quinta-feira, julho 09, 2015

Cabeça de Bolha

Percebi que na maioria das vezes, as pessoas que entendem o funcionamento da Bolha com mais facilidade são aquelas que também carregam essa mesma camada de pele. Você já deve ter ouvido falar, uns chamam de intimidade, outros de frequência afetiva.

Há quem diga que são muros, mas embora assim como eles, a Bolha também ofereça segurança e noites tranquilas aos moradores, em seu interior, sua ideia, não é de repulsão e sim, de disponibilidade: o quanto da minha energia, do que eu tenho a dizer e do meu tempo eu despendo de mim, para poder compartilhar com os outros.

Mas não quaisquer pessoas. Por exemplo, a minha Bolha tende a ficar mais fina e imperceptível quando estou com aqueles com os quais me sinto segura, à vontade, confortável. Podem ser amigos que vejo diariamente na faculdade ou uma vez ao mês. Com eles, não me será desconfortável de forma alguma, deixar de realizar outras atividades para tomar um café, uma cerveja, sair para a balada ou falar da minha vida horas a fio.

Curiosamente, no meu círculo de amizades, a maioria dessas pessoas, assim como eu, cultiva assumidamente as suas reservas.

Ocorre o movimento contrário com pessoas invasivas, demasiadamente expansivas e que simplesmente pensam que devemos estar disponíveis ininterruptamente. Nessas situações, involuntariamente a Bolha se adensa e pode ser que nesse tempo, a minha prioridade seja terminar um livro ou assistir a uma série, ao invés de estar irrevogavelmente  na companhia de alguém que me demanda mais energia ao administrar uma relação mais complexa.

A bem da verdade, a acolhedora cultura brasileira, não vê a Bolha com bons olhos. Afinal, somos o povo do abraço, do calor humano, do corpo aberto, da oralidade sem limite e verborrágica, tipicamente dionisíacos. Por exemplo, não nos agrada a frieza dos povos anglo-saxões que pregam a defesa da individualidade e de seus limites, inclusive, territoriais, a todo custo e mãos armadas. Assim como, desde pequenos nossos pais nos aconselham a não ser tímidos. Isso se reflete na maneira como construímos as relações familiares. Em tese, não devem existir reservas entre pais, filhos e irmãos, mas a Bolha não faz distinção alguma do lado de cá ou de lá da porta de casa e conduz ativamente relacionamentos não só familiares, como amorosos e de qualquer natureza.

 O problema é que normalmente, as pessoas que, digamos, deixam de criar suas Bolhas, encaram esse afastamento como ofensa e estranheza, quando na verdade, a Bolha proporciona um tempo vital, de autopreservação e autoconhecimento utilizado para reflexões, tomadas de decisões, organização mental, depois de um dia inteiro lidando com diferentes subjetividades. Além de também diversão. Quem não é capaz de tolerar a sua própria companhia, não se suporta. Afinal, quem não gosta de saborear as páginas finais de um bom livro ou simplesmente relaxar no banho quente, enquanto as preocupações escoam pelo ralo?