domingo, agosto 07, 2011

ENQUANTO ISSO NO ESCRITÓRIO...


Todos sabiam que Arnaldo e Miguel não simpatizavam um com o outro e que desde uma pauta atrasada até a colherzinha de plástico usada na bandeja do café era motivo de discussões inflamadas entre os dois; que por coincidência, conjunção astrológica ou pura implicância possuíam gostos opostos a tudo e curiosamente ou não, convocavam de documentos importantes a colegas para o almoço na mesma hora. Logicamente nesses momentos quem pagava o pato era sempre o estagiário que precisou aprender a digerir uma feijoada e rolinhos de Hot Filadélfia na velocidade de uma copiadora de última geração.

Num dia anormalmente quente para a época do ano, no quarto andar do prédio mais alto da Avenida Rio Branco, Arnaldo ao chegar a sua baia, deu-se conta de duas coisas: 1. O ar condicionado estava quebrado 2. Sua caneca havia desaparecido. Não era a primeira vez que aquele fenômeno acontecia. Da última vez, Miguel fizera um escândalo para que desligassem a refrigeração por causa de uma dor de garganta, deixando os outros funcionários cozinhando debaixo de seus ternos bem cortados. Portanto, em algum ponto entre as sinapses doutoradas e completamente paranóicas de Arnaldo, o companheiro de profissão, estava por trás do sumiço de sua caneca dos Beatles, comprada por uma pechincha no eBay.

Arnaldo dirigiu-se a baia de Miguel. Mexeu nas coisas, tirou tudo do lugar, derrubando as inúmeras flâmulas do flamengo espalhadas nas divisórias e saiu sem encontrar o que procurava. Quando Miguel chegou e viu sua bandeirola de 1987 autografada por Zico no chão, não teve duvidas do responsável pela bagunça em seu ambiente de trabalho. Deu sete passos, virou a esquerda, mais dois e entrou no cubículo do nosso beatlemaníaco.

- Você é um sem educação mesmo! – Disse Miguel aproximando-se de Arnaldo

- E você é um ladrão! – Acusou Arnaldo estufando o peito para o outro

- Ladrão é você que fica chafurdando nas coisas dos outros.

- Quem tem fama de afanar as coisas alheias no escritório não sou eu.

- Você tem é mania de perseguição mesmo é o que todo mundo diz por aqui e eu concordo.

- Todo mundo quem? Fala!

- Não interessa. Você se acha muito melhor do que realmente é.

- Você tá falando isso só porque eu fui promovido e você não, seu invejoso.

- Inveja de um eterno freguês?

- O que você quer dizer com isso?

- Seu time é vice do meu há tanto tempo que de raivinha você foi mexer nas minhas bandeirolas do mengão.

Você pode chamar um homem de ladrão e do que quiser, mas definitivamente não pode falar mal do time dele. Não é difícil imaginar, que após essa última declaração, Miguel recebeu um soco direto no olho. Que a partir de então virou uma briga com dois engravatados rolando pelo chão distribuindo socos e pontapés, destruindo computadores e telefones, derrubando as divisórias das estações de trabalho e arrastando tudo que houvesse pelo caminho, desde latas de lixo a seres humanos. Quando o Poderoso Chefão chegou para trabalhar, obviamente duas horas depois do que o resto de seus empregados e cheirando a loção de barbear importada, se deparando com aquela baderna, quis saber quais eram os responsáveis por aquilo, com sangue dos olhos por trás de lentes de grau.

Diante do Don Corleone da sala 69, localizada no edifício mais alto da Avenida Rio Branco e antes do que nunca, no mais quente também. Arnaldo e Miguel receberam encabulados e com inúmeros hematomas pelo corpo, uma solidaria carta de suspensão de um mês.

No final do expediente, quando a maioria do pessoal rumou feliz para seus carros com ar condicionado, dona Maria depositou no mesmo lugar, a caneca dos Beatles de Arnaldo, agora limpa e reluzente e não com borras de café sujando os penteados ao estilo moptop do quarteto de Liverpool. Talvez se Arnaldo houvesse se dirigido a copa, aproximadamente há oito passos de sua baia e perguntado sobre a caneca para a copeira, provavelmente não ficaria um mês inteiro sem trabalhar e sem salário, assim como, Miguel, seu indesejável colega de trabalho, poderia doar parte do pagamento, que este também deixara de receber para o FAEAF, o fundo de auxilio para ex. jogadores do Flamengo.

No escritório começou o boato de que aquilo não passava da vingança do vascaíno recalcado, porém, a fofoca durou pouco, porque o patrão anunciar a compra de novos ares condicionados parecia ainda mais polêmico.