domingo, janeiro 24, 2016

O homem impotente

Ele procurou médicos, tentou com prostitutas, inventou dietas malucas. Amendoim, ovo de codorna, catuaba. Até macumba. Sem resultado, culpou o trabalho, o time de futebol, o governo. Buscou mulheres mais novas, mais velhas, mas o membro mantinha–se em ponto morto. Inerte. Na cama, quando falhava, jurava que era a primeira vez que aquilo acontecia. Afinal, desde a adolescência era o galã, o comedor das menininhas de Copacabana.
            Sobre este problema não falava com os amigos com os quais se reunia semanalmente para um chope no Jobi ou Hipódromo. Entre travessas de batata–frita, farofa e coração de galinha e tulipas geladas, os homens trocavam as peripécias sexuais do último final de semana, a noite com a Quase–Quarentona–Desesperada–Por–Um–Relacionamento, o encontro com a Executiva–Carente–Recém–Divorciada ou com a Publicitária–Que–Quer–Se–Vingar–Do–Ex–Namorado. Para não ficar para trás, inventava aventuras de uma noite com personagens como elas.
            Em casa, buscava praticar sozinho, como se fosse o rapazote de trinta e poucos anos atrás, enquanto levava a mão até a pelugem no meio das pernas. Imaginava ex. namoradas, atrizes, um peitinho que escapara na praia. Às vezes, apelava para vídeos eróticos e revistar pornôs. Mas o bicho continuava ali, adormecido, enrugado, estribuchado. Com isso, ele se sentia menos homem, incompleto, quase como um soldado atingido por um estilhaço, no campo de batalha. Aleijado.
            Animal castrado, deu para beber diariamente. Tornou–se frequentador de um piano–bar, no Leblon, onde assim que sentava no balcão, pedia um uísque – bebida de macho, lembrava do pai – com duas pedras de gelo e, ao som de Tom Jobim, Nara Leão, Chico Buarque e Maysa, imergia em pensamentos sobre a vida assim como os demais infelizes ao seu lado. Homens calvos, barrigudos, recém separados, solitários. Mulheres desesperadas por uma foda, um colo, ou qualquer coisa que se doe um pouco de calor humano.
            Numa dessas noites, ela sentou–se a sua direita, no balcão. Pediu um drinque doce, fresco e caro. O copo cheirava a desodorante. Ela enviou um sorriso em sua direção. O rosto de cavalo, uma magreza despudorada. Ele sabia que nada ia acontecer, mas não custava ser gentil. Afinal, eram dois fodidos. Sozinhos, numa cidade brutal.
            – Você vem sempre aqui¿ – ele perguntou.
            – Sim. Inclusive, já te vi nesse mesmo lugar várias vezes. – ela respondeu.
            – Tenho dificuldade para dormir.
            – Eu também.
            – Mora aqui por perto?
            – Não, moro no Recreio. Mas trabalho no Hospital Miguel Couto, sou cirurgiã. Abro uns corações, desentupo umas veias, instalo pontes aqui e ali e venho relaxar um pouco. E você¿
            – Sou vendedor. Tenho um apê aqui do lado.
            – E a crise, hein?
            – Nem me fala.
            – Posso te pagar uma bebida?
            Ele encarou o copo vazio que segurava entre os dedos. Médica–Louca–Por–Uma–Trepada, pensou.
            – Sou da época em que os homens oferecem bebida às damas.
            – Os tempos são outros. O que o cavalheiro quer?
            – Doze anos, duas pedras, por favor.
            Conversaram, ao longo da noite, sobre seus empregos, a crise, a volta da inflação, antigos relacionamentos, famílias e viagens. Amanhecia quando deixaram o piano–bar.  Mesmo sabendo que nada aconteceria – não passava de um veterano de guerra manco da terceira perna –  a convidou para o seu apartamento. Lá tomaram uma cerveja e fumaram um baseado. Ela rapidamente sentou–se sob suas pernas, no sofá da sala de estar, e o beijou, descasando os botões da camisa daquele homem.
            A princípio, ele não sentiu nada. Já experimentara todos esses rituais, mas para não decepcioná–la, encenou. Jogou–se por cima dela e a beijou a boca com paixão. Ela era tão doce, benevolente, gentil. Ela ergueu a saia, ele retirou a calcinha e encaixou–se entre as coxas finas, dois vara paus.
            De repente, começou a sentiu aquele calor dentro dele, o coração acelerado, o sangue apressado. Rapidamente, deslizou o zíper do jeans, abaixou a cueca e entrou nela. Surpresa com toda aquela agilidade, sem tato, sem preliminares, ela sentiu um filete de dor. Pouco depois, ele afastou–se ofegante. Havia conseguido. Ela perguntou, um pouco sem jeito, onde era o banheiro, o que ele apontou. Quando ela retornou, ele lembrou–se de que durante toda a noite não haviam dito seus nomes, o que corrigiu.
            – Maria Luiza e o seu?
            – Ricardo. – ele respondeu.
            – Então, a gente se vê, Ricardo?
            – No mesmo lugar. – ele respondeu. – Quer que eu te deixe em casa?
            – Não precisa, cavalheiro. Obrigada.
          Ela lançou um beijo em sua direção e bateu a porta. Logo, ele a achou deslumbrante, o rosto equino, de égua, agora revelava uma altivez, elegância, nobreza. As coxas magras tornaram–se longilíneas, acolhedoras. Convertera–se na mulher mais linda do mundo agora que devolvera–lhe a virilidade. Ela, que a pouco era uma desconhecida a meia luz de um piano–bar embalado por um bolero qualquer.

            Subitamente ele ergueu–se de um salto, arrumou–se, abriu a porta do apartamento com violência. Nenhum sinal dela. Sem tempo para esperar o elevador, desceu a escada interna aos pulos. Agora que aquela mulher o tornara novamente um homem, não poderia viver sem ela.