sexta-feira, janeiro 08, 2016

Aquário de caranguejos


Meu velho,

São 06:00 am e estou preocupado com você. 

O seu distanciamento, a incerteza do seu retorno e de como as coisas estarão para o nosso lado, às vezes me fazem perder o sono. De repente tudo mudou tão rapidamente e imagino o quanto o mundo pareça grande e assustador para você, meu amigo, e em como isso anda te deixando eufórico e agitado devido aos últimos acontecimentos. 

Sei que sou só uma rachadura no prato de porcelana, a margem da sua futura vida de comercial de margarina, mas sei lá. Sinto sua falta e escrever essas cartas é a forma que encontrei de te manter mais perto.

Quero ser mais paciente, mas às vezes fico puto porque a saudade aperta e não entendo porque gosto tanto de você assim a ponto de ter medo de você ir embora ou de que eu deixe de fazer sentido para a nova pessoa que, quem sabe, você se torne. Aí eu vejo o quanto eu estou sendo injusto. Afinal, você tá passando por mó barra e  me dou conta de que eu gosto de você pra CARALHO porque você é foda e me sinto feliz de você estar na minha vida e dane–se o resto.

Sei que você precisa de um tempo, então esteja a vontade, mas eu só queria dizer que faz uma puta falta falar de tudo que a gente costumava conversar durante os dias, inclusive enviar uma mensagem babaca e sem sentido do tipo “MANO, TÔ NA RUA, PAREI PRA MEXER NO CEL E DO NADA CAIRAM TRÊS FIGOS AO MEU REDOR E NENHUM ME ACERTOU. SINISTRO! BIZARRO! NASCI DE NOVO.”, como eu queria fazer ontem.

 A bem da verdade, logo eu que – parafraseando o escritor Charles Bukowski – “me canso de ficar batalhando por cada espaço de ar para o espírito, por isso que eu me afasto das pessoas” e sempre fujo, me excluo antes de ser excluído e abandono antes de ser abandonado, numa não muito madura forma de autodefesa percebo o quanto estou sozinho sem você, como um gurizinho que a mãe veste para a escola e deixa levar um brinquedo para a escola, a fim de se divertir com o melhor amigo que faltou já que pegou um baita resfriado e ninguém sabe quando vai voltar.

Sem o reflexo dos seus olhos azuis colorindo o mundo ao redor tudo é um grande borrão cinzento e sem graça. Talvez agora você esteja enxergando esse mundo desolado, frio, ocre, mas não me afasta desse jeito. Esquece essa capa da invisibilidade e vem cá que eu divido com você o casaco do meu super–herói favorito.
Fica bem, ok?
Um abraço apertado.

Gregório.