terça-feira, outubro 25, 2016

O Quadro de Cortiça

- Sobe?! – gritou Léo antes que as portas metálicas do elevador se fechassem.

PLIN! Tendo o visto a tempo, o ascensorista permitiu que Léo embarcasse. O advogado espremeu-se entre outros engravatados, igualmente suados em ternos amarrotados antes do meio dia. Um problema ao morar numa cidade como o Rio de Janeiro onde apenas duas estações do ano se revezam: baixo verão e alto verão, esta, em meados de outubro, já em plena atividade.

Isabela, no fundo do elevador, reconheceu o homem que acabara de entrar. Ergueu o rosto ao encontrá-lo na fila do ponto biométrico, jogando a cascata cor de fogo que descia pelos ombros. Enquanto isso, ele cumprimentou a todos; o Soares, do Financeiro; Priscila, do Comercial; Johnny, do Marketing. Exceto ela, que ignorada, dirigiu-se a sua baia batendo os saltos, sonoramente, no assoalho de mármore.

Mais tarde, na sala de xerox, por acaso Léo e Isabela se encontraram. O clima era amenizado pelo som das máquinas reproduzindo processos e memorandos. Ela olhava para frente, concentrada no quadro de cortiça com avisos dos funcionários sobre festas, chás de bebês ou em busca de alguém para dividir o aluguel. Já ele, mexia no celular.

Os dois também se evitavam fora do escritório. Em confraternizações sequer trocavam uma palavra. O motivo da contenda era especulado pelos demais, embora jamais levantado na presença de seus protagonistas. Ela agia como se, na maior parte do tempo, ele estivesse sob uma cortina invisível. Por conseguinte, Léo a tratava com o mesmo distanciamento. Porém, ela, mais atenta, como toda mulher, registrava algum dos olhares que ele lançava em sua direção, e, mesmo sem saber o que, de fato, significavam, secretamente, se deliciava.

Na tentativa de quebrar o gelo, voltando do almoço de sexta-feira com toda a equipe, depois de umas caipirinhas grátis no self-service da rua Debret, Léo tentou puxar assunto com a mulher, sem sucesso. Soares, que vinha logo atrás da moça, não perdeu a oportunidade de sacanear o amigo.

- Essa aí se pudesse colocava seu nome na macumba – caçoou.

No dia seguinte, enquanto Isabela caminhava pelo corredor com uma pilha de memorandos na mão esquerda e um copo de café fumegante na direita, o deslize no salto fez com que a bebida voasse diretamente na camisa do homem a frente. Ninguém menos que Léo, acompanhado por um cliente. Nenhum pedido de desculpas desfez o papelão. O episódio pareceu declarar a guerra fria entre eles.

Um julgava que o outro não suportasse a sua presença. Dessa forma, o tempo passou sem que ousassem se aproximar, temerosos um do outro. Olhavam-se ansiosos pelos corredores, nos elevadores e, até mesmo, nas mesas de bar, durante os encontros e aniversários dos funcionários. A bem da verdade, não sabiam a razão da pseudo desavença. Talvez fofoca, ele julgava. Quiçá, só os santos que não se batem seja a única explicação, ela analisava.

Na mesma semana, ao voltar de mais um almoço com Soares, regado a caipirinhas, Léo encontrou Isabela na sala de xerox. Durante um minuto e meio, enquanto alguns processos eram copiados, ele reparou nos cachos que desciam feito vinhedos pelo rosto oval da mulher, e nos pequenos olhos castanhos, perspicazes que, por trás dos óculos, simulavam uma aparência blasé de descaso, estampado no rosto jovem e bonito delicadamente salpicado de sardas.

Quando o sinal sonoro anunciou que a quantidade de cópias realizadas por Isabela estava concluída, ela deixou o cômodo. Não sei antes fixar com uma tarraxa o recado no quadro de cortiça, que o rapaz checou, imediatamente. Após ler o conteúdo, ele deu um amplo sorriso. Sentiu uma fisgada abaixo do umbigo e guardou o papel no bolso interno do paletó, antes de abandonar o local.

No final do expediente, como de costume, Isabela e Léo se encontraram no elevador. Lançaram olhares ansiosos um para o outro mesclados por uma latente cumplicidade. Encaravam-se como se notassem a totalidade do outro pela primeira vez. Sozinhos no estacionamento, os dois seguiram, lado a lado, na mesma direção.