sexta-feira, setembro 08, 2017

A garotinha do papai


Quando meu pai foi embora de casa, a loucura de mamãe foi dividida em duas partes: o esquecimento – a chaleira deixada no fogão, a água que transbordava da banheira, os nomes que se descolavam dos rostos. O trajeto da escola para casa podia ser medido por quantas voltas dávamos no mesmo local –, e o surto.

O surto foi a constatação de que, com a separação, minha mãe havia perdido o juízo. Ao tentarmos algum contato éramos recebidos com hostilidade e xingamentos. 

Seis anos se passaram desde a tarde em que uma vizinha precisou me buscar na escola (“Bianca, sua mãe não está bem”, ela murmurou ao pé do ouvido) até a manhã dos gritos e jalecos esvoaçantes. Reencontrar meu pai era, depois de tanto tempo, como rever um estranho. Meu pai, já instalado em outra casa, com outra mulher, não teve saída a não ser me levar para viver a sua nova vida.

O apartamento em que ele morava, em Copacabana, nada tinha a ver com o que passei a viver no Rio Comprido, na instável e solitária companhia de mamãe. No endereço da Rua Barata Ribeiro as centenas de livros de papai estavam perfeitamente alinhadas na estante, o jornal esticado, sem um vinco, à mesa da sala de estar, bem como seus discos, organizados.  Madalena, minha madrasta, se esforçava em me agradar na tentativa de agradar ainda mais papa. E talvez eu tenha sido feliz durante aqueles primeiros anos. Afinal, formávamos novamente uma família.

quarta-feira, setembro 06, 2017

Os Darmas

Os quatro cavaleiros do apocalipse

A morte de Gregório foi uma notícia amarga.

Eu estava na Redação quando Caetano me ligou e contou, sem rodeios, que o cara tinha, de uma noite para a outra, se entupido de remédios. Imediatamente, senti o gosto ácido da bílis sob a glote. Corri para o banheiro, sem sucesso. Cheguei com o azedume preso na ponta da língua.

Gregório e eu havíamos nos conhecido há 10 anos na faculdade de jornalismo. Embora uma das pessoas mais divertidas que convivi, dosava como um judeu o que destinava de si para os outros. Quem o conhecia tão bem quanto eu sabia reconhecer como ele era um nerd ermitão. Gregório se esforçava para esconder a dificuldade em conviver com as pessoas. Acho que por isso nós dois nos entendíamos tão bem. Éramos parecidos nessa questão e, talvez por isso, o suicídio dele não fosse uma surpresa.

Nós dois integrávamos o Darmas, um quarteto formado no bar ao lado do campus, no quarto ano, e composto por mim, Greg, Caetano e Renatinho. Durante a faculdade, costumávamos nos reunir para encher a cara, fumar cigarros e baseados e ter conversas sobre sexo, política, cinema, música, literatura e, é claro, mulheres. 

sexta-feira, setembro 01, 2017

Corpos no Vazio

O corpo dele estremeceu sob o dela. E ele sentiu que havia atingido o ápice. Ela apertou as cochas ao redor da pélvis do homem, enquanto ele repousava a cabeça entre os seios dela. Os braços que a rodeavam e apertavam as costelas quase a ponto de quebrá-las, durante o ato, começaram a afrouxar. Rapidamente, a mulher desvencilhou-se.

Ela caminhou até o banheiro, carregava o sêmen dele dentro de si e embora fosse extremamente cuidadosa quanto aos métodos contraceptivos, estava ansiosa por fazer a higiene. Nu, Heitor deitou-se de costas no colchão, encarando o teto. O apartamento precisava de uma reforma. Era herança do avô. Portanto, sentiu-se culpado por deixar o imóvel em estado tão lastimável. As paredes apresentavam rachaduras e infiltrações e o cheiro de mofo e umidade era constante. Exceto pelo colchão em que descansava, não havia mais nada no cômodo. Nada de sofás, cadeiras, mesas, quadros, abajures, porta-retratos, tampouco utensílios de cozinha. No toalete, só o essencial para se lavarem. Fora isso, não existia nenhum registro de presença humana no local.

