terça-feira, julho 02, 2013

SESSÃO DE CINEMA

Arnaldo colocou 300 bananas de dinamite no porta malas de seu Ford preto. Você pensa que essas coisas só acontecem no exterior, com aqueles americanos malucos com hambúrgueres entupindo seus cérebros. Quem sabe, no Iraque e Afeganistão onde tem guerras santas e homens barbudos envoltos em panos maltrapilhos, pregando em nome de Deus.

As câmeras do último andar do estacionamento do Shopping Beautiful Rio ficavam sempre desligadas. Parte do plano de cortar custos. Arnaldo havia trabalhado por dez anos na loja de construção no primeiro piso. E gostava de ir para lá quando precisava ficar sozinho. Costumava encontrar adolescentes trepando entre os carros, o chão lotados de camisinhas e sentia uma grande inveja daqueles rapazes de peitoral duro e espinhas no rosto, que não precisavam trabalhar para pagar as suas contas e podiam desperdiçar líquido seminal à vontade.

Arnaldo já não podia. Quarenta e  três anos. Um casal de filhos. Arnaldinho na faculdade. Bruna completando o ensino médio. Aquela era a primeira vez desde os seus dezoito anos, que ficara desempregado. Toda uma vida no ramo da construção, já foi gerente de marketing, diretor de vendas, subgerente do setor de grama sintética, consultor de porcas para maquinário pesado. Dez anos desses passados na Prego & Preço, onde a partir do quarenta, trabalhara inicialmente como caixa e agora, vendedor. A esposa havia se tornado a chefe da casa, e sinceramente, ele não se importava nem um pouco com isso, porque o que lhe incomodava eram aquelas garotas de quinze anos e saias curtas que o deixavam excitado, e rapazes sobre elas, com tanta juventude e vida pela frente, cujos pais empresários e executivos, não irão deixá-los pegar no batente, antes de saberem no mínimo cinco línguas.

Para Arnaldo, a culpa de todo mal da sociedade atual, era dos jovens. Havia um ódio hitleriano dele para a faixa dos 12 aos 26 anos. Raiva de seus corpos corados na praia, enquanto ele separava parafusos e porcas. Daquelas bocas que devoravam tudo e qualquer comida, ao contrário dele, que sofria com a indigestão de uma comida mais pesada. Das vastas cabeleiras que os garotos ostentavam, negros fios lustrados, castanhos e loiros dourados. Sem falar no pior, quando raspavam todos os fios exibindo o cucoruco pálido, sendo que, Arnaldo precisava esconder a calvice e os fios grisalhos. Do tempo que desperdiçavam acordando tarde e podendo não fazer nada o dia inteiro, quando um homem de família precisava sair às seis da manhã para pagar as contas dos dois filhos. E principalmente, raiva porque tudo era dirigido aqueles malditos. A moda. As propagandas. As músicas. As novelas. Os filmes. As lojas. Arnaldo estava cansado de ver universitários nos anúncios de banco e adolescentes metidos em uniformes azuis, durante o intervalo do jornal anunciando a melhor escola.

De seu carro, olhou para mais um casal fornicando no estacionamento. Dois homens na faixa dos vinte anos de idade. Com o pé no acelerador atropelou os dois, antes que as bundas brancas se virassem. Sentiu os corpos sobre as rodas e deu marcha ré. Ninguém veria, era parte do plano de cortar custos, lembra? Em seguida, posicionou o carro até a entrada do cinema, que ficava no último andar. Olhou no relógio. Era a terceira sessão daquele filme com o cantor adolescente do momento, as salas deviam estar apinhadas de garotinhas histéricas com seus namorados bundões o suficiente para vê-las gritando por outro homem.

Esperou quinze minutos. Dez minutos. Cinco minutos. Dos alto falantes, uma voz declarou o fim da sessão de “Apaixonados por acaso, com Jordan Benter”. Esperou um minuto. Pisou com tudo no acelerador, quebrou as portas de vidro que separavam o estacionamento do cinema e invadiu o lugar, jogando pipocas para os lados, atropelando lixeiras e jovens casais.

Em seguida, com um pequeno esforço devido a barriga protuberante, saiu do automóvel, portando um galão de gasolina e espalhou pelos arredores. As pessoas estavam desnorteadas e havia poucos seguranças, um deles, despedaçado sobre as rodas do Ford, para onde se dirigiu e abriu a traseira.

Com o isqueiro, Arnaldo acendeu as bananas de dinamite. Em poucos segundos explodiriam levando tudo para os ares, inclusive ele mesmo. O seguro de vida não pagava suicídio. Os filhos, o rapaz de 22 e a menina de 18, não veriam um centavo do seu dinheiro.