quarta-feira, agosto 10, 2016

O descobrimento do Brasil

Mauro e Chico quase que podiam se passar pela mesma pessoa. Além da idade, 18 anos, compartilhavam a altura e compleição física atlética. Remanescentes dessas misturas europeu-índio-negro, que constituiu o Brasil, eles cresceram em meio aos campinhos de futebol, as aulas de natação e as quadras de basquete. As diferenças entre os dois se manifestavam no temperamento, na personalidade. Chico tinha um gênio ponderado e paciente. Já Mauro, era um verdadeiro bonachão. No meio dos meninos, Dani, irmã caçula de Chico, ficava de escanteio, no máximo, vítima das traquinagens que os dois aprontavam.

Os garotos não choravam quando brigavam um com o outro, já que por pouco tempo conseguiam se afastar. Logo aparecia um dos dois com a bola de futebol debaixo do braço em sinal de bandeira branca. 

Ao crescerem, passaram a dividir algumas das mesmas garotas, bem como, os trocados para os motéis e cinemas. Quando conheceram Elena, no cursinho, os dois se atraíram imediatamente, fascinados pelos cabelos de fogo presos num coque, a pele de uma brancura marmórea e os olhos de um negro profundo. Encantados, fantasiavam histórias que conectavam a menina, ora à dinastia dos Romanov, ora à KGB, devido aos sobrenomes complexos da lista de chamada que traiam uma ascendência ligada ao leste europeu.

Partiu de Mauro a proposta de conquistá-la. No zerinho-ou-um, os rapazes decidiram que o primeiro a tentar seria ele, depois Chico. Mas ao contrário das outras que se admiravam com a dupla de Cástor e Pólux, do bairro, Elena não se dobrava. Embora simpática, armava-se de evasivas. Desconversava todos os convites feitos pelos dois.

- Se ela não fosse tão bonita diria que corta para o outro lado – debochou Mauro.

Na festa de encerramento do cursinho, no Clube Monte Líbano, no Leblon, Mauro decretou que ficaria com Elena. De peito estufado, confiante, se referia a Chico como derrotado durante toda a noite. Cansado, este se afastou. Então, Mauro aproximou-se da desejada, mas ficou petrificado, a poucos passos, quando a viu de lábios selados com ninguém menos que a amiga de infância, Dani.

Aturdido, procurou Chico. Transtornado, apontou para o casal de garotas. Não que fosse uma exceção, outros casais se formavam conforme a noite avançava, como em qualquer festa.

- Como é possível? - perguntou Mauro.

- Eu já sabia – confessou Chico.

- Por que não me disse nada?

- Tem coisa que a gente não diz, Mauro, a gente descobre por si mesmo – declarou Chico. 
– Agora, desfaz essa cara. Vamos colocar o fígado para trabalhar.

No bar, instalado na varanda, os amigos beberam pelo resto da noite. Também fumaram 
uns cigarros. Admiravam, sozinhos, o nascer do sol na Lagoa Rodrigo de Freitas. Os outros convidados, exceto por um chapado e outro, entregue ao sono ali mesmo, DJ, barman e garçons já haviam deixado o local.

- Porra, a Dani é sapatão, moleque – disse Mauro, fascinado. – Você já sabia?

- Desconfiava – relevou Chico.

- Por que você nunca me conta tudo que acontece?

- Já falei, tem coisa que a gente não diz.

Permaneceram calados até que Mauro encarou Chico por longos segundos. Por sua vez, Chico tocou os braços de Mauro que poderiam ser os seus. Inicialmente, reticente, apoiou as palmas das mãos no peito atlético, tão rijos como os dele, a frente. Sentiu o coração acelerado do outro e devolveu o olhar que se refletia como um espelho de Narciso, já mais relaxado. O cheiro da rua, mesclado à urina, a fritura e ao vômito, da festa anterior, foram substituídos pelo suor produzido por ambos os corpos. Assim como o som das respirações, entre Mauro e Chico, abafou as buzinas dos carros e ônibus que cruzavam a avenida Borges de Medeiros, antes das línguas fundarem, entre os dois homens, um novo idioma.