Dandara era a primeira a chegar. Em seguida, Heitor aparecia esbaforido e apressado. Fizera, inclusive, uma cópia da chave para ela. Depois de tanto atrasos ele tentou se justificar, disse que haviam marcado na mesma hora que o filho entrava na escola. Com a frieza que lhe era tão habitual, sem abandonar a elegância, Dandara respondeu:

- Eu não quero saber da sua vida, querido.

Os amantes não se conheciam a fundo. Haviam se visto inicialmente na sessão de autógrafos de um ex-aluno de Heitor, o autor publicava seu livro pela pequena editora de Dandara. Na ocasião, o escritor puxou o professor pela manga da camisa e os apresentou.  

- Este foi o homem que me ensinou tudo que sei – salientou.

Um convidado logo puxou assunto com a jovem estrela, deixando Heitor e Dandara a sós. Os dois logo passaram a jogar os dados da sedução entre olhares, meio sorridos, breves toques. A atração fora imediata. Se o carisma instantâneo e, ao mesmo tempo, tão resiliente de Heitor atraíram Dandara, somado aos cabelos desalinhados e rebeldes e a barba por fazer do homem, por sua vez, ele se viu cativado pela altivez e autoconfiança daquela mulher que agia feito uma deusa de ébano. Na mesma noite em que se conheceram Dandara, sugestivamente, entregou o cartão de apresentação com o celular para Heitor. No dia seguinte ele enviara uma mensagem. Dali a mais dois, passaram a se encontrar no apartamento da rua das palmeiras, em Botafogo.

A única regra entre eles consistia em manter as vidas privadas da porta para fora. Sem macular o espaço. Qualquer tema que envolvesse a intimidade que não estivesse reservada aos amantes estava proibido. Normalmente, Dandara, de temperamento mais frio e distante, era quem conseguia manter esta norma. Inclusive, quando em um dos encontros ele comentou que pensava em se separar da esposa para viver com a empresária, ela riu como se ouvisse uma devaneio juvenil:

- Se quer o divórcio, Heitor, faça isso por você, não por mim – alertou Dandara.

- Você não quer viver comigo? - perguntou ele.

- Não. Estou muito bem sozinha, single.

- Mulher, você é fria demais. Eu, não. Sou homem de sangue quente – afirmou o professor. - Ao menos pensa em como seria uma vida a dois?

- A convivência diária é mortal.

A bem da verdade Dandara não sonhava com uma vida convencional a dois. Nem com Heitor, tampouco com os outros homens com os quais dormia. Não queria ter filhos, sequer gostava de crianças. Retraía-se ao estar no mesmo ambiente que um bebê de colo. A profissão era seu norte. Seus dias se resumiam à editora da qual era proprietária, a academia e as aulas de mestrado. Gostava de chegar em casa, preparar uma refeição saudável para tomar com uma taça de vinho e ler antes de dormir. Já Heitor, professor de um pré-vestibular, trabalhava pela manhã. À tarde, levava o filho ao colégio e, em seguida, ministrava aulas particulares ou se encontrava com a amante.

Mas enquanto as carnes de Heitor e Dandara estavam unidas toda linguagem mantinha-se em suspenso, exceto por o que os corpos eram capazes de comunicar – os pelos arrepiados, espasmos, fluídos, suores. Entranhados, os dois consistiam em dois hedonistas, sem história, sem passado, sem sequer um idioma. Refugiados naquele apartamento em ruínas, eram estrangeiros explorando as zonas estranhas e proibidas entre os ossos, músculos, atalhos e orifícios entregues a toda sorte de invasões.


  • Foto: Banco de imagens sem direito autoral
  • Arte: Camila de Araujo

quarta-feira, agosto 16, 2017

O dilema de Julia

Léo tinha cismado com o decote do meu vestido.

A gente estava curtindo uma festa no apartamento do Marquinhos, um amigo da faculdade dele e de meu irmão – os três eram calouros de engenharia. Quanto a mim estava no último ano do ensino médio e fazendo cursinho pré-vestibular. Léo havia me largado no meio da sala de estar, transformada em pista de dança, para conversar com dois amigos. Continuei dançando até que ele surgiu, apertou meu braço e me puxou para mais perto de forma agressiva.

- Qual foi, Julia? Peguei os caras olhando para os seus peitos. Mulher minha não fica doidona e mostra o corpo assim. Se comporta – mandou.

