quarta-feira, setembro 14, 2016

Miguel

Miguel sacode a areia grudado nos poucos pelos do corpo delgado e languido, mas centenas de grãos continuam, incontáveis, nas reentrâncias e depressões da pele dourada, queimada pelo sol. De costas para o Dois Irmãos, ele lança um sorriso quase infantil, um semicírculo entre as espinhas que cobrem o rosto, antes de retirar a ponta de baseado de dentro da sunga. Alto, Miguel até parece achatar o morro ao fundo ao acender o beck com o isqueiro importado de Clara. Ele puxa a fumaça para dentro dos pulmões, distribui o cigarro entre a turma e engata um papo sobre meditação transcendental e cinema pornô.

 Ao meu lado, Luis, que segura o pequeno cilindro entre o polegar e o indicador, pergunta:

- Bernardo, você quer? 

Aceito dar um tapa e embalado pela fumaça adocicada acompanho, em câmera lenta, o peito dourado de Miguel que desce e sobe. Os ossos parecem descolar dos músculos e articulações. Clavículas, costelas e omoplatas que se alongam a ponto de perfurar a pele. 

Clara e Mariana riem escandalosamente quando ele fala de cus e bucetas, sobre as transas mais insanas e orgásticas com homens e mulheres. Em seguida, Miguel se afasta, fecha os olhos e simula uma dança com os pés fincados na areia do Posto 9, em Ipanema, enquanto cantarola um trecho de Under My Thumb, dos Rolling Stones. Tudo faz parte de seu show. As coxas magras mal encostam uma na outra, separadas pelos joelhos ossudos e protuberantes. Encaro sua bunda perfeitamente esférica e pequena quando, subitamente, ele se vira e me lança  um sorriso como se soubesse o que eu estava fazendo. Desvio o olhar rapidamente.

Clara levanta e o puxa pelas mãos. Os dois se jogam no mar. Ao retornar, ele deita ao meu lado na areia onde permaneço sentado com os braços apoiados no joelho. Não trocamos uma palavra, mas sinto meu pau enrijecer, ficar duro como pedra.

As meninas e Luis deixaram a praia antes de nós. Miguel e eu ainda continuamos até pouco depois do lusco-fusco. Aplaudimos o pôr do sol, fumamos um cigarro e decidimos ir embora. Não falamos muito. Busquei a minha bicicleta acorrentada no poste logo à frente, no calçadão. Sem montar na bike, mas a segurando pelos guidões, caminhamos juntos pela Avenida Vieira Souto

- Bernardinho, eu e uns amigos vamos mais tarde ao Circo Voador, na Lapa. Tá a fim? - perguntou.

- Acho que não, Miguel. Não gosto de lugar cheio – respondi. - Além disso, cara, essa praia me deixou cansadão.

- Bad trip, Bernardinho. A boa mesmo é estar num ambiente cheio de gente, energia e acordar ao lado de um homem ou mais homens deliciosos depois.

 - Homens?

- Você sabe muitíssimo bem do que eu estou falando.

A declaração daquela bicha me trouxe o misto de excitação e repulsa. Quem ele pensa que era? Eu até tive algumas namoradas.

- Não precisa ficar vermelho, Bernardinho - debocha Miguel. 

Continuamos calados até alcançarmos o Arpoador, onde ele dividia o imóvel com um colega da faculdade. Acorrentei novamente a bicicleta e subi ao apartamento sem contestar o pedido de Miguel. Lá, passamos direto para o quarto de meu anfitrião que cheirava a maconha e incenso. Nu, sentei na cama. Miguel, também despido, parou a minha frente e o encarei como se diante do espelho de Narciso. Tanto amedrontado quanto fascinado, sustentei o olhar malicioso de Miguel que apontava para mim, através de olhos negros de lince, prontos para me rasgar.