domingo, julho 17, 2016

2066

Para Thais Machado,
Me vejo sentado em uma cadeira de vime, numa biblioteca, e separado de Alice somente pela mesa cercada de livros fora do lugar, papeis rascunhados e duas xícaras de porcelana acompanhadas de um bulê de café. Com a velhice, novos temas aparecem em nossos encontros tradicionais. Além dos romances, os alunos orientados, as notícias dos jornais e um termo ou outro em latim. Os remédios, as artroses e outras doenças apareceriam com o avançar dos cabelos brancos. Assim como a morte.

Nesta cena, é possível perceber que os anos não agrediram Alice, pelo contrário, revelam uma beleza distinta, nobre. Os fios prateados se misturam aos cabelos dourados num coque, as linhas do rosto, trazidas pelo tempo, revelam que aquela senhora ainda conserva os brilhos da juventude. O prazer pela dança manteriam as carnes no lugar. Ao contrário de mim, mais velho, torto com uma bengala a sustentar o peso de décadas alojado na barriga protuberante escondida pela camisa xadrez. A barba grisalha unida aos cabelos volumosos e cacheados e os óculos de aros grossos me fariam encarnar o típico professor comunista, que os pais abominam e os filhos admiram, à frente das salas de aula.

Por saudosismo ou medo do Alzheimer, o passado é pauta recorrente nas conversas com Alice. Passamos a relembrar com frequência como nos conhecemos e aproximamos durante a faculdade, especialmente, no segundo ano. Em retrospecto percebemos que não teríamos nos apoiado e confiando tanto, aberto os corações um para o outro ao passar da vida, se não de outra forma, além de bons amigos que nos tornamos. Aos poucos, feito um irmão mais velho passei a querer protegê-la. Falaremos dos professores mais marcantes, bem como de desamores e amizades desfeitas, mas não nos demoraríamos nestes.

Às vezes, eu e Alice passamos semanas sem falar um com o outro. Porém, o carinho que desenvolvemos nunca cessou. Eu a ergui nos braços quando ela passou no vestibular para o que realmente a completava, assim como ela comemorou ao saber que eu iria, finalmente, trabalhar numa redação de jornal impresso, como eu sempre sonhara.

Ao final da tarde, nos despediríamos com um abraço apertado. Como sempre, eu elogio as horas ao seu lado. O segredo da longevidade de nossa relação estava em entender e aceitar como nossos temperamentos funcionavam. E tínhamos gênios controversos, mesmo que semelhantes em muitos aspectos como o caráter reservado e introspectivo. Somos naturalmente fechados, mas aprendemos a tecer a quatro mãos a sinfonia perfeita para dançar com as nossas sombras através do tempo.