Ele implicava com tudo e, na real, eu estava ficando de saco cheio. Fui atrás de meu irmão para irmos embora. Afinal, era ele quem dirigia. Chamei, gritei, perguntei por Daniel aos outros convidados e vasculhei em cada quarto.

Quando encontrei o Dani não quis acreditar no que vi. Fiquei estática. Perto para gravar cada detalhe da cena, mas longe o suficiente para não ser observada. Me sentia incapaz de mover um músculo. Meu estômago estava pesado e o resto do corpo, dormente. Não sei quanto tempo durou aquilo, mas quando vi meu irmão sair do quarto ajeitando a braguilha da calça jeans tive um medo que nunca senti por ele. Como andava de cabeça erguida, não me viu.

Me aproximei da porta do quarto. Uma garota estava, completamente inerte, na cama. Vestia camiseta branca e da cintura para baixo estava despida. Um odor conhecido impregnava o quarto, misturado a um cheiro azedo. O perfume de Dani estava no ar e um filete de vômito escorria da boca da desconhecida. Ela tossiu. Assustada, corri para fora do cômodo e voltei para a sala. Puxei Léo, dançando com amigos, e disse que não estava me sentindo bem a fim de irmos embora.

- Eu pago o Uber – anunciei.


                                                           ***
Quando, ainda adolescente Daniel vazou um vídeo íntimo da ex. namorada, nossa mãe não fez nada. Quando Dani assediou a empregada, nossa mãe a demitiu. Após aquela noite e nos dias subsequentes eu só conseguia pensar naquela cena protagonizada pelo meu irmão e no que ele havia se tornado. Não pude deixar de culpar a negligência, a subserviência e a tendência de sempre protegê-lo de mamãe pelo monstro que ele se transformara.

Léo estava lá em casa quando comentei sobre o que vi. Ele devia a ser a pessoa que eu mais confiava no mundo, não é? Almoçamos e nos trancamos no meu quarto. Estávamos abraçados na minha cama com Víbora, música da Tulipa Raiz saindo das caixas de som. Contei todos os detalhes, da diferença de cor entre os dois corpos entrelaçados, da inércia de um e a velocidade do outro, o silêncio de um e os gritos abafados de prazer à terrível sensação de que agora eu era cúmplice do que, como mulher, eu sempre temi que me acontecesse.

- Julia, você tem certeza do que viu? - perguntou.

- Claro, Léo – respondi, indignada.

- Você está fazendo uma acusação muito grave.

- Eu sei o que vi, Leonardo.

- Você não bebeu nessa festa?

De repente, comecei a chorar. Sentei na cama com as mãos nos olhos.

- Viu, você é muito frágil, Julia. Eu não falei nada para você ter um ataque histérico – afirmou Léo.

- Vai embora – pedi.

- Julia...

- Vai embora, porra! – gritei.- Eu não quero mais te ver. Mete o pé da minha casa!

Ele levantou, jogou a mochila nas costas, balbuciou “maluca” e bateu a porta.

Por que todas as mulheres que afrontam os homens são consideradas loucas?

terça-feira, agosto 15, 2017

A Antessala do Crime


Nova Itália, uma pequena cidade no vale Paraíba do Sul, deve seu desenvolvimento a um estrangeiro, Hercules Salvatore. Italiano como os outros barões do café de São Paulo, coube a ele construir a principal ferrovia de transporte de grãos para os portos do Rio de Janeiro e Santos. A crise de 1929 quase o deixara pobre, se não passasse a usar a sua malha ferroviária para o tráfico de plantas e animais para a Europa.

Com a sua morte, aos 90 anos de idade, em 1995, os gêmeos Saulo e Sílvio assumiram o comando da Companhia e expandiram os negócios. A bem da verdade, Sílvio, que tinha visão empreendedora e nervos de aço, ao contrário do irmão, mais aventureiro. Suas composições carregavam armas, drogas, dinheiro ilegal, pessoas. A família fazia negócios com políticos, repórteres, milicianos e traficantes. Para manter a fachada, envolvia-se em atividades filantrópicas. Catarina, filha caçula do velho Hercules ministrava aulas na escola politécnica da cidade. Bem como a mãe, a matriarca do crime, dona Magnólia. Robson, marido de Catarina, não por acaso, foi eleito prefeito no mesmo ano em que se casou.

