terça-feira, março 11, 2014

MÃE

Entre minha mãe e eu, pela primeira vez, imperava um mar de águas brandas.

            É bem verdade que há tempos cessaram os gritos mandando fazer isso e aquilo. As palmadas também. Os estudos andavam bem. Eu e ela chegamos a um denominador comum: o problema era a matemática e não se fala mais nisso. O quarto, outrora um antro de livros, roupas espalhadas e sujas pelo chão, andava modestamente arrumado desde a primeira vez que eu trouxera uma visita que se prolongou por mais tempo que mamãe estava acostumada.

            Minha mãe e eu éramos como Xavier Dolan e Anne Dorval, naquele filme canadense  J’ai Tué Ma Mére. Nada de diálogos, ao passo que nossas tentativas de nos aproximarmos, inevitavelmente gerava uma colisão, repulsão. Como a genitora de Hulbert, personagem de Dolan, dona Maria se esforçara como mãe solteira para dar tudo que podia, mas não parecia feita para o difícil e ininterrupto oficio da maternidade.

Mamãe me amava, mas nunca soube demonstrar. Só me pediu desculpas uma vez, porque afinal, as pessoas erram e as mães também. Era uma mulher dura, vinda do nordeste. O que a gente mais fazia no fim, era bater cabeça. Mas como tive certeza que mamãe me amava? Quando pela primeira vez nós conversamos e não senti medo. Não avistei de longe as ondas impetuosas que nos afastariam. Nenhum caixote sobre a cabeça. A gente percebeu que não ia ser nada fácil nadar naquele oceano que nos encontrávamos, mas não havia outra opção, afinal, ela queria me ver feliz. De salgado mesmo, só as minhas lágrimas. Se ela chorou, não vi. Mamãe tinha dificuldade em expressar qualquer tipo de afeto.

De uns tempos pra cá, ela me olha como se reparasse pela primeira vez nas minhas camisas largas, no cabelo aparado, num ou outro detalhe do rosto, em como falo ou paro perto da geladeira. Olha atentamente a maneira que devoro o jantar que ela prepara assim que chego do trabalho.  É estranho estar tão em evidencia, exposto. Talvez seja essa a paz que Freud procurava, é positivamente estranho sermos pela primeira vez mãe e filho.