domingo, janeiro 03, 2016

Enjeitado

No Enjeitado moram os que estão a margem da civilização e nunca pensariam em trocar as casas que seus antepassados construíram pelos prédios que, aos poucos, se multiplicam pela capital, Teresina.  
Na casa de minha avó Chica, o forno a gás pouco era utilizado. O fogão a lenha era a preferência geral. Depois do desjejum, tradicionalmente café com biju ou uma fatia de bolo, os homens saiam em suas bicicletas para a roça. As mulheres permaneciam em casa. Matavam uma galinha, temperavam o peixe para o almoço, inseparáveis na cozinha. A matriarca da família, vó Chica, permanecia deitada na rede de tucum anexada ao cômodo e se mantinha em silêncio, vez ou outra se intrometia nos assuntos das filhas e netas e sua opinião era bem vinda com respeito. A contragosto naquele ambiente, em que minha mãe me obrigava a passar as férias, eu permanecia enfiada nos livros.
            Duas vezes por dia os rapazes recém-saídos da infância, mas que ainda não poderiam ser considerados homens para desbravarem a grande São Paulo, como muitos dos amigos haviam feito, guiavam o burro atulhado de caixas dá água ao poço mais próximo. Pelo caminho era comum encontrar moças da região revolvendo a mesma estrada de terra carregando com perfeito equilíbrio antigos latões de gasolina, agora, utilizados para armazenar água. Normalmente nos dias de chuva, que costumava desabar nos finais de tarde, durante o que os camponeses chamavam de inverno – e o resto do Brasil, verão - a segunda ida ao poço era abortada. Haveria água para as moringas se todos encontrassem bacias, latões, vasilhas e qualquer utensílio que pudesse resguardar o líquido que escorria pelas telhas.
            As crianças brincavam no terreiro de pique, corriam atrás das mangas que desabavam ao redor, antes que os porcos a devorassem e escalavam árvore para caçar pitomba. Na hora das refeições todos se reuniam à mesa, na sala de jantar, cujas paredes estavam cobertas por imagens de santos sofredores. No centro da casa, a televisão, que só tínhamos permissão de ligar a noite, após o jantar, depois das tradicionais partidas de dominó, que o vô Zé me deixava participar, como um dos homens.
            Comadre Das Dores aparecia todas as noites para assistir novela e conversar com as outras mulheres. Mamãe sempre a amou como uma irmã. Frequentemente eu visitava a sua casa, vizinha a de minha avó, no Enjeitado, no alto de um morro, guardada por um enorme limoeiro. Seu filho dançava nas festas de boi bumba. A primeira vez eu o vi coberto de palha, me assustei, mas depois que ele tirou a máscara fui tomada por um sentimento de proteção como se ele fosse uma espécie de cavaleiro medieval e sempre que penso em Antonio é dessa mesma forma, como um anjo, alguém que está lá para me proteger. Nos beijamos uma vez, mas claro, mamãe não sabe disso. Assim como também não sabe do meu carinho pela irmã do rapaz, das nossas trocas de olhares que diziam tanto, dos toques de nossas mãos e corpos quando as lamparinas deixam de queimar e a timidez inexplicável que brotava quando estávamos uma diante da outra. Mais tarde, ela namorou um de meus primos. Depois terminaram e  ela se casou com outro. Visitei sua casa uma vez, mas ela não parecia feliz com a vida que levava e sim alguém que envelhecera dentro do mesmo corpo. Soube que teve dois filhos.
            Durante a minha última estadia no Piauí,  avó Chica havia se mudado do Enjeitado para uma pequena cidade, onde toda vida florescia ao redor da rodovia. Foi quando me apaixonei por Joel, menos por prazer e tesão e mais pela necessidade de proteção, de ter alguém que se pode confiar por perto, com cumplicidade. Com Joel  eu não me sentia tão longe de casa. No dia anterior ao meu retorno para o Rio de Janeiro, prometemos que não ficaríamos com outras pessoas até nos reencontrarmos novamente com anéis reluzentes nos anelares, em sinal de compromisso. Naquele mesmo ano, eu comecei a sair com garotas e Joel foi morar com a mãe da filha que viria nascer.
            Quando completei dezoito anos, mamãe parou de me levar com ela para estas viagens. “você só volta quando quiser”, dissera ela. Desde então, oito anos depois jamais intencionei voltar. Encarei as palavras de minha mãe com uma liberdade nunca antes experimentava. Sei dos parentes por intermédio de minha mãe. As tias me mandam lembranças, os primos que nem conheço falam de mim com carinho. Ás vezes, tenho a sensação de que me tornei uma espécie de mito, ou seja, por mais impessoal que seja a sua relação com o objeto, você o admira. Ao estar lá sentia tanta falta de casa, dos poucos amigos e de coisas banais como um bom banho, a minha própria cama e comidas industrializadas. Assim como, correr pelos corredores do apartamento da avó com quem moro desde que nasci e, essa sim, sou apaixonada. Além da falta da individualidade preservada pelas paredes grossas do imóvel de meus avós cariocas.

            Por isso foi estranho quando hoje encarei a janela escancarada do prédio a frente, rodeada de tantas outras idênticas a ela e pensei no Enjeitado. Sei que em parte esse sentimento se dá pela vontade de desaparecer que vez ou outra me assola. Não morrer, não é isso, mas aderir a um isolamento temporário como forma de auto preservação e fuga. Não que eu queira desesperadamente tomar o primeiro avião Rio de Janeiro-Teresina e mais algumas longas horas de ônibus rumo a cidadezinha, apenas com uma mochila nas costas. Eu amo o lugar que ocupo e não quero deixá-lo, mas é só que quase posso dizer que, por um fragmento de segundo, senti falta da imensidão de cercas e plantações que formam o único cenário do interior do nordeste, bem como de suas nuvens gordas e imóveis num céu tão próximo. Também  do som das mangas que desabam no terreiro e anunciam a passagem das horas. Ou quiçá, seja na verdade, a vontade de estar suspensa, indisponível através de uma insustentável leveza, que me seduza.