quinta-feira, abril 07, 2011

O MAL AMADO.



Gilberto olhou-se no espelho do banheiro, viu-se barrigudo, envelhecido, com um princípio de calvíce. Não gostou daquele que lhe desferia um olhar alucinado. Talvez fosse a sonolência, a pouca iluminação do cômodo ladrilhado ou pura imaginação, afinal, era madrugada. Concentrou-se para finalizar aquele ato repugnante e novamente cair na cama para dessa vez dormir sem ser interrompido.

O homem a sua frente acompanhava cada um de seus movimentos como se o dissecasse com uma lâmina fria para exibir suas camadas gordurosas, órgãos corroídos e pensamentos enferrujados. Sentiu um frio agudo percorrer a espinha dorsal, seria medo ou mais uma dor abdominal? Na tela plana rente a si, platinada, alguém sorria sardonicamente, endiabrado, murmurando frases vans de amor e ódio. Gilberto lembrou-se da amada agora nos braços de outro, depois de utilizar-se dos seus afagos e tão cruéis abraços. Contorceu-se. Uma lágrima dançou por seus traços brutos e desfez-se em sua barba espessa: PLOOOOOOOOOOOOOOFT !

Alívio.

Arrancou um pedaço de papel higiênico e limpou-se. Em seguida, jogou-o fora e levantou-se. Encarou o próprio excremento por minutos intermináveis, enquanto em sua mente uma sucessão de cenas dos anos com Madalena refaziam-se. Ela não devia ter repudiado do amor que aquele homem carregava no coração cardíaco, mas o fez sem mágoa ou arrependimento.

Ele ajoelhou-se defronte a latrina e encarou o próprio reflexo agora entre uma enorme bola fétida. Mergulhou a mão direita ali para agarrar a imagem de si mesmo e retirou da água imunda a própria merda, onde continham suas impurezas e inutilidades, simples restos. Com voracidade levou a boca e engoliu de uma vez tudo o que seu corpo rejeitara.