Essa era a história da cidadezinha para a qual fui transferido após rastrear uma das maiores quadrilhas de tráficos de drogas do Rio de Janeiro que incluía, entre traficantes, milicianos e políticos, o próprio prefeito da capital do estado. Como punição minha equipe foi emboscada numa operação e eu, enviado para a antessala do crime.


A Morte do Caseiro

O histórico criminal de Nova Itália se baseava em brigas de bar, pequenos furtos e motoristas que cometiam atropelamentos e não prestavam socorro. Anormalidades, como um corpo encontrado com um tiro a queima roupa na principal – e única – via da cidade, eram passadas ao delegado Conrado, um filho da puta corrupto, sujo e vendido.

Naquela manhã, eu passava um sermão em um bêbado que se envolvera numa briga, antes de liberá-lo, quando o rádio anunciou uma tentativa de roubo na casa dos Salvatore. Código 748 603 111, o bandido tinha sido morto. Olhei para Conrado na mesa em frente. Ele sempre resolvia as chamadas da poderosa família.

- O cara foi chumbado. A gente não tem o que fazer – disse Conrado - Vai lá. Faz umas anotações e pronto. É bom que você leva a sua bunda mole para passear.

O cabo Arthur foi comigo na viatura. Garoto tímido, quieto, mas honesto. A honestidade chega a ser muito mais valiosa que o ouro naquela região. Eu quase confiava nele. Chegamos rápido a suntuosa residência. Repórteres e curiosos já se reuniam feito corvos no portão.

Sílvio, Saulo, Catarina e dona Maria estavam reunidos no extremo da sala. Me apresentei aos familiares. Sílvio nos levou até o corpo. Arthur o reconheceu de imediato.

- Dedeco! – espantou-se.

- Quem? - perguntei.

- Uma tristeza, policial – afirmou Sílvio – Dedeco era o nosso caseiro, foi criado como um irmão para mim, Saulo e Catarina.

- Delegado – me apresentei. – Delegado Garcia.

Olhei atentamente o corpo no chão. Uma mancha de sangue seco manchava o assoalho de mármore. O tecido queimado em torno do orifício revelou que o menino fora morto com tiro de pistola. Vestia camiseta, bermuda e chinelos. O que estranhei, quem é que vai assaltar uma casa de chinelos?

Sílvio me pegou pelo braço e me levou ao extremo da sala.

- Vou enviar uma perícia ao local – disse.

- Não é necessário, delegado. Está claro que o que houve foi uma tentativa de assalto – retrucou Sílvio. - Dedeco era o caseiro, tinha todas as chaves e códigos de segurança. Além disso, ele cresceu aqui. Sua mãe trabalhava para a gente. Inclusive, os empregados concordaram em testemunhar.

- Sob que pressão eles concordaram?

Sílvio fixou os olhos nos meus. Não era um homem acostumado a ser questionado. A postura confiante, os ombros eretos, o queixo erguido e a expressão arrogante demonstravam que ele julgava todo o resto da humanidade a seu serviço.

- Talvez não saiba como as coisas funcionam. É melhor deixar o caso com o delegado Conrado – afirmou, friamente.

- Eu assumi o caso – rebati.

Dei a volta e retornei ao corpo estirado no chão. Saulo, gêmeo de Silvio, andava nervosamente pela sala de um lado para o outro. Não tinha a empáfia do irmão. No entanto, o que mais me surpreendeu foi era a calma de dona Magnólia, elegantíssima com pulseiras de ouro, um lenço com estampas de tigre e um penteado que valia o meu aluguel. Agia como se não tivesse um defunto na sala de estar.

Escrevi umas anotações em um bloco e fotografei o corpo com o meu celular. Em seguida, solicitei a perícia. Praxe, os caras também deviam ter sido comprados.

Antes de ir embora passei o olhar rapidamente em todos os membros. Os olhos esbugalhados de Saulo encaravam Dededo. Duas esferas castanhas que emitiam uma única mensagem: o sentimento de culpa.

Antes que eu partisse, Sílvio apertou a minha mão com força.

- Você não sabe como as coisas funcionam por aqui – murmurou.

Chamei o cabo Arthur sem dar atenção à ameaça. Entramos na viatura e voltamos para a delegacia.

- Entrarei em contato – disse aos familiares antes de sair, pousando o olhar sob o outro gêmeo.


Conrado me leva para passear