domingo, agosto 07, 2016

Deu no Jornal

Apelidado de O Príncipe de Copacabana, Carlinhos era semelhante ao Duque Filipe, alto e atlético, os cabelos loiros penteados com gel destacavam os olhos azuis feitos bola de gude. Desde o casamento, morava com a esposa, Simone, uma  Vênus de Botticelli mais bronzeada, de forma confortável e luxuosa no apartamento de dona Fátima, mãe do rapaz, na rua Barata Ribeiro. O problema é que sogra e nora não se batiam.
A bem da verdade, o temperamento de dona Fátima, matriarca octogenária de enorme vitalidade, era intempestivo, rude. Depois que o marido a deixou, sumiu no mapa com outra mulher, dona Fátima tornara-se ainda mais apegada ao filho único. Espantava os outros garotos que perseguiam Carlinhos com as tamancas, bem como, com o passar dos anos, passou a fazer com as namoradinhas que o menino apresentava em casa. Nesses encontros, dona Fátima trocava a violência física, pela psicológica. Bonito do jeito que Carlinhos era, o que não faltava era moça chorosa pelo bairro.
Já com Simone foi diferente. Desde a apresentação ela resistiu às provocações de dona Fátima, consciente da fama da velha. O que fez Carlinhos admirar ainda mais a menina, afinal, tinha paciência com a mãe, mas durante o resto do namoro, por vezes, as lágrimas dobraram-se no lindo rostinho angelical e sardento de Simone.
- Sua mãe me diz horrores e você permite. Sabe o que você é? Um covarde, Carlos Eduardo, um covarde! – denunciava Simone aos gritos.
- Não fala assim,  meu anjo. Você está sendo injusta. Tento agradar as duas – defendia-se Carlinhos.
- Ela faz o diabo comigo!
- Não posso afrontar mamãe, meu amor, você sabe.
Com o tempo, veio o noivado. Depois, o casamento. A mudança de Simone para a Barata Ribeiro foi realizada com festa. Carlinhos estava exaltante, assim como os pais da jovem, desses ricaços falidos que não querem perder a majestade. A convivência entre nora e sogra configurava um verdadeiro front de batalha. Se Simone solicitava alguma das empregadas, lá vinha a velha atrás dizendo que a menina se fazia de madame, se dispensava e, na tentativa de agradar, cuidava do serviço, a velha a acusava de tentar mandar em sua própria casa. E Carlinhos, coitado, não tinha coragem de apontar as injúrias da mãe.
Com o nascimento de Júnior, todos pensaram que o gênio de dona Fátima ficaria melhor, mais doce, mais brando. Deixaria Carlinhos viver a própria vida em função do ofício de avó. Porém, acentuara-se a personalidades ranzinza e controladora. Agia como se a própria criança fosse sua propriedade. Simone tentava evitar que a sogra crescesse o olho para o menino. Não tardou para a casa beirar o conflito bélico, com as duas mulheres xingando-se por todo o apartamento e para toda Copacabana ouvir. Esgotada, Simone deu o ultimato ao marido:
- Carlos, você escolhe, ou sua mãe ou eu.
Mas Carlinhos, submisso, não era capaz de deixar as saias de dona Fátima.
***
Simone acompanhava o filho crescer fraco como o pai. Dengoso, arrastando o corpinho na saia da avó, com uma eterna coriza sob o nariz, típica das crianças crescidas dentro de casa. O garoto tinha até medo de gente, da rua. Chorava por qualquer coisa. Não brincava com as outras crianças. Vivia doente. Passava as horas encostado a perna da velha, feito um cachorro, um animalzinho de estimação, com o dedo na boca. Se pedia algo, aparecia com a voz infantilizada e imatura. Se alguém ralhava com ele devido a malcriação, dona Fátima virava fera. O garoto crescia, mas sem abandonar os trejeitos de um bebê de colo.
