sábado, abril 02, 2016

Álbum de figurinhas

Na aula de educação física, os meninos assistiam as meninas terminarem a partida de vôlei. Na verdade, entre saques, giros e pulos, aquele era um momento de puro exibicionismo. Elas metidas em shortinhos apertados, eles com as camisetas suspensas, trocavam olhares e sorrisos uns com os outros fingindo uma espontaneidade forçada.

No final do dia, algum casal se reunia do outro lado da rua, enquanto a garotada escondida em lojas e bancas de jornal por perto observava o beijo. Uns eram calouros nessa doce aventura juvenil, outros veteranos que já sabiam controlar o movimento das línguas, as respirações e a dança das mãos no corpo a frente, como Luisa, que beijava garotos e garotas, a exemplo de muitas meninas da escola.

Ela estava interessada em completar, o que dizia ser, seu álbum de figurinhas. As páginas de lábios colados aos seus ostentavam quase a classe inteira. Dos meninos mais populares, aos, até então, bocas virgem às garotas mais interessantes e diferentes.

No intervalo entre as aulas, Luisa reuniu-se com as amigas e entre as palmeiras imperiais do pátio da escola, latas de Coca-Cola, porções de pão de queijo e um rádio de pilha sintonizado no hit da cantora Kelly Key, confessou:

- Estou apaixonada pelo André.

O quinteto que a rodeava lançou uma gargalhada estridente. Vez ou outra, Luisa surpreendia o grupo de amigas com a revelação de que estava mais interessada em algum alvo.

- Você disse a mesma coisa mês passado sobre a Carol – disse Tauane.

- E sobre o Paulo – revelou Sabrina.

- A Carol é passado e o Paulo é um chato – defendeu-se Luisa.

- E o André é esquisito - alertou Sabrina.

- Esse é o charme dele – disse Luisa.

A partir de então todas começaram a espionar os passos de André, em favor da amiga. Luisa, moleca e alegre, puxava assunto com o rapaz calado, taciturno, isolado no fundo da sala de aula ou no recreio. Os olhos puxados traiam uma sutil ascendência asiática, talvez um tatatataravô da Mongólia, deduziram.

- Acho que ele é gay – disse Sabrina.

- Não é – disse Luisa. - Reparei no jeito que ele me olha na aula de educação física. É o mesmo olhar do Paulo, da Carol, da Patrícia, do Márcio, da Manu, do Daniel, da Daniela Prado, da Daniela Azevedo, do Pedro...

- Tem alguém que você não ficou da turma? - perguntou Sabrina.

- O André. Estou apaixonada por ele. Nossos filhos vão ser tão criativos, cineastas ou atores. Vamos passar as férias em Paquetá, e tipo, casar quando a gente fizer dezoito anos.

- Amiga, apenas pare, há três meses você disse a mesma coisa do Pietro – relembrou Sabrina.

Luisa estipulou uma data para dar o bote. Enquanto isso, mantinha-se por perto do rapaz. Conversava nos intervalos, fazia dupla nos trabalhos da escola. Enviava mensagens online até a hora de dormir. Lia resumos na internet de livros que ele apreciava a fim de impressioná-lo. Quem conhecia as estratégias da jovem se surpreendia com o estranho casal, ela radiante, ele soturno. André não parecia interessado em ter amigos, quiçá, uma mulher.

No dia D, Luisa acompanhou o pretendente ao ponto de ônibus enquanto conversavam sobre Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres. Ela estacou em frente a ele, com a nuvem de ansiedade nublando os olhos. Em seguida, pousou a mão na cintura do rapaz, que deu alguns passos incertos e aproximou seu rosto da vasta cabeleira da menina. O beijo foi lento, macio, quente. As línguas, discretas, se saboreavam, ao invés de devorar uma a outra. Escondidas entre toda sorte de produtos editoriais, balas e bugigangas, Sabrina, Marina, Mariana, Bruna e Tauane comemoraram até serem expulsas pelo jornaleiro.

No dia seguinte Luisa ostentava o semblante vitorioso. Sem nenhum sinal de André em sala, ninguém poderia dizer se por virose ou coração partido. Aquela altura, para ela pouco importava. Depois de beijá-lo não o queria. As amigas faziam troça relembrando os filhos e as viagens planejadas durante a paixão. No fundo ela não sabia amar, uma vez que era dada aos desafios da conquista. Ela seria por toda a vida uma predadora. Luisa se travestia de um romantismo folhetinesco na tentativa de esconder a incapacidade de conter o próprio desejo.