terça-feira, janeiro 13, 2009

" Enquanto isso na lanchonete"

Enquanto jogo dados com amigos em uma mesa próxima, ela me observa com desdém,tragando melancolicamente um Carlton.
Mantém um olhar superior, parece inatingível, imortal, ou apenas indiferente, entre uma jogada e outra, a correspondo com rápidos olhares, mas ela permanece ali, apenas fumando seu cigarro.
Imagino que aquele “ar de madame” seja apenas temor, de que a vida lhe traga ilusões e decepções,que outrora já vivera, que a enganem, a roubem ou apenas teme que lhe amem, desejava que alguém adentrasse em seus olhos castanhos,derrubasse a barreira que construiu entre si e a existência ,segurasse em sua mão, e a auxiliasse a superar o medo de viver,mas já havia se acomodado demais para arriscar.
Lanço os dados mais uma vez, qual o problema em tentar de novo? Levanto-me e caminho timidamente até ela, (parasafreando Clarice Lispector: Tímido e ousado ao mesmo tempo.)
Chego a sua mesa e aproximo o meu rosto do seu.Pergunto:
- Quer um café?
Lança-me um olhar debochado e pergunta em tom depreciativo:
- O que?
Tento não desanimar diante daquela recepção e digo:
-Quer um café quente?
Ela então me fita discretamente da cabeça aos pés, o que me faz sentir um certo constrangimento, estava completamente despojado, tênis de lona, calça jeans e a habitual camisa do Bob Dylan (Dylan é mestre!)
Após analisar-me, acende mais um cigarro e observa à fumaça se dissipando pelo ar, penso em voltar a minha mesa e perguntar aos rapazes se gostariam de uma rodada de chopp, mas então, num encontro intenso, nossos olhares se chocam com tamanha voracidade que algo se rompe e torna-se explicito,é o que sinto invadir meu ser,correr velozmente pelo meu sangue, unir-se a minha essência.E calmamente ela responde com um sorriso na ponta dos lábios:
-E Por que não?