segunda-feira, dezembro 14, 2015

Órfãos da Tempestade

Gregório entrou no restaurante. Conseguiu escapar da chuva e do vento por poucos minutos. Sentou no último reservado, próximo ao banheiro, para quando Amélia chegasse a conversa permanecesse o mais íntima possível. Essa não era a única razão da escolha do lugar, afinal, de onde estava poderia logo ver os clientes que chegavam.     
    Amélia entrou. Continuava uma mulher atraente.  Se vestia com o mínimo de aprumo para um dia de trabalho; sapatilhas, saia longa e camisa social. Os olhos claros que não haviam se definido, entre azul e verde, o encaravam. Ela desfilou pelo corredor de pratos, garçons, bandejas e mesas ocupadas e se sentou a frente de Gregório, ignorando que não tivera a mesma sorte que ele e se encontrava ensopada pela chuva. Mexeu no celular por prolongados minutos. Sabia que isso o perturbava.       
  Para ela, a barba era novidade, assim como os fios grisalhos que despontavam da cabeleira negra, cujas entradas na testa anunciavam a calvice e a idade. Já Gregório achou que a mulher diante dele mudara pouco em quase vinte anos que não se encontravam. Nenhum queria saber dos filhos que acompanharam o nascimento pelas redes sociais, casamentos, divórcios, empregos e amantes. Afinal, não se viam há duas décadas. Sem motivo aparente Gregório se afastou, ela tentou se comunicar por um ou dois dias, mas diante das evasivas, o abandonou. Em parte, porque odiava a forma com que Gregório fugia da realidade ao invés de enfrentá-la, em parte, por ter medo do que poderia ter causado o distanciamento do velho amigo.     
    Pediram dois chopes. Ele sorveu toda bebida em dois goles e pediu outro. Amélia bebericava o primeiro. Depositou o celular na mesa.        
 - Por que você sumiu? - perguntou.     
 - Precisei. – respondeu Gregório levando a tulipa aos lábios.         
 - Se depois de vinte anos você vai continuar evasivo, eu vou embora.     
 - Não precisa ficar nervosa. O chope esquentou? Ficou choco?
 - Sem gracinha, Gregório. Você some por anos, me manda um e-mail querendo me encontrar e age como se nada tivesse acontecido? Por que você sumiu quando eu mais precisei de você, cara? Eu só precisava de você.   
    - Esse é o problema. Eu estava no lugar e na hora conveniente pra você. Você precisava de mim, mas eu era totalmente descartável.       
   - Alguém já disse que você tem um complexo crônico de filho mais novo que se acha eternamente o patinho feio?
  Amélia estava irritada. Com o rosto vermelho, as narinas se dilatavam de raiva. Queria respostas objetivas, sem digressões e filosofias baratas que ela não havia se esquecido serem próprias de Gregório.
        - Por que você sumiu?
         Gregório a encarou com os olhos escuros e introspectivos que maquinavam algo. O que ele estaria pensando?
      - Se você não responder eu vou embora. Já fazem vinte anos. Eu construí uma vida sem você. – ameaçou Amélia.         
      - Eu me apaixonei por você e fugi. Não sou bom em enfrentar as coisas. Não quando preciso ser eu mesmo. – revelou Gregório. – Eu estava cansado de ouvir você falar de outros caras e sabia que você não queria dar o que EU precisava. E não era só a sua amizade. Eu tava de saco cheio de ser o amigo legal da mocinha.         
        Amélia resistiu esbofeteá-lo. Não que aquela opção não houvesse sido elucubrada em algum momento, mas ouvi-lo falar depois de tantos anos fez com que as noites em claro quando precisava somente da compreensão e do abraço do confidente e toda dor de não tê-lo por perto culpa por, pior, tê-lo afastado por um motivo insólito fossem relembradas.         
      - Por que não me falou nada? - Perguntou Amélia depois de um longo suspiro.      
      - Você diria que eu sou seu melhor amigo e eu me sentiria idiota.      
      - Por que demorou tantos anos para dizer isso?         
    - Não faria diferença. Você continuaria no seu trono de marfim e eu chafurdando no lamaçal do que eu sentia.     
      - Preciso beber algo mais forte. Peça um uísque.         
     -Não precisa fingir que você ficou mexida, Amélia.        
    - Meu Deus, homem, cale a boca. Só peça um uísque.       
    Gregório acenou para o garçom que se aproximou do reservado onde estavam. O cliente fez o pedido e logo foram servidos com um chope para ele e uma dose de 12 anos para ela, que bebeu num único gole. Ficaram em silêncio. Ele mesmo não sabia ao certo o que o levara a enviar o e-mail para Amélia pedindo para que se encontrassem. Uma certa nostalgia somada a noção de que o relógio estava correndo era o mais plausível.    
   - Vamos transar – disse Amélia. – Você vai ter o que quer.         
   - Eu não falei por interesse.         
  - Eu quero transar com você.       
  - Amélia, não precisamos disso.       
  - É agora ou nunca, Gregório. Mas tenha certeza de uma coisa, me comendo ou não, você nunca mais vai me ver, nem saber de mim. Não vou responder aos seus e-mails. E aí? Pague a conta, seja homem uma única vez na vida. Ou você continua sendo o nerd mimado que sempre precisa de alguém dizendo o que você precisa fazer da vida?       
    Deixaram o local no carro dela em direção aos motéis no Vidigal.  Pelo Elevado do Joá notaram que a ventania agitava o mar e causava um negrume tingido de azul marinho, tornando impossível distinguir o que era água e o que era céu. Permaneceram em silêncio enquanto Amélia dirigia. Gregório encarava o fluxo de carros e a tempestade, evitando que os olhos observassem pelo reflexo do retrovisor a cadeirinha de bebê no banco traseiro e o fizessem lembrar de que sempre estivera a margem da vida de Amélia.         
     Sem mover o rosto, ela correu a mão pela coxa do homem ao lado. Ele deslizou o zíper do jeans a fim de ajudá-la a completar as suas sevicias. Não demorou a ficar excitado. Enquanto isso, o sal descia pela garganta de Amélia enquanto ela lutava para segurar as lágrimas nos olhos. O calor umedecia suas coxas e se sentiu feliz em saber que o corpo respondia a tais estímulos. Gregório fora como um irmão, mas agora haviam se tornado dois desconhecidos.