Quanto ao marido,  Simone passou a odiá-lo. Mentia e afastava-se quando ele buscava o calor de seu corpo, recusava os beijos, as carícias. Na tentativa de evitá-lo, ela racionou os banhos e as colônias. Tampouco, trocava de roupa. Também emagreceu, uma vez que os temperos da casa a enjoavam. Nem o pequeno fazia questão de ver.
Preocupado, Carlinhos tentou conversar, propôs levá-la a um psiquiatra, ouvira falar de depressão. 
- Você sabe qual é o meu problema e ele está na porta ao lado – desabafou Simone.
- Não fale assim de mamãe. Ela é boa para nós.
- Até meu filho ela conseguiu estragar. 
Carlinhos desferiu um soco, de mão fechada, no olho esquerdo de Simone, esta sentada na cama, desabou no chão. Mas levantou-se rapidamente e atracou-se com ele, arranhando todo pescoço do marido, aos gritos. Precisaram chamar os vizinhos para afastar os dois. Dias depois, quando os ânimos do casal se abrandaram, Carlinhos novamente tentou se aproximar da esposa. Sem sucesso, o rapaz passou a dormir num colchão, no quarto de dona Fátima, que, ardilosa, soltava indiretas pela casa de que o filho logo arranjaria fora o que a mulher não dava.
Numa madrugada, quando o prelúdio de um novo dia já tingia de cinza o horizonte, Carlinhos invadiu o quarto em que Simone dormia e tirou a mala do armário e jogou todas as roupas que encontrava dentro do compartimento. Quando terminou a tarefa, ele a puxou da cama pelo braço e mandou calçar os sapatos. Ela o obedeceu. Segurando o braço de Simone com a mão esquerda e, com a direta, apertando a alça da mala, Carlinhos desceu ao lado dela, silenciosamente, até a portaria, onde depositou a mala no chão por um minuto, sacou a carteira do bolso e transferiu três notas de cem reais para as mãos de Francisco, o vigia. Na rua, um táxi esperava. Ainda em silêncio, Carlinhos levou a mala ao bagageiro e, enfim, voltou-se para a mulher.
- Não consigo viver sem a minha mãe, Simone.
- Você está me colocando para fora só com a roupa do corpo?
- Eu transferi uma boa quantia em dinheiro para a sua conta, mas mamãe não pode saber. 
- Você é um covarde.
- Só não quero confusão.
- E meu filho ?
- Você sabe que minha mãe se apegou demais ao Juninho. Ela morre se ficar longe  do garoto, ela morre.
Simone entrou no carro. A partir de então, a família, no apartamento de Copacabana, gozou uma felicidade de novela. Mas um dia a matriarca, beirando os noventa anos de idade, morreu. Neste dia, Carlinhos, inconsolável, chorou feito um bebê agarrado ao corpo gordo, largo e pesado de dona Fátima. Num luto selvagem, fez cena sem deixar que os médicos levassem o cadáver, gritava ao avisar que não deixaria ninguém afastá-lo da mãe. Os vizinhos apareceram para assistir ao drama, alguns até filmavam, fotografavam com o celular, até polícia baixou no imóvel. As empregadas rezavam, acendiam vela dizendo entre si que o patrão havia perdido o juízo. 
***
Deu no jornal a morte da velha, no qual Simone leu na área destinada aos anúncios de funeral do periódico. Dias antes, no colégio de Juninho, conseguiu deixar o prédio da instituição, levando o menino, durante o intenso fluxo de pessoas no horário de saída das crianças. Escolheu, propositalmente, camuflar-se de branco a fim de passar despercebida entre o exército de babás que buscavam os pequenos. E mesmo que a tivessem notado, que crime seria uma mãe estar com o próprio filho?
Simone releu inúmeras vezes o aviso fúnebre que informava a hora e o local do sepultamento de Maria de Fátima Couto de Azevedo, amada e zelosa mãe. Conforme os olhos percorriam o pequeno espaço no papel, sentia-se cada vez mais leve, forte e viva, se pôs até a cantarolar. Mais uma vez, não conseguiu evitar as lágrimas por causa da velha, só que dessa vez, de felicidade.