quarta-feira, abril 13, 2016

Eu, apartamento

As outras entraram pela porta principal, descalçaram os sapatos, escolheram o disco para nos embalar. Ficaram por uma noite, um mês, até mais de um ano e depois foram embora. Algumas calçaram os mesmos sapatos e se foram sem deixar bilhete ou vestígios, outras partiram num furor de guerra. Depois de um tempo soube que Yara passou no vestibular, Amélia casou e Marina mudou de emprego. Por enquanto, você continua aqui, presente na ausência desde quando fechou o punho ao redor da maçaneta e bateu a porta, se por vingança ou desamor nunca vou saber.

Yara apareceu com a rebeldia escancarada das pontas dos cabelos descoloridos ao tênis All Star surrado. A inocência intacta e discreta no escapulário de prata que carregava entre os seios. Ela apareceu sem fazer barulho, sem se fazer importante, como uma visita que logo a gente se cansa. Os móveis da minha sala de estar ainda eram formas brutas enroladas em plástico bolha e as paredes cheiravam a tinta fresca. Mas Yara parecia tão perfeita ali, feito um bibelô exposto na mesa de centro e resguardado com todo afeto diante da possibilidade de uma queda que a fizesse em pedaços. Quando ela decidiu ir embora não houve brigas, nem culpados. Éramos jovens demais.

Depois de Yara, muitas outras vieram e partiram, sem importância ou a legar quaisquer sentimentos. Restou um fio de cabelo no sofá, um copo partido, uma mancha de vinho no carpete. Quando dei por mim, aqui dentro já não era mais a sala de estar de estar onde recebi Yara . As formas brutas, rearranjadas, organizadas e dispostas ao longo dos metros cúbicos, passaram a revelar os contornos de um lar. Mesas, cadeiras, sofás, quadros, estantes em que se enfileiram os meus livros preferidos. Histórias de heróis, desbravadores, espadachins e cavaleiros, como aquela que eu devorava sobre princesas, reinos e dragões, quando Marina surgiu do outro lado da Avenida Paulista, ajeitando o cabelo com uma mão, enquanto a outra segurava o guarda chuva.

Desde o primeiro instante Marina me contaminou com uma paixão que se irradiou imediatamente pelos nervos. Ficar longe dela doía até os ossos. Amei aquela mulher mais do que a mim mesmo por dois anos. Um amor altruísta, subserviente, resignado. Mas se no início éramos o reflexo um do outro, no final  compartilhávamos apenas cobranças, acusações, brigas, gritos e silêncios. Separados pela distância de paredes grossas e frias, maior do que a geografia nos impunha, já não nos suportávamos quando ela foi embora de vez, depois de muitos ensaios de malas (des)feitas. Depois do luto inicial em que a identificava num fiapo da toalha, na gota que escorria da banheira, nas partículas de poeira contra o sol, nos corpos que não eram dela, nas bocas que pareciam disformes e erradas, decidi quebrar as paredes, arrebentar as cortinas e tingir a cor das paredes. Em suma, reformar a mim mesmo.

Entre uma cena e outra, você ameaçava entrar pela porta de casa. Eu encontrava seu reflexo na janela ou o mesmo perfume de flor na varanda revelava a sua presença. Um dia você chegou de vestido florido e peito aberto. Alcançou primeiro a entrada, depois o hall, a sala. Tirou os sapatos, se aconchegou no sofá. Até que você percebeu que eu não estava mais ali. Eu fugi porque fiquei com um medo de me apaixonar. Até que me rendi aos encantos de Amélia e padeci de febre e insônia reservada as paixões furtivas, agudas e efêmeras que se confundem com um resfriado forte. 

Até que eu te reconheci mais uma vez nas folhas de girassol, no perfume das gardênias, no verde das palmeiras imperiais entre o Jardim Botânico e o Parque Lage. Eu quis você. Quando eu deixei você entrar, a casa novamente reformada a recebeu de cortinas erguidas, janelas abertas, luz clara. Você não foi uma paixão estrondosa e hollywoodiana. A conta gotas você se fez eterna até preencher todos os quartos e ser um travesseiro a mais na cama de onde não devíamos sair.  Mas, você, que antes aceitava os vestígios que eu legava pelo caminho, minhas idas e vindas, meus súbitos silêncios, inesperadamente, fechou as janelas e apagou as luzes por conta própria antes de dar meia volta e passar a chave.

Desde então te encontro como um filme de sessão da tarde reprisado no fundo da memória. Ao contrário das outras vezes, decidi não me mudar de dentro mim. Os móveis continuam nos lugares que organizei da última vez. Há dias que enxergo os cacos que você deixou escondidos atrás do sofá fazendo ruído dentro do coração ou reparo no furo causado pela ponta do seu cigarro no meu peito. Você também está no intervalo entre uma nota musical ou na saudade de compartilhar da deliciosa estupidez típica dos amantes que nós deixamos de ser.