segunda-feira, outubro 26, 2015

6 atos

 I – Quando eu e [X] nos separamos, depois de dois anos de um relacionamento paranoico, decidi me tornar um celibatário por tempo indeterminado.
            Não foi uma escolha automática. Não acordei no dia seguinte ao nosso rompimento fugindo de outras mulheres, mas nesse meio tempo os brevíssimos relacionamentos, se é que posso chamá-los assim, que tive deram trágica e desastrosamente errado. No fundo, eu sabia que nenhuma outra poderia substituir [X] nem me deixar em paz com a realidade daquela forma como ela me fazia estar — logo eu sempre caótico — e eram exatamente essas mesmas impressões que eu buscava sem ela.

II – [X] foi minha primeira namorada e, apesar de ter experimentado antes com outras aquelas coisas que jovens cheios de hormônios normalmente fazem, fora com ela que perdi a virgindade. [X] frequentava o apartamento da avó com quem moro desde que nasci, assim como, eu passava noites e feriados em sua casa. Brincava com sua sobrinha, ajudava o pai a levar as compras para dentro e amava [X] no chão do quarto. Quando terminamos, desconfiados e desgastados, depois de tentarmos preservar inúmeras vezes algum resquício do tempo juntos, eu me senti cansado e sozinho.

III – “Relacionamentos são muito fáceis, você está complicando.”, “Só se pode esquecer um amor com outro” e “Você está ficando velho”, foram algumas das frases que ouvi quando anunciei o meu celibato voluntário. Eu só queria voltar a ser o homem independente que eu era antes de [X] aparecer, que voltava de madrugada das festas na Lapa, no centro ou em Botafogo e que também era capaz de passar horas com um bom livro durante um final de semana inteiro, sem tédio e taquicardia.
            Além disso, eu precisava reerguer a minha vida profissional que desde o primeiro estágio, era um dos meus pilares. Eu havia acabado de começar no emprego novo e estava verdadeiramente contente com isso.

IV - Eu não queria me envolver com ninguém para (fingir) esquecer [X] por quarenta minutos ou durante um beijo, tampouco usar alguém só para afirmar a minha virilidade ou evitar passar meus últimos dias de vida como um senhor amargo, careca e barrigudo.  Pessoas não são escadas Magirus, utilizadas para salvar alguém em extrema necessidade. Pessoas são seres humanos.
            Eu só queria me sentir bem comigo mesmo, mas parece que em nossa sociedade isso só é aceitável caso você tenha alguém ao lado para aparecer em fotografias E acredite, eu e [X] fomos o típico casal de fotos bonitas em redes sociais, com direito a Praia de Ipanema e ao Parque Ibirapuera como fundo e legendas apaixonadas.

V – Depois de todo esse tempo, [Y] foi a primeira mulher pelo qual me interessei. Não emocionalmente. Gosto de nossas conversas, de seu engajamento político e social alinhado ao feminismo e a liberdade de gênero, bem como de sua autonomia e de como fala de livros. Também gosto de sua discrição quando, a sua frente, devoro um sanduíche do meu jeito desastrado, espalhando migalhas e fiapos de salada em minha habitual camisa xadrez.


VI - Penso em deslizar meus dedos entre seus cachos e beijá-la. Perto dela sou capaz de ouvir a minha própria pele estalar de desejo e o sangue correr. Preciso tocá-la e sentir nossas cores e fluídos se misturarem. O que sinto por [Y] é uma manifestação completamente corpórea, física. Basta pensar nela por alguns minutos a mais para que eu sinta toda aquela excitação. É bom estar assim novamente, afinal, a sensação que [Y] me causa faz com que eu me sinta mais vivo e mais humano.