domingo, abril 10, 2016

Vende-se ou aluga-se

Todo aspirante a escritor é um voyeur. Um observador da vida alheia. Buscamos na realidade uma paixão para nos inspirar, fatal, que nos seduza e destrua como as grandes mulheres da literatura. Procuramos histórias e personagens nos lugares mais triviais. Durante um passeio, no restaurante, ônibus, metrô, elevador. Às vezes, não munidos de um falso distanciamento, mas de alguma identificação.
A mesa de trabalho está posicionada em frente a janela, no quarto de fundos que ocupo. Alguns dos rostos já me são conhecidos de anos; a jovenzinha ruiva e a professora particular de voz potente, o atlético e romântico casal de homens, o pai de família que passa todos os finais de semana assistindo televisão enquanto as filhas crescem. Os cenários vão da decoração asséptica, clean e branca das salas de estar às amplamente decoradas com vasos de plantas e paredes berrantes, até as bibliotecas que ostentam quadros assustadores nas paredes, que parecem observar o próprio observador.  
Hoje reparei que os vizinhos, cuja janela está exatamente na mesma altura que a minha, se foram. Há dias não escutava o choro do recém-nascido que ecoava por toda rua. Raras foram às ocasiões em que vi pai, mãe e criança. Salvo às brigas, seguidas das explosões de choro da mulher. A sala preenchida da falta de qualquer personalidade, revelava que o trio - que naquele espaço jamais poderia ser chamado de família -  não estava feliz.
No dia em que encontrei o apartamento vazio, alguns desconhecidos vieram visitá-lo. Decerto interessados na compra. É um imóvel bem localizado e amplo. Pelas janelas escancaradas, dou certeza de três quartos com bom espaço. Todos sem trair a existência de qualquer pessoa nos últimos anos, exceto pelo quarto do bebê, com papel de parede azul e um quadro de bordas brancas que restaram. Ao contrário dos demais apartamentos daquele edifício, nunca houve cortinas contra o sol intenso dos prédios próximos da orla, mesmo que de fundos.
Apesar da solidão que o apartamento exprimia, vazio e impessoal, senti uma espécie de tranquilidade ao encará-lo. Como se aquela caixa levasse a uma realidade silenciosa e pacifica. Desocupada e indiferente. Sem quaisquer memórias. quis me refugiar entre aquelas portas e paredes, para deixar entre os quartos desocupados as minhas próprias lembranças, saudades, romances frustrados e paixões desenganadas.