terça-feira, agosto 23, 2016

Maria Quitéria, 37

Sara foi a mulher que mais amei porque o fiz em meus pensamentos. Amei-a devido ao que poderíamos ter sido, mas não fomos. Além de promessas jamais cumpridas e, principalmente, uma noite que durou para sempre, sob a chuva. Lembro daquelas horas como uma série de fotografias manchadas de tanto manuseio, das viagens às quimeras: a minha franja sob os olhos e a timidez incandescente, o escapulário de prata entre os seios da outra, bem como seus cabelos castanhos, quase loiros, com as pontas descoloridas a resvalar sob os ombros. De mãos dadas, passaríamos facilmente por um casal tradicional, ao invés de duas adolescentes, com éramos naquele tempo, cercado de ninfas curiosas. Quando é que você vai chegar na Sara?, perguntou uma das amigas que nos acompanhavam. 
Hoje, devido as reviravoltas da vida, Sara carrega nos olhos de gueixa uma tristeza residual cristalizada no que chamam de “janelas da alma”. Mas naquela noite fria e úmida de janeiro, seu olhar transbordava uma entusiasmo juvenil, levemente transgressor, mesclado a inocente rebeldia da juventude. Dois corpos celestes, cuja gravidade me atraiu para o beijo primordial, sem que frase alguma fosse versada, enquanto estivemos a sós, com as costas apoiadas na janela de um bar alternativo na Rua Maria Quitéria, em Ipanema. Endereço onde atualmente sobrou o fantasma do que o local representava, reduto de gringos, roqueiros e veados e sapatões recém-descobertos como nós.