terça-feira, novembro 03, 2015

Café a dois

Sofia observava Dédalo sorver a segunda xícara de café enquanto se perguntava se ele percebera a verdadeira intenção daquele encontro. Ela imaginou que talvez precisasse dar o primeiro passo ou se aquela postura distraída ou indiferente dele fosse só uma casca onde o rapaz se escondia.
            Ela não queria nada além de algumas horas de sexo sujo e selvagem. Nada de flores no dia seguinte ou indiretas e mensagens apaixonadas na timeline. Havia estipulado uma filosofia de vida onde buscava sugar o máximo de proveito das relações sem envolver-se sentimentalmente. Blindava-se emocionalmente alimentada pelo temor constante e avassalador que pudesse perder o controle, domada por sentimentos dependentes das escolhas de outro. Com Dédalo esse posicionamento não era diferente. Assumidamente control freak, era a certeza de tê-lo, apesar de toda aquela altivez, que a excitava. Afinal, não era mulher de perder tempo com paixões platônicas.
            A bem da verdade, há dias ela estava chorando escondida em seu quarto entre sombras e solidão. Confusa. Abandonada. Perdida. O negrume incrustado nos ossos, nos fios de cabelo. Ela sentia que precisava confiar em alguém, mas gostava da imagem de mulher independente, senhora de si. Fazia falta contar sobre seu dia para alguém que parecesse verdadeiramente interessado, não fosse julgá-la e fizesse piadas ruins sobre um detalhe ou outro. E Dédalo simplesmente aparecera ali, sangue novo planando no olho do furacão, gentil desde a maneira com que tratava as garçonetes que os serviam. 
            Apesar da rebeldia, ela o enxergava como o neto mais velho que sentava-se ao lado da matriarca da família devido ao direito natural, para comer pasteis de Belém com a avó portuguesa ou descendente de portugueses, nos finais de semana. Um homem com quem você poderia estar entre os rins durante a noite inteira, os sexos encaixados. E no dia seguinte, naturalmente, poderia conversar sobre Carrère, Simenon e Barthes e simplesmente mudar de assunto com uma risada. E o diabo mora nas ambiguidades.
          Enquanto isso, do outro lado da mesa, menos imerso em divagações, Dédalo sorria como um menino bochechudo e cheirando a baunilha, em seu primeiro encontro.