sexta-feira, setembro 23, 2016

Garotos Não Choram

Ao nosso redor os outros espectadores logo se dispersam pela sala escura quando  as luzes acendem. Você recolhe o saco de pipoca vazio, joga a mochila nas costas e levanta. Sigo os seus passos. Na saída do cinema ajoelho para amarrar os cadarços dos tênis. Ao me erguer, tento roubar um beijo que você entrega relutante.
            - Léo,  não precisa forçar a barra entre a gente – você diz, da sua forma tipicamente blasé.
            Fecho a cara. Você começa a falar que nem sempre as coisas têm que ser da minha maneira e que estou sendo mimado.  Sem jeito - e talvez sendo realmente um pouco mimado - começo a dizer várias merdas.
            - Escuta, Léo, você quer me perguntar alguma coisa?
            - Não enche, Vinícius.
            - Porra, Leonardo. Não somos amigos, cara?
         Amigos não se beijam. Tampouco abaixam as braguilhas e batem um para o outro em ruas escuras e escondidas, é o que eu penso. Mas prefiro guardar para mim. A gente continua discutindo até chegar ao ponto de ônibus. Quando o motorista avisa que vai dar partida você estala um beijo insosso no meu rosto e declara que continua gostando muito de mim. Seja lá o que você quis dizer com isso, apenas dou as costas.
        No dia seguinte, coloco os fones de ouvido para evitar conversar com você. Mas mesmo com The Who nas alturas; I don’t need to fight to prove I’m right I don’t need to be forgiven, você continua puxando assunto comigo e por um lado eu gosto disso. Trocamos duas ou três frases ao longo do dia com o mínimo de contato visual. No entanto, quando você está a metros de distância me percebo olhando para o seu corpo languido de um Cazuza, o sorriso fácil pregado em seus lábios finos e atento ao seu charme barato. Contra isso, tento pensar na crise no país, na política panis et circense atual, no governo golpista, nos trabalhos da faculdade acumulados e no romance de Garcia Marquez que deixei na casa de minha avó.