quarta-feira, setembro 06, 2017

Os Darmas

Os quatro cavaleiros do apocalipse

A morte de Gregório foi uma notícia amarga.

Eu estava na Redação quando Caetano me ligou e contou, sem rodeios, que o cara tinha, de uma noite para a outra, se entupido de remédios. Imediatamente, senti o gosto ácido da bílis sob a glote. Corri para o banheiro, sem sucesso. Cheguei com o azedume preso na ponta da língua.

Gregório e eu havíamos nos conhecido há 10 anos na faculdade de jornalismo. Embora uma das pessoas mais divertidas que convivi, dosava como um judeu o que destinava de si para os outros. Quem o conhecia tão bem quanto eu sabia reconhecer como ele era um nerd ermitão. Gregório se esforçava para esconder a dificuldade em conviver com as pessoas. Acho que por isso nós dois nos entendíamos tão bem. Éramos parecidos nessa questão e, talvez por isso, o suicídio dele não fosse uma surpresa.

Nós dois integrávamos o Darmas, um quarteto formado no bar ao lado do campus, no quarto ano, e composto por mim, Greg, Caetano e Renatinho. Durante a faculdade, costumávamos nos reunir para encher a cara, fumar cigarros e baseados e ter conversas sobre sexo, política, cinema, música, literatura e, é claro, mulheres. 



Nas reuniões dos Darmas Greg apresentou os primeiros contos que mais tarde encontrei  publicados em portais, revistas e jornais. Ele sonhava em ser escritor. Era um desses alunos clichês de jornalismo que escolheram a profissão por gostar de escrever. Lembro de, em algum intervalo, apresentá-lo a Garcia-Marquez e convencê-lo a ler o colombiano ao dizer que Amor nos Tempos do Cólera e Cem Anos de Solidão eram Revolver e Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, da literatura.  

Depois da graduação nós nos afastamos um pouco, ocupados com a vida adulta que se escancarava a nossa frente. Cada um tomou seu rumo. Eu fui para os Estados Unidos, passei seis anos em Columbia antes de voltar, aproveitando a cidadania americana. Caetano trampava com uns bicos e Renatinho virou um reconhecido diretor de arte no mercado, abriu a sua própria agência de propaganda e casou com um cineasta. Já Greg, antes da fama, batalhava numa assessoria de imprensa para se sustentar. Depois do sucesso, passou a dar aulas de storytelling e palestras. Fiquei feliz em acompanhar o sucesso crescente, tanto de público quanto da crítica, a cada um de seus lançamentos. Ele odiava toda aquela ginástica social obrigatória de assessor.


O longo adeus

No dia em que soube de sua morte, cheguei em casa e me tranquei no escritório. As crianças dormiram na casa de minha sogra, Lígia, minha esposa, preparou o jantar, mas preferi passar a noite remexendo em fotos antigas no Instagram e Facebook, conversas arquivadas no WhatsApp e e-mails do passado. Reli trechos de Prelúdio do Irreversível,  última obra de Greg, na tentativa de encontrar alguma pista de seu suicídio.

Quando éramos jovens, gostávamos de falar sobre a morte mais do que as pessoas normais. Ele dizia: “Luke, meu velho, quando eu morrer, quero um enterro igual aquele de Sonhos, do Kurosawa. Quero festa, gente rindo, música”. No entanto, como todos os funerais, o de Greg foi silencioso. Aprendi que a morte sabe ser discreta. Nada de uma caveira vestida de preto, com uma gadanha cortando o ar.

Dona Maria chorava, silenciosamente, com a mão apoiada no caixão de mogno fechado. Sob a tampa, uma imagem em P&B do morto, clicada por Renatinho, na faculdade. As lágrimas da mãe do falecido rolavam grossas pelo rosto, percorrendo a trilha deixada pelo tempo. Além dela, ninguém mais da família prestava as condolências. Greg era brigado com todos os parentes. Na real, acho que os Darmas constituíam sua verdadeira família. Me senti culpado por termos nos distanciado nos últimos anos.

 Cumprimentei dona Maria, que, ensaiando um sorriso, confessou que ficava feliz de ver que o filho, a julgar pelo salão cheio, era querido.

- Sempre tive medo de morrer e deixar meu menino sozinho nesse mundo. Hoje vi que ele não era tão só como pensava – revelou.

Lá estavam amigos, professores, coleguinhas da profissão, outros escritores, editores. O velório foi vetado para fãs e imprensa. Algumas exs. namoradas completavam o séquito. Abracei Alice com força e afaguei seus cachos cor de trigo. Ficamos assim uns dez minutos. De todas as garotas com as quais Greg se envolveu, Alice era a mais divertida. Os Darmas a acolheram como uma integrante legítima, mas o casal era muito parecido para dar certo. No final, se tornaram grandes amigos.

- Ele tentou me ligar três vezes na noite em que seu matou, Luke – confessou Alice. – Eu tô arrasada com isso.

