sexta-feira, janeiro 22, 2016

Quando fomos soldados

De repente nos tornamos desconhecidos, desinteressados da vida e da presença um do outro. Ao contrário das antigas fotografias em que, lado a lado, a linguagem corporal que sustentávamos em frente à câmera, revelava a harmonia, a bossa, entre nós dois.
        Você me culpa. Eu ignoro que você depositou em mim todas as frustrações, infortúnios e loucuras dos últimos meses e aceito o encargo somente para livrar você um pouco desse peso que viver se transformou.
            Lembro de quando a balança começou  a se desequilibrar, naquela noite de verão, numa boate,  em Copacabana. Você reluzente, eu, cavaleiro negro. Ao nosso redor, o DJ tocando hits de música pop enquanto a nossa pele absorvia a luz ambiente vermelha. O mesmo tom dos meus sapatos que sustentam a perna entre as suas coxas e do batom com o qual você me manchava quando as nossas bocas se devoravam. Se me arrependo? Às vezes, sim. Outras, não. Sim, quando lembro que deixamos o jardim do Éden, o paraíso idílico onde confiávamos um no outro e por isso, nos refugiávamos. Não, quando o homem dentro de mim se enche de vaidade. Sim, diante do quanto perdemos e não conseguimos recuperar; a harmonia pacifica que subjugava um flerte implícito, desconhecido.  Não, quando vejo que fui o único para quem você, por mais breve, se despiu das mentiras reconfortantes e convenientes. Sim, quando me dou conta da imensidão que é a falta que você faz.
            Acho que decidi deixar a vida se encaminhar de aparar os espinhos que cresceram entre nós. Assim, sem forçar uma naturalidade inexistente. Grato, porque fui feliz ao seu lado, você fez com que eu me sentisse menos invisível no mundo, mais confiante e espero também tê-la feito bem para saber que tudo valeu a pena.
Os dias em que em que fomos soldados serão guardados com doses cavalares de nostalgia, aqueles anos em que apoiávamos um ao outro em nossos fronts pessoais, compartilhando guerras e medalhas – e também os cafés, idas a sorveteria, os conselhos, lanches, cervejas, brincadeiras e alguns desentendimentos logo remediados, ao contrário deste – até você voltar, até eu voltar.  Aguardo o nosso reencontro.