sábado, dezembro 19, 2015

Crônicas da Senhora Indigna: A morte do São Bernardo

O São Bernardo Pluto apareceu morto na escada interna entre o sexto e o sétimo andar do Edifício Presidente Kubistchek, em Copacabana.  Segundo os donos do animal, Aline e Fernando Alves, residentes do apartamento 506, o canino, na família há nove anos, vai fazer falta, especialmente para os filhos. No verão, por causa do calor, o casal evitava sair com Pluto para a rua e o deixava solto diariamente no corredor do prédio, onde ele se refrescava deitando a barriga nos azulejos.
            Naquela tarde, depois de retiraram o corpo do cachorro, dona Zelma, do 501, deixou o apartamento e abriu caminho entre a horda que ocupava o corredor cutucando as pessoas com a ponta do guarda chuva. Em solidariedade, os moradores do prédio depositaram flores, ossos de plástico e frangos de borracha no hall dos Alves. Pluto era querido por quase todos. Bastava a porta do elevador se abrir para que o São Bernardo acompanhasse o morador até em casa, lambendo, carinhosamente, suas canelas. Inclusive, um ou outro costumava colocar uma tigela de água na área comum para Pluto.
            Dona Zelma depositou uma margarida na porta do 506. No caminho, arrancou olhares irritados daqueles que feriu com o guarda chuva. Os outros moradores, que prestavam homenagem ao mascote do edifício, nada entenderam. Afinal, aquela senhorinha pequena e encurvada,  batia a hora que fosse na porta dos Alves para relatar latidos que não existiam, mostrar um tapete que acusava feder a xixi ou denunciar, aos berros, que Pluto comera a mortadela enquanto ela saia do elevador com as compras do supermercado.
            A empregada do 503, Chica, que fora do expediente, realizava faxina nos outros apartamentos olhou de soslaio para a senhorinha. Depois, comentou com Zé, um dos porteiros do prédio, ao seu lado.
            - Esculachou o pobre do Pluto a vida inteira e agora vem aqui. Vê se pode.
            - Ih, Xica. Melhor não se meter a besta com a dona Zelma. Se ela te escuta, faz sua caveira e você não vai conseguir varrer nem um cotonete aqui dentro.
            - E eu tenho medo, Zé? Essa madame que se meta a besta comigo, quero ver se tem peito pra essa negona aqui, meu filho.
            - Tem gente que diz até hoje que da Marielza não escorregou limpando os vidros dela coisa nenhum. A velha que empurrou a pobrezinha. Quer saber, não duvido nada que ela tenha dado cabo no cachorrinho também.
Após prestar a condolência, empunhando o guarda chuva, dona Zelma voltou para o apartamento. Meia hora depois, um cheiro insuportável de gás invadiu o corredor. Preocupados e enjoados, um a um, os moradores se dispersaram. Dona Zelma encarou o olho mágico. Sorriu satisfeita ao encontrar o hall vazio e fechou o registro do bujão. Em seguida, tirou o chalé úmido que cobria a boca e o nariz. Sem ele, poderia estar morta devido ao vazamento do ar tóxico. Abriu as janelas para expulsar o odor. Finalmente aquele circo no andar havia acabado. Onde já se viu funeral para cachorro? Levou uma florzinha só para fazer uma média, mas não entendia quem pudesse gostar de um bicho peludo como aquele. Gente sem educação que deixava um tapete de quatro patas solto por aí para lamber as canelas das pessoas, até das visitas. E se mordesse alguém? As amigas evitavam visitá-la, filhos e netos nem apareciam.
A velha, com um sorriso no rosto, regou as plantas que ficavam na área do apartamento, anexa à cozinha. Assobiou, cantarolou, enquanto passava os dedos enrugados nas folhas das samambaias. As plantas estavam fortes e verdes. Haviam se recuperado de uma praga que as enfraquecia desde que passara a dissolver uma porção de veneno de rato na água dos pratinhos. Fora enquanto regava as plantas, no dia anterior, que teve a ideia de se livrar do animal.
            Já havia alertado os Alves que entraria com um processo caso aquela balburdia canina continuasse. Tentou criar um abaixo assinado, abordou o síndico, exigiu uma reunião de condomínio, mas Zelma tinha impressão de que o prédio inteiro estava contra ela.
Ninguém podia reclamar que ela não havia tentado um acordo de forma pacífica. Naquela noite, quando escutou os latidos e o som das pegadas de Pluto no azulejo, encheu uma bacia com água gelada e despejou todo conteúdo do vidro de arsênico que costumava utilizar para cuidar das plantas. Esperou para que o veneno se dissolvesse no líquido. Quando se assegurou de que havia uma calmaria no corredor e que nenhum outro morador apareceria, Zelma, silenciosamente, abriu a porta de casa, equilibrando a bacia na mão esquerda.  O cachorro ergueu o focinho e, carinhoso do jeito que era, seguiu a senhorinha até a escadaria, lambendo os calcanhares ressequidos.
            Assim que ela depositou a bacia entre os degraus do sexto e sétimo andares, Pluto começou a lamber a bebida. Em pouco tempo, o São Bernardo sorveu toda a água. Logo, o cachorro deitou com a respiração ruidosa. O corpo peludo descia e subia revelando a taquicardia. Um filete de baba espumosa escorreu pela boca. Por trás dos óculos, Zelma, com prazer, assistiu Pluto desfalecer. Por fim, recolheu a bacia para que ninguém desconfiasse e voltou ao apartamento.
            Mais tarde, sozinha na sala de jantar, degustava uma Champagne Blanc, ideal para dias quentes como aquele, acompanhada de filé mignon cortado em tiras e assado com trufas, quando escutou os movimentos apressados do vigia noturno. Em seguida, ouviu o barulho de mais passos através do corredor e os gritos dos vizinhos, Amanda e Fernando. Dona Zelma deslizou a língua entre os lábios contorcidos em um sorriso perverso e levou a taça de champanha até eles, enquanto o som de outras portas e vozes assustadas, invadia o andar.