sábado, fevereiro 19, 2011

CIOCCOLATO

Um par de sapatos vermelhos colore a extensa avenida construída em preto e branco, onde caminha apressado aquele rapaz nervoso logo à frente. Alguns pedestres se chocam contra seus ombros e braços fortes e ele quase derruba a caixa enrolada num papel dourado que carrega nas mãos. Até crianças sempre frágeis são subitamente atiradas ao chão por duas pernas que de tão grandes para elas parecem árvores.

Nada o faz parar, ou sequer, diminuir a marcha, ignora quem encontra pelo caminho, sejam os tradicionais conhecidos de banco de bar, turistas acenando com câmeras modernosas, pedindo auxílio para registrarem o mais famoso pôr-do-sol da Cidade Maravilhosa, ou até belas damas mais maravilhosas ainda em biquínis pouco saudáveis para hipertensos e cardíacos.

Zé confere as horas no relógio de pulso. O rosto é tomado por um medo que se espalha por suas feições primitivas, herdadas dos verdadeiros herdeiros da avenida que o próprio percorre. Aperta o passo como se há séculos atrás estivesse fugindo dos homens que roubaram este mesmo chão de seus ancestrais e transformaram este feito covarde em letra de samba.

Devido ao esforço, o organismo se aquece, e para desfazer-se do calor, põe-se a transpirar tanto que a camiseta gruda no corpo. Tensão e a ansiedade aumentam a cada minuto que se finda, tornando-se cruelmente um passado inutilizado. Está atrasado.

Quando finalmente seus pés em brasa estacam sob a sombra de Laura, dá se conta que não precisa mais correr, afinal, se até a noite retardou-se a fim de esperá-lo, mantendo os últimos raios de sol presos no horizonte distante, porque justamente ela não faria?

Ao ouvir seu nome, a menina vira-se em si mesma, e a brancura de seu rosto de boneca torna-se da cor dos calçados que se aproximam dos seus. Afasta-se, disfarçando o sorriso que surge entre suas divertidas bochechas. Ela então afaga os cabelos castanhos, meio ondulados, curtos, com alguns cachos bicolores, e cumprimenta o dono dos sapatos que estão a tomar seu espaço com a voz forte e quase imperceptivelmente rouca, que lhe é peculiar. Eloqüente como sempre. Fotografa secretamente com os olhos que se apertam ao sorrir, todos os cantos do rosto rente a si.

Em silêncio, Zé entrega a Laura o pacote que há consigo, que o desembrulha rapidamente e mancha os lábios finos, levando-os até seu conteúdo escondido. Sorri num sinal de aprovação e em seguida, aproxima-se para beijar-lhe a boca ofegante, que então se enche da doçura vindoura do hálito da garota cujo órgão selado no peito aos poucos alcança o mesmo ritmo do coração inquieto do rapaz.