segunda-feira, setembro 26, 2016

12 atos de amor

I.       Recebi o convite de casamento de Anna. De repente, o envelope grande e desproporcional, em tom de madrepérola, despontou entre as contas e o jornal de domingo. Um cordão azul, em um laço distinto, rodeava o luxuoso pedaço de papel endereçado a Pedro Maina, ou seja, eu. Queria ter forças suficientes para descartar o convite, quiçá, mandá-lo de volta. Nunca entendi porque minha ex. mulher insiste em ser tão presente.

II.            Anna e Felipe se conheceram dois anos depois de assinarmos a papelada do divórcio. Nesse meio tempo, eu e ela nos encontrávamos em meu novo apartamento entre a Augusta e a Consolação para trepadas casuais. A bem da verdade, nestes encontros agíamos como se ainda estivéssemos juntos. Ela aparecia como quem não quer nada, preparava o nosso jantar e eu escolhia o vinho. Eu tinha o cuidado de não levar outras mulheres para o imóvel já que nunca poderia prever quando Anna apareceria. Hoje, entendo que não era uma forma de marcar território, como a minha tola vaidade masculina me fazia crer.

III.           – Pedroca, eu estou saindo com outro homem. Um cara lá da clínica – revelou Anna quando tentei beijá-la na cozinha do apê, certa vez. – A gente sabe que prolongar esse rolo nosso, ainda mais com a separação, não vai dar certo.
- E eu, Anninha?
Eu tinha abandonado a minha cidade e meus amigos, vendido o carro, trocado de emprego e pechinchado uma grana extra para o meu pai a fim de ficar perto de Anna, médica residente que não poderia, como eu, simplesmente mudar de vida. Mas sem dificuldade, um dia convenientemente, ela soube se mudar de mim.

IV.          Pus fogo no papel caro e fresco. Sentado no sofá, admirei as labaredas que o transformaram numa moldura enegrecida, fedorenta e retorcida, dentro do cinzeiro sob a mesinha de centro.

V.           Dani me mandou uma mensagem de texto pelo celular perguntando se eu estava livre para a gente fumar uma ervinha e trepar gostoso. Decidi ignorar a mensagem uma vez que não estava de bom humor. Mas ela apareceu assim mesmo. Ao contrário de outras, no mundo Pós-Anna, que eu inventaria um job urgente ou alegaria falta de tempo - o que tenho de sobra - não consigo mentir. Portanto, a deixei entrar. Ela tem um jeito expansivo que me assusta e preenche ao mesmo tempo quando surge do nada com a voz sutilmente rouca e risonha, acompanhada do cheiro adocicado de maconha.

Aos poucos ela foi desfazendo as minhas muitas reservas. Meu corpo também foi se acostumando a sua magreza raquítica. Para ser sincero, tenho medo de me apaixonar por Dani.

VI.          – Já percebeu o quanto somos diferentes, Pedrinho? - perguntou.
Dani fumava um Lucky Strike mentolado, completamente nua, com os braços apoiados no parapeito da varanda, ao lado da cama. Meu sêmen escorria por suas coxas de uma magreza infinita. 
- Por que isso agora? - retruquei.
- Você não acha? Você é tão quieto e na sua, Pedrinho. Eu gosto de agito, de festa, de gente. Já você parece até ter medo das pessoas. Além disso, você não sabe ser carinhoso e eu tenho muito amor dentro de mim. Às vezes acredito que esse sentimento que pulsa no meu peito pode cobrir toda a humanidade. Seria errado deixar na mão de uma só pessoa, saca?  Você já amou alguém, Pedrinho? Poderia sei lá, amar uma mulher como eu que não quer ser de um só?

Contra o céu coberto de outros prédios e arranha-céus de São Paulo, senti que Dani me encarava. Os olhos rasgados fixos em mim. Felizmente protegido na escuridão do quarto, para evitar aquela conversa, fechei os olhos e me calei, simulando ter caído no sono. Ela soltou uma série de palavrões e, em seguida, escutei os passos apressados pelo quarto até ouvir a porta da frente bater com violência.

VII.         Durante o resto da semana, Dani não me telefonou. Tampouco enviou mensagens, nudes, convites provocantes ou recebi visitas surpresas. Não há sinal dela nem pelo Baixo Augusta, onde a procurei despretensiosamente. Nossos poucos amigos em comum também não sabem dela. Comecei a ficar preocupado.

VIII.       Anna telefonou de um número desconhecido. Atendi na esperança de ser Dani. Minha ex. mulher perguntou se recebi o convite do casamento. Confirmei. O que lhe permitiu perguntar se irei. Ela reiterou que a cerimônia será no próximo mês.
- Vou levar a minha namorada – avisei.
Pensei em Dani.

IX.          No sábado, quando voltei de uma corrida no Trianon, o porteiro me avisou que uma mulher esteve me procurando. Pela descrição só poderia ser Dani. Agitado, perguntei se ela deixara algum recado, o que o outro negou. Subi correndo ao apartamento onde tentei telefonar para ela inúmeras vezes, em vão.

X.             Decidi visitar os meus pais no Rio de Janeiro. Para isso, comprei duas passagens de ida e duas de volta. Enviei uma última mensagem para Dani e informei a data e o horário do voo. Quero que ela vá comigo. Quero que ela faça efetivamente parte da minha vida.

XI.            No dia da viagem, deixei o bilhete em meu escaninho, na portaria do edifício em que moro, na Consolação, antes de entrar no táxi em direção ao aeroporto de Congonhas. No saguão de embarque encarei a todas na esperança de ser Dani. Quando os alto falantes anunciaram a hora de entrar no avião levantei carrancudo em direção a fila indiana que se formava.

XII.          Instalado em minha poltrona no avião acompanho a aeronave taxiar na pista antes de ganhar o céu. Encaro a noite azulado, de tempos em tempos, iluminada pelos sinalizadores na asa direita. Passados quinze minutos entre as estrelas, sinto um familiar odor adocicado. Alguém se senta ao meu lado, um corpo leve, languido e silencioso murmura o meu nome em um tom de voz musical, sutilmente rouco e risonho