que envolvesse a intimidade que não estivesse reservada aos amantes estava proibido. Normalmente, Dandara, de temperamento mais frio e distante, era quem conseguia manter esta norma. Inclusive, quando em um dos encontros ele comentou que pensava em se separar da esposa para viver com a empresária, ela riu como se ouvisse uma devaneio juvenil:

- Se quer o divórcio, Heitor, faça isso por você, não por mim – alertou Dandara.

- Você não quer viver comigo? - perguntou ele.

- Não. Estou muito bem sozinha, single.

- Mulher, você é fria demais. Eu, não. Sou homem de sangue quente – afirmou o professor. - Ao menos pensa em como seria uma vida a dois?

- A convivência diária é mortal.

A bem da verdade Dandara não sonhava com uma vida convencional a dois. Nem com Heitor, tampouco com os outros homens com os quais dormia. Não queria ter filhos, sequer gostava de crianças. Retraía-se ao estar no mesmo ambiente que um bebê de colo. A profissão era seu norte. Seus dias se resumiam à editora da qual era proprietária, a academia e as aulas de mestrado. Gostava de chegar em casa, preparar uma refeição saudável para tomar com uma taça de vinho e ler antes de dormir. Já Heitor, professor de um pré-vestibular, trabalhava pela manhã. À tarde, levava o filho ao colégio e, em seguida, ministrava aulas particulares ou se encontrava com a amante.

Mas enquanto as carnes de Heitor e Dandara estavam unidas toda linguagem mantinha-se em suspenso, exceto por o que os corpos eram capazes de comunicar – os pelos arrepiados, espasmos, fluídos, suores. Entranhados, os dois consistiam em dois hedonistas, sem história, sem passado, sem sequer um idioma. Refugiados naquele apartamento em ruínas, eram estrangeiros explorando as zonas estranhas e proibidas entre os ossos, músculos, atalhos e orifícios entregues a toda sorte de invasões.


  • Foto: Banco de imagens sem direito autoral
  • Arte: Camila de Araujo

quarta-feira, agosto 16, 2017

O dilema de Julia

Léo tinha cismado com o decote do meu vestido.

A gente estava curtindo uma festa no apartamento do Marquinhos, um amigo da faculdade dele e de meu irmão – os três eram calouros de engenharia. Quanto a mim estava no último ano do ensino médio e fazendo cursinho pré-vestibular. Léo havia me largado no meio da sala de estar, transformada em pista de dança, para conversar com dois amigos. Continuei dançando até que ele surgiu, apertou meu braço e me puxou para mais perto de forma agressiva.

- Qual foi, Julia? Peguei os caras olhando para os seus peitos. Mulher minha não fica doidona e mostra o corpo assim. Se comporta – mandou.

Ele implicava com tudo e, na real, eu estava ficando de saco cheio. Fui atrás de meu irmão para irmos embora. Afinal, era ele quem dirigia. Chamei, gritei, perguntei por Daniel aos outros convidados e vasculhei em cada quarto.

Quando encontrei o Dani não quis acreditar no que vi. Fiquei estática. Perto para gravar cada detalhe da cena, mas longe o suficiente para não ser observada. Me sentia incapaz de mover um músculo. Meu estômago estava pesado e o resto do corpo, dormente. Não sei quanto tempo durou aquilo, mas quando vi meu irmão sair do quarto ajeitando a braguilha da calça jeans tive um medo que nunca senti por ele. Como andava de cabeça erguida, não me viu.

Me aproximei da porta do quarto. Uma garota estava, completamente inerte, na cama. Vestia camiseta branca e da cintura para baixo estava despida. Um odor conhecido impregnava o quarto, misturado a um cheiro azedo. O perfume de Dani estava no ar e um filete de vômito escorria da boca da desconhecida. Ela tossiu. Assustada, corri para fora do cômodo e voltei para a sala. Puxei Léo, dançando com amigos, e disse que não estava me sentindo bem a fim de irmos embora.

- Eu pago o Uber – anunciei.


                                                           ***
Quando, ainda adolescente Daniel vazou um vídeo íntimo da ex. namorada, nossa mãe não fez nada. Quando Dani assediou a empregada, nossa mãe a demitiu. Após aquela noite e nos dias subsequentes eu só conseguia pensar naquela cena protagonizada pelo meu irmão e no que ele havia se tornado. Não pude deixar de culpar a negligência, a subserviência e a tendência de sempre protegê-lo de mamãe pelo monstro que ele se transformara.

Léo estava lá em casa quando comentei sobre o que vi. Ele devia a ser a pessoa que eu mais confiava no mundo, não é? Almoçamos e nos trancamos no meu quarto. Estávamos abraçados na minha cama com Víbora, música da Tulipa Raiz saindo das caixas de som. Contei todos os detalhes, da diferença de cor entre os dois corpos entrelaçados, da inércia de um e a velocidade do outro, o silêncio de um e os gritos abafados de prazer à terrível sensação de que agora eu era cúmplice do que, como mulher, eu sempre temi que me acontecesse.

- Julia, você tem certeza do que viu? - perguntou.

- Claro, Léo – respondi, indignada.

- Você está fazendo uma acusação muito grave.

- Eu sei o que vi, Leonardo.

- Você não bebeu nessa festa?

De repente, comecei a chorar. Sentei na cama com as mãos nos olhos.

- Viu, você é muito frágil, Julia. Eu não falei nada para você ter um ataque histérico – afirmou Léo.

- Vai embora – pedi.

- Julia...

- Vai embora, porra! – gritei.- Eu não quero mais te ver. Mete o pé da minha casa!

Ele levantou, jogou a mochila nas costas, balbuciou “maluca” e bateu a porta.

Por que todas as mulheres que afrontam os homens são consideradas loucas?