terça-feira, janeiro 28, 2014

OS METÓDICOS



O metódico mesmo sendo confundido com paranóico, não é necessariamente um ser organizado. Não é perfeccionista, nem tem obrigatoriamente TOC ou alguma compulsão, embora também poça desenvolver tais sintomas. Não é o cara que fica sem pregar o olho por não conseguir ajeitar as calcinhas da esposa por cores, tamanhos e freqüência de uso, colocando as mais atraentes na gaveta de cima. Entretanto, um metódico talvez se pegue contando mentalmente as escadarias do metrô ou arquiteta passo a passo um ritual para um único evento no dia, e não estou falando de algo do tipo pular de bumgee jumping, pode ser simplesmente banal como: comprar camisas xadrez, uma passagem de ônibus, fazer as compras do mês.

Detalhes mínimos, minúsculos, microscópicos, semi invisíveis são o fetiche do metódico, que se envaidece todo ao reparar em algo quase imperceptível ou tão comum quanto a intensidade do brilho nos olhos da mulher amada. Às vezes prefere guardar pra si, já outras resolve externar, escolhendo “a dedo” cada palavra para dizer quão bonito é o formato do queixo dela, daquela marquinha na perna esquerda.

Metódico que é metódico, pensa bem antes de falar, muito mais que o normal, pesando as palavras em balanças imaginárias, independente de fazer sentido está pondo e tirando qualquer grama a mais, para se encaixar perfeitamente na situação adequada, sem faltar nem exagerar, portanto, o pavor de todo metódico é justamente alguém fazê-lo fugir de seu script tradicional, quem o faz, é surpreendido com guagueiras e segundos de mudez, seguidos de olhares tensos para os lados, até que o cérebro programado do metódico improvise algo sem que suas feições o denunciem. É literal. Mentaliza frases professadas e anúncios de jornal para em seguida destrinchá-los letra por letra, vírgula por vírgula, avaliando em três cópias datilografadas o valor da pontuação.

Cada metódico tem seu próprio método para sobreviver. Uns não dormem sem fechar os armários e gavetas do quarto ou colocam essência de baunilha nos sapatos novos para dar sorte e começam a ler revistas pelo fim, outros simplesmente evitam pisar em carpetes. Tudo parte de um grande plano estudado e criado para sobrevivência e afastar um medo inconsciente que na mente daqueles que os traçam a exaustão, de forma extremamente fiel e pragmática, executando-os a cada gesto, gera o verdadeiro sentido da existência, onde liberdade está em poder escolher os próprios atos por mais estranhos e repetitivos que sejam.

Pode parece superstição, todavia, não é ao escolher roupas repetindo o mesmo padrão; listras, xadrez, quadriculados, o que for, até mesmo eleger uma única ou prima cor, já que não existe um metódico que não seja obcecado por padrões.