sexta-feira, setembro 24, 2010

JANTA

Fiz seis traços e escrevi o nome dela. Três vogais e três consoantes ao lado do meu, e um coração envolvendo as letras no papel.
Olhei em volta, a procurando pelo meu quarto até ouvir o barulho de seus dedos deslizado através das cordas do violão. Apoiava-se na janela com a praia de Ipanema ao fundo. Tocou uma canção de sua autoria e parou pela metade, aproximou-se com ternura, encostou a cabeça em meu peito, do lado do coração, fitou os botões da minha camisa xadrez e com a voz infantil, um tanto caipira, típica das cidadezinhas da Terra da Garoa, revelou que me amava, e em seguida, presenteou-me com um contagioso sorriso metálico. Beijei-lhe inumeras vezes como tanto desejei. Afaguei seus cabelos negros e provei de sua pele clara, em contrate com a minha amorenada.
Deslizei minhas mãos por aquele ser, explorando cada pedaço de seu corpo; lábios, rosto, peitos, pernas. Lhe fiz carícias, a cobri de beijos, mordidas e sorrisos, ao me perder e encontrar em seus quadris de ninfeta, e admirar o meu reflexo no fundo de seus olhos míopes, que naquele momento me enxergavam com tamanha lucidez.
Quando ela se cansa, adormece e aninha-se sobre meu corpo. Então me ponho a construir em minha mente um retrato de seu sono, pincelando com afeto suas curvas e suspiro na memória, enquanto sonho de olhos abertos, comigo e com ela numa casa, seja no Rio ou em São Paulo, com nossos filhos e gatos habitando o mesmo espaço, torcendo para que Marcelo e Maria Luiza se adaptassem aos bichanos, gostassem de Beatles e Los Hermanos, e não brigassem na hora do jantar.
Ao despertar no meio da noite, minha menina arranca-me de tais devaneios e me come me bebe, até saciar sua insáciavel fome de mim, e me levar para outro sonho, dentro de si.