sábado, julho 02, 2016

Crônicas de Apartamento

A madrugada é a minha parte favorita do dia.

 Não sou alguém dado à agitações. Frequento algumas festas ocasionalmente, tenho pequenos grupos de amigos com os quais costumo me encontrar uma vez ao mês com cada um e sou repórter do jornal universitário, no campus em que estudo. Não sou especialmente bonito, tampouco, falante, mesmo que às vezes pareça o contrário. Na realidade, tenho uma introversão natural facilmente confundida com timidez. Logo, pode-se imaginar que não faço sucesso com as mulheres.

Gosto da ideia de um dia me tornar um romancista, desses que conseguem captar os sentimentos universais de uma geração como Luisa Geisler, Sylvia Plath ou Salinger e outros que acompanhei imerso em suas obras, muitas delas, sob a madrugada.

No negrume da noite, quando a maioria das pessoas está dormindo ou divertindo-se em clubes, bares e boates, fora de casa, eu aproveito a ausência de vozes, trinados de telefones e gritos de apresentadores de televisão, tão fortes durante o dia, quando todos os ruídos se misturam. Prefiro o silencio infinito das madrugadas, entrecortado por carros que avançam pelas ruas desérticas, por um rádio distante e mal sintonizado num canal de noticias e pela descarga escandalosa da privada de outro morador. Vez ou outra há o som do caminhão de lixos recolhendo os dejetos deixados ao longo da rua ou o disparo do alarme de um carro.

Durante a minha adolescência solitária e confusa, em que era um jovem inseguro, incerto sobre a própria sexualidade e com tempo de sobra depois do colégio, eu dedicava a madrugadas para a leitura. Sempre gostei de videogames e computadores, mas as frações do meu relógio são majoritariamente dos livros. Mas quando me vi adulto, com um emprego, contas e prazos cada vez se tornou mais difícil permanecer acordado até tarde.


Gosto do desenho das palavras encaixadas no papel e do tudo tanto que pulsa nas entrelinhas. Busco nas histórias respostas ou um pedaço de mim que não encontro, nas minhas próprias palavras, tampouco, na minha existência pequena e banal. Há nessas horas cinzentas uma quietude fria, como se todos os problemas, impasses e dilemas, toda sorte de atribulações fossem suspensos. Até o dia raiar, experimento, dentro de mim, todos os sentimentos do mundo que cabem numa folha de papel.