quarta-feira, agosto 31, 2016

Visões de Laetitia

Letícia tornava o ar ao meu redor abafado e rarefeito. Respirar demandava um grande esforço, bem como manter a minha cabeça no lugar, sem que os pensamentos desviassem para ela e fossem tragados de uma vez por sua presença altiva. O corpo esguio dela caminhava em saias ou jeans sob a pele rosada. Seu rosto formava uma construção geométrica, composta de traços angulosos e perfeitamente simétricos. As orelhas finas sustentavam as hastes dos óculos de grau, cujas lentes retangulares resguardavam os olhos grandes de coruja. Duas esferas castanhas ágeis e perspicazes, reluzentes como bolas de gude. Também a cor dos cabelos que desciam sob os ombros, de forma deslumbrante. O simples e mais despretensioso gesto de Letícia, no meio da tarde, ao desfazer o rabo de cavalo e permitir que os fios irregulares, em contraste com a compleição harmônica, se libertassem como uma bacante, poderia causar palpitações no peito, suores misteriosos e um torpor temporário.