sábado, agosto 31, 2013

Pílulas de Ficção

Com a mão direita na altura dos olhos, aproximadamente a um palmo de seu rosto bronzeado, Gregório afasta um punhado de folhas de papel já amareladas pelo tempo, da água esverdeada que nos rodeia.

- São muito bons... Você devia ter investido numa carreira de escritora. – Diz Gregório ainda imerso na leitura. Ele ainda é novo, não entende que a maior parte das coisas na vida, a gente abandona pela ordem de oportunidade que surgem. A vida não é uma ficção

Observo os ombros largos do menino a minha frente. Tem metade da minha idade, mas já é homem feito. Corpulento, viril e insaciável como costumam ser os garotos no fim da puberdade, exibindo sem vergonha e com orgulho os pelos que nascem em seu peito e rosto. Gregório é menino só no sorriso, que esconde agora, concentrado nos contos que escrevi, quando tinha sua idade e uma máquina de escrever.

Estamos no antigo apartamento da minha avó, no Jardim Botânico. Costumo vir aqui quando preciso de um refujo, afastada de crianças ensandecidas pela casa e de qualquer conexão com a caixa de e-mails alertando cobranças do trabalho. Sei. É uma loucura o que estamos fazendo e prefiro não contar como tudo começou.

- Deixa isso, vem aqui. – Digo num tom de voz languido que surte efeito. O corpo moreno de índio apache se encaixa entre minhas pernas, em movimentos suaves e rítmicos.

Somos dois contrastes, mas prefiro nos enxergar nesse momento como complementos; a pele escura contra a minha carne branca, desbotada. Seu corpo forte afrontando minha magreza em excesso e a musculatura levemente flácida devido a idade. Entretanto, como uma velha anciã, balzaquiana, sou eu quem guio o jovem. Gosto de ter o controle.

Queria presentear Gregório com o mesmo sorriso devotado que ele me dirige. Mas não o faço. Digo que essa paixão vai passar, que o que ele tem é admiração. Forneço uma pequena explicação psicanalítica para isso e ele retruca supondo que eu poderia estar carregando um filho seu na barriga sem saber. Me contorço numa gargalhada.

- É impossível, garoto. A vida não é uma ficção. Você ainda não viveu a vida como ela é. Além do mais, já passei da idade de ter filhos, se é que me entende. E já tenho os meus e os amo muito, mais do que você pode entender. Estou muito bem nessa questão, obrigada.

Sinto que fui dura com Gregório. Para quebrar a tensão, digo que ele pode ficar com as minhas pílulas de ficção. Contos, crônicas e romances que arrisquei na adolescência e época da faculdade. Agora um punhado de folhas amareladas encontradas na casa da falecida matriarca da família Tarten.

Gregório se ergue da banheira. Ouço apenas o som das gotas de seu corpo caindo no ladrilho, não existe barulho algum lá fora, sequer penso num mundo fora deste apartamento.

Movido pelo ímpeto da juventude, meu adorado se veste apressado. Quero que ele fique, mas permaneço calada. Fecho os olhos, o vapor morno, quase frio da água me envolve. Quero que ele me beije na boca. Porém, primeiro vem o ruído do zíper percorrendo a braguilha do jeans, e por último da porta que se fecha. Abro os olhos como se arrancada de um sonho. Quero ele volte.


            Mas sou eu quem abandona a banheira, deixando que o líquido misturado as secreções humanas escorram pelo ralo. No chão, recolho meus antigos escritos. Gregório, provavelmente magoado, simulando desdém os deixara espalhados pelo assoalho.


             Nua, abandono banheiro. Não há ninguém em casa. Me dirijo a cozinha e recolho a caixa da pizza que compramos pelo caminho e as garrafas pet de Coca-Cola vazias. Jogo fora pela lixeira do prédio. Gregório só consegue comer, almoçar, jantar, realizar refeições básicas do dia-a-dia, se estiver lendo alguma coisa. Meu leitor voraz, os papéis avulsos, achados aqui por acaso, foram de utilidade hoje.

 Faço novamente a leitura psicanalítica, diagnosticando uma espécie de fixação. Sei que amanhã ele virá. Portanto, para o próximo almoço, além de outra pizza e mais dois litros de refrigerante; deixarei para a sobremesa, um apetitoso romance de Nelson Rodrigues.