sábado, abril 07, 2012

PRESIDENTE DA REPÚBLICA É ASSASSINADO

Não é todo dia que morre um presidente da república. Ainda mais assim, com um tiro certeiro na cabeça, lançando pedaços de cérebro e ossos em cima da primeira dama e dos seguranças. A propósito, depois do Kennedy, que chefe de Estado tem coragem de desfilar desprotegido por uma avenida como se fosse uma madrinha de bateria?

Assim morreu Raimundo “Do Povo” Nonato, o trigésimo sétimo presidente do Brasil. Vindo de Capitão de Campos no interior do Piauí para São Paulo, onde se filiou ao Partido dos Operários Católicos. Como político fez grandes mudanças no país e prometia mais. Chamado de “o segundo Jango” era óbvio que uma hora ele ia levar uma bala nos cornos.

Estávamos na redação esperando o delegado Guedes se pronunciar. Acho que naquele momento, o tira seboso devia ter se arrependido de ter trocado de jurisdição. Fato é que, tava dando a minha hora e naquele dia, eu não queria apurar mais nada. Só pensava em chegar no meu conjugado em Botafogo, tomar umas e dormir. Viviane havia ido embora há duas semanas. Se ela continuasse comigo provavelmente haveria suco de pepino no lugar das minhas brejas.

Fui embora sem o policial ainda ter se pronunciado. Provavelmente revelaria o resultado da pericia. Aí teríamos que chamar especialistas em armas, projéteis, matemáticos que calculassem a trajetória da bala. Tinha um primo que gostava de atirar, pena não ser tão fotogênico para aparecer na televisão.

Dirigia pela Washington Luís, em velocidade normal. De vez em quando desviava de um gato que aparecia na rodovia desértica. Até que vi uma jovem loira parada ao lado de um Gol, no acostamento. Já era tarde. Resolvi parar. Se fosse homem passava direito. Perguntei se precisava de ajuda. Ela disse que o motor havia pifado. Desci do meu carro e fui dar uma olhada, não entendo nada de motores, pra falar a verdade, nem gosto de dirigir. Quis impressioná-la. Disse que não tinha mais jeito. Olhei para ela. Rosto bonito, boa de corpo, seios no tamanho ideal. Tinha cara de rica.

Ofereci uma carona. Ela aceitou. Entramos no meu carro. Um Passat Alemão 1998. Hoje não vale nada, mas já foi um carrão. Perguntei seu nome. Débora. Débora tentou ligar em vão para a seguradora. Já era tarde da noite. Liguei o rádio. Nada do Guedes abrir o bico. Reconheci a voz de Viviane anunciando que transmitiriam ao vivo o resultado da perícia. Desliguei.

- De onde você é? – Perguntei

- Venho de uma ilha distante – Respondeu Débora.

- Avalon? Ilha dos Bem Aventurados? – Disse num tom descontraído

- Paquetá... Não conheço ninguém aqui. Tava indo pra casa de uns conhecidos, não sei o que fazer. Aliás, eu nem sei o seu nome, você foi tão bom ajudando uma desconhecida.

Só ajudei porque é mulher. Não falei nada disso pra ela.

- Gosto de ajudar as pessoas – Disse lançados olhares ora para a pista ora para as coxas brancas e delgadas de Débora. – Me chamo José. José Lopes. A propósito, você poderia passar essa noite na minha casa já que não conhece ninguém.

Débora pensou receosa, mas acabou aceitando o convite. Logo chegamos ao meu quarto e sala na Voluntários da Pátria. Enquanto ela tomava banho, eu lhe preparei um misto quente e abri uma cerveja. Débora devorou o sanduíche com gosto e pediu um gole da minha bebida. Passei a garrafa e peguei outra cerveja para mim. Quando demos por nós estávamos lado a lado, no meu colchão bem no meio do cômodo.

- Sua casa não tem quase nada. – Disse Débora olhando ao redor – Geladeira, fogão, cafeteira, computador, rádio e uma pilha de jornais e livros, e mais jornais e livros. Parece que brotam do chão. Por que você não compra uma televisão?

- Assisto muita TV no meu trabalho. – Disse – Vou dar uma mijada.

Fui ao banheiro. Ao voltar, Débora estava completamente nua no colchão. Minha camisa do Vasco da Gama que havia sido emprestado para ela dormir, jogada num canto como se não tivesse o mínimo valor, em outras circunstâncias aquilo teria me chateado muito. Nos deitamos. Ela tirou minha roupa e me beijou enquanto colocava a mão entre minhas pernas. Não ficamos nisso nem meia hora, quando meu celular tocou. Ignorei da primeira vez. Idem da segunda. Fiz o mesmo na terceira. Na quarta não teve jeito. Levantei puto da vida e atendi:

Era seu Roberto, direto do aquário. Malditos editores:

- Zé, corre pra Copacabana agora. O Guedes vai falar em vinte minutos!

- Beto, é que eu...

- Tá aí, ainda? Corre pra lá, homem! No caminho me manda uma mensagem por celular com o telefone daquele seu primo atirador. Vai agora! TU... TU...TU...TU...TU...TU...

Saí catando as minhas roupas e me vestindo de qualquer jeito sob os olhares fuziladores de Débora. Peguei as chaves do carro e disse antes de bater a porta, sem encará-la:

- Tenho que dar uma saidinha. Já volto. Se quiser pedir alguma coisa pra comer tem uns trocados embaixo da cafeteira. Me espera.

Horas depois, quando voltei definitivamente para casa, encontrei minha camisa do Vasco ainda jogada no chão, mas nenhum sinal de Débora, nem mesmo um bilhete. Olhei debaixo da cafeteira. O dinheiro havia sumido. Xinguei meia dúzia de palavrões e abri outra cerveja.