sábado, outubro 31, 2015

Alice e Gregório

Alice admirava Gregório. Era evidente pela maneira que o procurava para falar sobre o que entendia, como livros e literatura, e o que não compreendia, mas poderiam discutir a tarde inteira entre dois cafés ou pela madrugada acompanhados de alguns drinques e um pouco de música.
            Gregório era um homem sedutor, embora desprovido de beleza e vaidades e dominado pela própria insatisfação. Entre os demais demonstrava carisma e humor, embora se utilizasse disso para evitar falar de si mesmo. Exceto quando estava diante de Alice. Ele a desejava e ela sabia, mas tinha consciência que se entregar aquele homem iria destruir o limite que os tornava cúmplices das angústias que partilhavam e as faziam confiar um no outro.
            Ele era capaz de enxergar a alma confusa, perdida e solitária de Alice, envolta numa melancolia disfarçada pelos cabelos loiros e sedosos que desciam sedutoramente até os ombros, emoldurando os olhos castanhos, entre as sobrancelhas finas e arqueadas e da boca rosada que compunham sua beleza de Lolita, entre menina e mulher. Por sua vez, ela o enxergava através dos quilos acumulados, da barba por fazer, das habituais camisas xadrez e dos silêncios prolongados.
            — Eu sei como você é e não me importo. Mas seus sumiços e silêncios são complicados e irritantes. — dissera ela — Você devia saber que é extremamente egoísta da sua parte.

            Com aquela declaração, Gregório irritado, ensaiou novamente uma fuga, mesmo sabendo que voltaria para perto dela mais cedo ou mais tarde. Assim como ele, Alice também não aprendera a manter as pessoas por perto e utilizava a reclusão como forma de preservação e apenas os dois se entendiam, sem medos, sem julgamentos ou expectativas depositadas. Logo, sempre retornavam um para o outro, afim de não se perderem na estrada de vastas emoções e pensamentos imperfeitos.