quinta-feira, dezembro 24, 2015

Carta para o meu primeiro amor

Você foi a primeira garota que eu fui a fim de verdade. Sem querer, em meio a indefinição do que tínhamos, comecei a imaginar todas as etapas de um relacionamento. O mais curioso é que aos dezoito anos eu não fazia a menor ideia do que eu queria da vida. E duvido que você, mais nova, aos quinze também soubesse.
Hoje quase aos vinte e cinco anos ainda é difícil vislumbrar um futuro concreto, mas os contornos estão lá. Em algum lugar que a cada dia que passa é possível identificar o traçado e me sinto mais seguro para segurar o compasso e desenhar a minha própria vida.  Em parte, devo isso a você. Porque quando você me deu um pé na bunda no dia do meu aniversário, sem motivo aparente até então, eu tive que aprender a me virar com o que eu tinha. E descobri que eu só tinha a mim mesmo. 
            Encontrei a maioria dos meus amigos anos depois, na faculdade. Eles me ajudaram a superar as outras garotas que vieram depois de você. Errei, assim como você fez comigo. Todo mundo é a mocinha e o vilão em relacionamentos, alguma vez na vida. Exceto, que sempre fui cuidadoso em não estragar os aniversários das pessoas com quem me envolvi.  Depois de você eu me apaixonei novamente por outra mulher e ficamos juntos por dois anos, mas não deu certo. Quando a gente cresce percebe que relacionamentos frustrados são muito comuns.  Daquela vez não fiquei tão mal quanto depois que você foi embora. Afinal, eu havia descoberto a mim mesmo, tinha amigos e, principalmente, não estava vivendo o maremoto de sentimentos que é o amor.
            Às vezes, me pergunto o que teria acontecido se tivéssemos percorrido, de mãos dadas, a estrada que se apresentava a nossa frente ou como seria caso você não houvesse conhecido outra pessoa e vivido a história que eu imaginava para nós dois. Há momentos que eu sinto vontade de voltar àquela noite chuvosa de janeiro que passamos no bar, ao lado das suas amigas do colégio e das caixas de som que tocavam No One Knows do Queen Of The Stone Age. Ainda sou capaz de sentir toda a energia do seu olhar ao fitar os meus olhos e atrair o meu corpo para o seu e beijá-la, cumprindo então, o que nossos hormônios clamavam durante todas as madrugadas que passávamos pendurados no telefone. Você se lembra?
Por outro lado, eu me sinto feliz por ser o homem que me tornei, acompanhado dos meus discos dos Beatles, videogames e o jeitão introspectivo. Afinal, quando me vi deitado no quarto escuro, com uma febre psicossomática, no carnaval de 2010, depois do pé na bunda que você me deu, eu comecei a aprender a ser um sobrevivente.