- Você não teve culpa, Alicinha. Ninguém poderia prever essa fatalidade – disse, na tentativa de ampará-la.

Avistei Clarinha, Gabi, Bebel e Agatha. Como o luto parece unir até mesmo as rivais, as quatro trocavam confidencias. Greg entrou na faculdade namorando Clarinha, mas a trocou por Gabi. Esta cheirava a sexo e trepava com Greg em todos os lugares. Só a foda pura e selvagem os unia. Mais tarde, ele conheceu Bebel, descolada, cheia de piercings e tatuagens, cheiro de cigarro e trilha sonora de artistas alternativos na cabeça, ele ficava todo bobo perto dela. No entanto, Greg tinha completa devoção por Agatha, tão intelectual, de uma postura quase masculina, doce e elétrica. Confesso, também fui apaixonado por ela. Agatha era altiva, elegante, dotada de uma perspicácia, inteligencia e autoconfiança que dobravam qualquer homem e conquistava a admiração das outras mulheres.

Eu e Lígia começamos a namorar quase na mesma época em que Agatha e Greg. No entanto, mesmo casado com Pati senti, naquele momento, uma estranha vertigem ao rever Agatha, elegantíssima em seu luto. Seu perfume invadiu as minhas narinas quando ela se aproximou. Nos afastamos das demais para conversar. Agatha, hoje editora de uma importante revista de arte do país, relembrou o quanto considerava Greg talentoso.

- Eu amava o Gregório. Até hoje guardo as cartas que ele escreveu para mim. Assim como os contos e as crônicas que ficaram comigo. Greg nunca mais pisou no meu apê depois que a gente terminou. Ele, notívago, quando passava a noite lá em casa, ficava escrevendo no meu Windows XP até amanhecer.  Achei uma pasta com papeis e arquivos de texto em CDs com seus escritos – rememorou Agatha. – Ele teria sido um jornalista brilhante, mas a parada do Greg era fazer literatura.


A garota dos olhos de Frank Sinatra

Sem sinal de Caetano e Renatinho, mandei mensagens para os celulares dos dois. Tentei telefonar, em vão. Fui ficando irritado. Era impossível que eu fosse o único Darma presente no funeral de Gregório. Mandei áudios revoltados pelo WhatsApp; “Ei, seus cuzões, nosso amigo se estourou de comprimidos e vocês não estão aqui para prestar uma última homenagem?”, “Como é fácil para vocês esquecerem os outros”, “Quando eu morrer não quero ver vocês nem na outra vida, calhordas”.

Às 16h, o caixão foi levado até o jazigo onde os restos de um dos maiores expoentes da literatura brasileira contemporânea passariam a eternidade. Dona Maria permaneceu ereta ao lado do esquife contendo o corpo do filho único. Assistimos os coveiros descerem o compartimento no subsolo, subitamente, interrompidos por Flávia que expulsava Amélia do velório.

Ninguém se atreveu a defender a visitante. Flávia, com quem Greg protagonizou o mais próximo de um relacionamento saudável e feliz, quase como um casamento, agia como a viúva cuja honra fora profanada. De repente, dona Maria pediu respeito a memória de seu menino e o silêncio voltou aquele pedaço do Cemitério São João Batista, em Botafogo.

Flávia gostava de Greg. Ela simbolizava um ponto de paz jamais alcançado por ele em vida. Greg era solitário, gostava de chafurdar na própria solidão e Flávia parecia iluminar todos os cantos escuros de meu amigo. Os dois chegaram a morar juntos. No entanto, estavam dando um tempo quando Gregório morreu, por decisão dela. Flávia queria engravidar, mas Greg não tinha certeza se queria ser pai.

A bem da verdade, ele amava Amélia. Apesar de toda dificuldade em se abrir, Gregório gostava de estar com ela, de conversar com Amélia, sem medo de expor as suas cicatrizes. Ele a chamava de Garota dos Olhos de Frank Sinatra porque Amélia exibia duas esferas da cor de safiras entre o nariz. Quando os dois estavam lado a lado, eram facilmente confundidos com um casal. Na graduação eram feito unha e carne. Eu sei que ela também o amava. Afinal, Amélia se preocupava e cuidava de Gregório com carinho e dedicação incomuns para uma simples amiga. Inclusive, os outros homens com os quais se relacionava costumavam lembrar Greg nas preferências, gostos e trejeitos. Há anos não se falavam. Eu nunca soube ao certo o que houve entre eles para que se afastassem drasticamente, mas poderia imaginar.

Amélia sempre esteve no coração de Gregório. Não havia um chope, uma conversa em que ele não perguntasse sobre ela como quem não quer nada, mas com o olhar atento, a voz dura na tentativa de eclipsar emoções. Eu a encontrava em cada conto, em todas as suas personagens. Ele buscava reproduzi-lá em cada uma de suas histórias, contos e romances, mas era demasiadamente orgulhoso para admitir.

