sexta-feira, abril 24, 2015

Carta para G.

                                              So sentimental
                                                               Not sentimental no
                                                               Romantic not disgusting yet
                                                               (Lizstomania – Phoenix)
Querida Giulia,

Fico feliz em saber que escrever esse relato lhe trouxe liberdade, como você disse, uma espécie de alforria. Ao receber a sua carta fiquei pensando sobre a origem da nossa predisposição de amar. Como germinou tamanho altruísmo que nos fez ter tanta força para atravessarmos os desamores que nos transformaram no que somos hoje?

Assim como você, Giulia, também sinto medo de viver novamente a instabilidade de um relacionamento mal sedimentado, torto, desestruturado. Às vezes até fujo e me tranco dentro de mim mesma. No entanto, hoje, que por acaso recebo a sua carta, muitos meses depois do meu rompimento definitivo com Marina e envolvimento com outras mulheres, eu encontrei buracos nessa fortaleza que ergui entre o mundo e eu. Preciso ser honesta com alguém. Sem fingir que sou uma rocha impenetrável ou ter que disfarçar com piadas todo o meu caos interior.

Recentemente, eu e Marina conversamos sobre o que deu errado entre nós. Apesar de não amá-la mais, percebi que faria tudo de novo. Aguentaria as acusações, disputas e humilhações que no fundo só transferiam para mim a culpa por não ser o que seu genitor sonhara. Afinal, quando Marina entrou na minha vida eu estava me acostumando a ideia de que seria uma pessoa com uma quantidade limitada de alegria. Teria alguns romances, mas viveria solitária a maior parte do tempo.  Quando ela surgiu eu fui, no intervalo entre as brigas, a pessoa mais feliz do mundo por mais de dois anos.

Assim como Murilo, Marina também reclamava das minhas roupas. Não gostava das minhas camisas, rejeitava o meu cabelo cortado a escovinha e o meu silêncio depois das discussões. Quando eu me erguia eu a acusava da inércia em lutar por nós e das outras que ela procurava no celular. Mas meu temperamento pacífico sempre me fez ceder demais e eu a amava mais do que achava que poderia ser capaz de amar alguém. Sabe aquela paixão que nos rodeia e impele em direção ao amado? 

A bem da verdade, Giulia, até que me apaixonei novamente e foi como ser feliz mais uma vez. Já se apaixonou de novo por outro depois de Murilo? Sentiu a secura na boca, o coração acelerado, o estômago gelado? A esperança e a ansiedade para a hora do encontro? Não é encantador sentir os estímulos do corpo diante de outra pessoa? Sentir-se vivo?

Há algumas semanas, quando Antonia - que tanto adoro e chego a pensar que seria capaz de compartilhar todos os meus dias, constituir uma vida a dois, quiçá, uma família numerosa dessas que se reúnem para almoços de domingo -  disse que não gostava tanto de mim assim para continuar comigo eu queria ter desesperadamente a vontade de chorar. Eu desejava a autocomiseração e a febre do coração partido. Mas me embruteci, fiquei seca.  Acho que seria mais fácil se eu conseguisse recomeçar depois de enlouquecer de amor. Destruída. Recolhendo os cacos de vidro, os fragmentos de rocha lançados no chão, cuja única opção fosse  reconstruir os muros com o que restou de mim. Mas ao contrário de quando eu e Marina decidimos nos afastar, eu não derramei uma lágrima. 

Não quero acreditar que todo sofrimento que nos tenha sido afligido seja premeditado por nossos antigos amores. Quem sabe o nosso maior dom, a exemplo dos heróis clássicos, seja também o algoz: a predisposição para amar. A nossa entrega absoluta, desmedida, altruísta as atividades que amamos e aqueles que apreciamos tão profundamente, movidas por uma sensibilidade mais sutil e aguçada, assustadora aos olhos de Murilos, Marinas e Antonias. Parafraseando Caio, “eles fogem do paraíso, esse paraíso que nós, as pessoas banais, inventamos. Seu paraíso é o conflito, nunca a harmonia”. Nós, pessoas banais, nos lançamos feito um Ícaro em direção ao sol quando amamos. A questão é: teremos coragem de alçar outros voos? Vamos sobreviver aos próximos saltos? Quedas?

Giulia, nesses tempos tão conturbados, a sua carta não é só uma carta, é um manifesto.

Muito obrigada. Por favor, continue escrevendo.
Com a admiração de sempre,

Camila