domingo, julho 10, 2011

FRUTAS VERMELHAS


Sessenta e seis anos de idade, altura mediana, magro, com os poucos cabelos grisalhos cobrindo sua cabeça e óculos wayfarer bege de grau protegendo seus olhos, que sempre se mantém atentos e com um olhar reflexivo. Inteligente e extremamente culto, um verdadeiro intelectual. Tão cético e pragmático que quando li Max Weber na faculdade comecei a questionar a originalidade de seus discursos. Lá estava eu diante do cara que paga as minhas contas. Vulgo pai.

A mesa de mármore repleta de travessas e pratos sujos, copos e garrafas de refrigerante nos separava. De uns tempos pra cá, deixamos de jantar na extensa mesa medieval, da sala de estar decorada com pratos pregados na parede, um costume português, e nos espremíamos na copa, com o som da novela das sete vindo do quarto da empregada.

Estávamos na sobremesa, papai devorava um pedaço de melancia, enquanto eu me deliciava com uma barra de chocolate. Observei-o passar a faca na polpa macia da fruta a sua frente. Eu martelava na minha cabeça a melhor maneira de entrar naquele assunto com o responsável pela minha existência.

- Pai, posso fazer uma pergunta um pouco intima? – Perguntei

- Hum... Pode. – Respondeu meu pai levando um pedaço de melancia aos lábios.

- Você teve outras namoradas?

- Sim, claro que eu tive! Sempre namorei!

- Desde quando?

-Desde os meus 17 anos. Por quê?

- Ahmm... Qual é o segredo?

- Segredo?

- É... Qual é o seu segredo, você não parece ser romântico.

- Humpf... Romantismo é coisa de mulher!

Mais tarde, frustrada a tentativa. Recorri ao meu irmão mais velho. Rafael abandonou as chuteiras da pegação para se casar no final do mês. Me aproximei enquanto ele comia no mesmo lugar que horas atrás eu tentava iniciar a mesma conversa com o nosso velho. Veja bem, não é que eu não tenha experiência, mas depois de um baita pé na bunda, meses de tristeza infinita e tentativa de afastar quaisquer sentimentos afetivos, subitamente me apaixonei em duas semanas. E quando a gente está enervada pela paixão é constante a sensação de caminhar numa corda bamba, em alguns casos com tigres, leões e homens bomba nos esperando lá embaixo.

Rafael lanchava morangos, sozinho na mesa da cozinha. Peguei um e perguntei de uma vez:

- Você tem cara de quem era o maior pegador. Me conta, qual o segredo?

- Com mulher?

- É.

Rafael me lançou certos olhares na tentativa de ler pensamentos que bloqueei com esforço. Provavelmente já havia deduzido que eu estava de olho em alguém e seria ele quem me consolaria quando tudo desse errado, como das outras vezes, exceto a grande vez em que resolvi superar a desilusão amorosa comprando um Playstation e me afundei na nerdice.

Rafael levou um morango gordo e vermelho à boca, mastigou, engoliu e disse em tom profético:

- Faça a mulher sorrir, que isso já é meio caminho andado.

Pegou outra daquelas frutinhas, fitou-a sem dó e deu-lhe uma mordida.

- Você tem de confiar em você, eu já te disse. Você tem capacidade pra isso.

Fiquei admirando os morangos na cuba verde em cima da mesa imaginando o quanto alguns se pareciam com corações e bundas. Quando Rafael se levantou , agradeci pelos conselhos, segui pelo corredor e entrei no meu quarto.Em seguida, telefonei para a mulher mais linda do mundo querendo senti-la sorrir através da voz.