segunda-feira, fevereiro 23, 2015

Tupperware

Dezenas de potes plásticos se acumulam na geladeira. Sobras das refeições dos últimos dias, quiçá, semanas.  Alguma coisa ali no meio não anda cheirando bem, apodreceu.
Hoje percebi que há tempos você não aparecia na minha cabeça. E eu, que achava a gente tão igual finalmente não encontro absolutamente nada de você em mim. 
Nem mesmo ancorada um filete da culpa que você projetava sem motivo aparente, mas que na verdade era só o peso da sua consciência.
Achei até curioso já que meses atrás a sua presença imperava nos meus pensamentos, empertigava meu quarto e minhas roupas, contaminava meu corpo. Você brotava, assim, espontaneamente entre as capas dos meus discos e nos meus sonhos, na frase de um livro e até mesmo metido em salas de cinema, enxergava na tela prateada, a sua encarnação numa atriz do outro lado do mundo.
Mas de uns tempos pra cá, não. O que eu tenho feito? Tudo que eu não fazia enquanto estávamos juntos. 
Assim tem sido sua presença aqui dentro, restos. Não sinto sequer frustração por termos dado errado ou terminado desse jeito. Quando você surge na minha cachola um tanto caótica, é feito aquele pedaço de rosbife esquecido no fundo da Brastemp aqui de casa; outrora, saboroso e suculento corado no centro, servido numa das porcelanas da vovó e  que agora estribucha  encolhido em carne viva num pote qualquer.