Na saída do cemitério encontrei Amélia. Trocamos algumas palavras. Ela, que morava na Barra da Tijuca, assim como eu, ofereceu carona em seu Fiat Uno. Durante o trajeto, conversamos sobre o suicídio de Gregório.

- O suicídio dele não me pegou de surpresa. Greg sempre se sentiu sozinho no mundo, um estranho no ninho – disse ela.

- O que ele fez também não soa como uma novidade para mim. Só não achava que seria realmente capaz de tirar a própria vida – comentei.

- Luke, depois da morte do meu pai, percebi que o Greg se afastou para me poupar de mais uma perda.

- Você diz saber que o cara ia se matar e dá essa justificativa? Amélia, se você tinha tanta convicção porque não fez nada? Aliás, me deixa ali do lado que eu prefiro tomar um ônibus.

- Não seja estúpido.

-  Acabamos de velar o cara, que, a propósito, passou a vida sendo apaixonado por você, hoje!

- Não o velamos de verdade.

- Como assim?

- Eu fui te procurar no enterro para velarmos o Greg, dignamente.

- Encosta a porra do carro, sua louca!

- Você não se perguntou onde estavam os outros Darmas?


O templo dos Darmas

Próximo ao túnel acústico, na Gávea, Amélia virou a direita. O carro invadiu a grama ao lado do Planetário, no Espaço Galileu. Eu conhecia aquele local, perfeitamente. Era onde os Darmas costumavam se encontrar, munidos de garrafas de Catuaba, cigarros e muitas ideias na cabeça. Amélia desligou o automóvel e saiu do carro. Instigado pelo comentário sobre Caetano e Renatinho, a segui. Nos afastamos de um parquinho com brinquedos para crianças e entramos em uma mata fechada, cercado de um labirinto construído de bambus. Vinte minutos depois alcançamos uma clareira, onde os outros dois Darmas estavam entre alguns objetos.

Os xinguei ao encontrá-los. Tentei agredi-los fisicamente durante dez minutos. Na realidade, só buscava extravasar toda raiva que me corroía. Quando parei, ofegante, Caetano e Renatinho me abraçaram. Choramos. Nós três nos sentíamos culpados pelo que acontecera com Gregório.

Olhei para a parafernalha aos meus pés: discos de rock clássico, um baralho, dois livros de romance policial, um DVD do Woody Allen e um chaveiro de Star Wars. Pouco depois, Alice chegou e depositou um quilo de café, desses comprados no supermercado. Greg era viciado em cafeína.

- O que ela está fazendo aqui? - perguntou Amélia.

- Não esquenta. Eu chamei – disse Renatinho.

- Mas...

- Estamos aqui pelo Greg, Amélia! – gritou Caetano.

- Todos nós o amávamos, ou melhor, ainda o amamos. Isso que importa – ressaltou Alice.

Lembrei de que Alice havia me dito que, na noite de sua morte, Greg tentou, insistentemente, telefonar para ela. Por fim, Amélia colocou, entre as quinquilharias, uma fotografia sua vestindo um macacão apoiada em Greg, que ao seu lado, trajava uma camisa de botão azul e branca de quadrados, naquele local, com as folhas verdes das árvores ao fundo. Os dois sorriam olhando diretamente para a câmera.

- Vamos velá-lo de verdade, aqui – contou Amélia.

Vasculhei os bolsos e achei um marcador de páginas amassado. Lembrei das conversas sobre livros e quadrinhos e o nosso desejo de mudar o mundo como jornalistas. Coloquei o objeto entre os utensílios no chão de terra, rodeados de folhas secas molhadas com querosene.

Caetano, Amélia, Alice, Renatinho e eu montamos um círculo ao redor das lembranças de Gregório. Caetano acendeu um Camels, o cigarro favorito de Greg, cada um deu uma tragada. O último lançou a guimba acesa na pilha de utensílios, o que rapidamente gerou uma fogueira. Em seguida, das pequenas caixas de som do iPhone de Renatinho, a música Funeral in The Village, do filme Sonhos, de Akira Kurosawa, ecoou pelo bosque. Nós cinco nos abraçamos, emocionados e estranhamente contentes.

Fixei o olhar nas labaredas por alguns minutos. Depois, Caetano acendeu outro cigarro, e fumou, solitariamente, observando as chamas, enquanto Renatinho e Alice conversavam. Ao meu lado, encarei o reflexo incandescente das chamas alaranjadas nos olhos azuis de Amélia. Numa espécie de transe, me aproximei do corpo branco e delgado da mulher. Seu olhar desviou do fogo para mim e percebi que ela chorava. Afaguei, carinhosamente, os cabelos loiros que emolduravam seu rosto e me aproximei de seus lábios. Ela não ofereceu qualquer resistência quando a minha boca tocou a dela e nossas línguas, ardentes, começaram a dançar.




  • Foto: Camila de Araujo
  • Arte: Camila de Araujo