sexta-feira, abril 15, 2016

Ulisses & Penélope

Ulisses e Penélope se conheceram no aeroporto. Um blecaute paralisou partidas e chegadas. O apagão repentino transformou a sala de espera em praça de guerra com clientes e empresas aéreas em combate, exceto pelos dois passageiros que dividiam a fileiras de cadeiras um ao lado do outro. Ela tentava se concentrar na leitura de um livro enquanto ele, com os fones de ouvido vazando um Punk Rock qualquer, ostentava uma serenidade invejável.

O convite para um café partiu de Ulisses. A princípio ela estranhou. Estava acostumada aos flertes digitais, a paixão fragmentada em aplicativos e a sedução por mensagens instantâneas. Os novos códigos alertavam contra uma aproximação tão direta. No entanto, ela que naturalmente preferia manter a distância de pessoas, decidiu acompanhar Ulisses até a cafeteria do aeroporto, onde falaram sobre as profissões, os livros que gostavam e os lugares que haviam conhecido no mundo. Penélope era professora de artes plásticas e partia para um curso em Roma. Ulisses, escritor, estava a caminho do Irã a fim de escrever um livro sobre a crise no país como Ghost Writer de um famoso apresentador de TV desses que viajam o mundo.

Quando os voos foram restabelecidos e cada um se encaminhou para um portão de embarque, trocaram números de telefone e e-mail. Despediram-se com um beijo na boca.

No estrangeiro, procuraram um ao outro como se em busca de uma ligação com a pátria mãe. Ambos experimentavam a sensação de solidão, perda de identidade longe do país de origem. Distante da língua materna era como se um invisível cordão umbilical fosse dilacerado. As pessoas ao redor, as ruas, as informações nas placas de trânsito, comidas e cheiros acentuavam a própria estranheza que sentiam como parte de uma sistema que não os pertencia, de uma sociedade que não os representava. A troca de mensagens ao longo das viagens e telefonemas mostrava não só o afeto que havia entre eles, bem como a necessidade de se agarrar a algo familiar.

Só tornaram a se ver dois anos depois. Após a crise no Irã e o breve casamento sem amor de Penélope com Minerva. Depois da separação, ela retornou ao Brasil, e Ulisses, que também havia voltado depois de uma odisseia no deserto novamente a encontrou. Dessa vez por Facebook, seguindo as regras dos tempos modernos.

No segundo encontro, Penélope se viu diante de um homem mais magro, barba espessa, cabelos grisalhos. A guerra envelhece os homens, mesmo os que não seguram as armas.  Ela teve a sensação de que vinte anos haviam se passado. Ele mancava de uma perna devido ao ferimento causado por um estilhaço. Penélope sentiu piedade quando o outro relatou que não poderia ficar muito tempo em pé pois a cicatriz começava a doer insistentemente. O que fez com que a mulher lamentasse, interiormente, ter escolhido o Jardim Botânico, com longos trajetos a serem percorridos, para o passeio.

Mas o pretendente se fez de forte o quanto pode. Queria mostrar para Penélope, acostumada aos homens e mulheres atléticos e helênicos, que a odisseia no front não o deixara menos forte ou viril. Mas quando sentiu a cicatriz incomodar, Ulisses deitou-se no gramado como se fosse uma cama, acima de uma árvore milenar, com medo de desabar e fazer feio em frente a mulher. 

Penélope o acompanhou. Em silêncio, observaram os arcos que as gaivotas teciam no céu entre as nuvens que imitavam a forma de cavalos, barcos e ilhas, antes de unirem as bocas sedentas e saudosas.