sábado, janeiro 21, 2017

A Vingança

No primeiro ano do ensino médio, a faculdade deixa de ser um esboço para se tornar um sonho cada vez mais possível, uma realidade concreta. Desde o primeiro dia que retornamos das férias de verão para iniciar a contagem regressiva rumo ao ensino superior nos sentimos mais velhos, mais responsáveis. É como se, de uma noite para a outra, até mesmo nossas vozes soassem mais encorpadas. Inclusive, as meninas, ainda assustadoras para alguns de nós, um universo completamente misterioso, pareciam mais graciosas, mulheres por inteiro.

Em nosso grupo, essa transformação não se aplicava a Gabi. Eu, Lucas e Bernardinho não a mirávamos com o mesmo fascínio e encantamento destinados às outras. Gabi, apesar do excesso de anéis, brincos e adereços cor de rosa, a patricinha clichê e mais que perfeita, era apenas um de nós. Formávamos um bando improvável, curioso. Eu tinha reprovado no ano anterior e pareceu normal me juntar aos novatos. Lucas era o típico galã. Charmoso, já estava iniciado nos jogos sexuais que para o resto de nós ainda não começara. Atlético e forte, os cabelos loiros, os olhos verdes e o bronzeado de praia, se destacavam. Já Bernardinho era um nerd. Me chamavam de Teddy, afinal, eu era grande e peludo feito um urso. A gordura, como tudo na adolescência, crescia em montes desproporcionais pelo meu corpo. Os meus dentes, na época, amarelados e o volumoso cabelo cacheado não ajudavam. Além dos pelos, os muitos pelos brotavam na velocidade da luz através da minha pele com a promessa de me transformar num homem das cavernas.

Eu e três novatos. O estranho, acompanhado de um bonitão, uma patricinha e um nerd e do inexplicável sensor para confusões, começava mais um ano letivo infernal.

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Já conhecia os métodos de Paola, Setsuna e Daniela de intimidarem os calouros do ensino médio. Especialmente, porque Paola ou Bruxa-Mãe, como eu, Lucas, Bernardinho e Gabi a apelidamos, era tremendamente assustadora. No trio, ela exercia o papel de liderança. Despejando comandos cruéis em suas diabretes particulares; Daniela, nada mais que um gravador da Manda-Chuva e Setsuna, esta uma cópia da gótica do filme Clube dos Cinco, com o mesmo guarda roupas dark e piadas sexuais. 

As provocações começaram na fila da cantina. Comentários jocosos sobre as roupas de Gabi, as espinhas de Bernardinho e o meu biotipo de homem pré histórico. Em seguida, passaram para os corredores. E logo, qualquer encontro casual na escola servia para o grupo perverso destilar piadas maldosas e trocas de farpas. Sem falar nas aulas conjuntas de educação física. Eu e Bernardinho tentávamos ignorar. Elas não eram tão mais velhas que a gente. Por que se achavam tão superiores? Lucas e Gabi costumavam revidar com ironia. Os meses passaram minando a nossa autoestima quando tivemos a ideia de nos vingarmos.

Todos sabiam que As Demonias, como as batizamos, costumavam beber e fumar no banheiro do último andar, durante as quartas-feiras. Um cubículo praticamente inutilizado, numa zona abandonada da instituição. Elas haviam invadido o lugar e, reza a lenda, ladravam e mordiam qualquer um que se aproximasse. Nos infiltrar no local era fundamental para a conclusão de nosso plano.

Eu desenvolvi todo o estratagema. Calculei cada passo, cronometrei o tempo, decorei a planta do andar, escrevi o roteiro e listei os itens necessários. Bernardinho abandonou a operação por achar arriscado e não queria problemas, mas trouxe de casa a sua contribuição. Lucas, com o porte atlético de homem feito, conseguiu tranquilamente as garrafas de Heineken e um dispositivo para fechar garrafas de vidro que pedi. Quanto a nossa patricinha favorita, Gabi, como era a única que poderia entrar no banheiro feminino do terceiro andar, ficou responsável pela execução.

Nas horas que antecederam o nosso plano, Lucas e eu nos entupimos de Coca-Cola, Mate Leão, água, sucos. Pegamos o ônibus para a escola prendendo o xixi. Durante as aulas, não passávamos mais de vinte minutos com as garrafinhas plásticas vazias. Alguns professores estranharam, mas não nos proibiriam de irmos até o bebedouro para enchê-las novamente.

 Nossas bexigas estavam explodindo quando, no intervalo, eu e Lucas corremos para o banheiro masculino, com nossas mochilas sob o uniforme.

Alguns minutos depois, encontramos Gabi no terceiro andar, onde As Demonias empesteavam o local com o odor de seus cigarros fedorentos e o barulho de risadas maléficas. Em silêncio, retiramos as garrafas esverdeadas de cerveja das mochilas e entregamos a nossa amiga. Ela hesitou.

- Não seja fresca agora, por favor – implorei. – Talvez seja o nosso único momento de glória nesse inferno.

- Isso é nojento, garotos – disse Gabi. – Podemos ser expulsos.

- Elas colocam coisa pior na boca. Não vão nem perceber – argumentei.

- E se elas perceberem e partirem pra cima de mim?

- Vamos ouvir, arrombar a porta e partir pra cima delas – afirmei.

- Vocês vão bater em garotas? - perguntou Gabi.

Sem resposta, comecei a gaguejar. Olhei para Lucas em busca de ajuda.

- Gabi, se tudo der certo eu desenrolo você para o Beto. Digo que você está a fim dele. Ele fecha comigo, é parceiro – disse ele.

Gabi estufou o peito como se ouvisse palavras mágicas. Ereta, ela caminhou decidida em direção a porta do banheiro abandonado. Quando entrou, ouvimos risadas e palavrões. Em seguida, todas se calaram, eu e Lucas nos aproximamos. Colamos as orelhas na porta de madeira e ouvimos Gabi do outro lado. Ela seguia o roteiro palavra por palavra, vírgula por vírgula. Daria uma excelente atriz. Sorrimos um para o outro quando escutamos o som de vidros tilintando. Gabi saiu logo depois. Sem tempo a perder, nós três deixamos o andar, às pressas, e encontramos Bernardinho em frente à biblioteca. Seguros, longe das Demonias, começamos a rir de doer a barriga e chorar, até dar vontade de fazer xixi outra vez.


Gabi nos contou como foi a rápida conversa com Paola, Setsuna e Daniela, na qual simulava um acordo de paz. O trio endiabrado aceitou sem desconfiar a breja em sinal de paz. Quando perguntaram se a menina não as acompanhava, Gabi, seguindo o roteiro, disse que sua religião não permitia beber. Nossas bullers estúpidas acreditaram e sorveram rapidamente o líquido amarelo, sem saber que ingeriam, misturado sutilmente a bebida alcoólica, nada mais nada menos que o mijo quente, fresco e acumulado, expelido a jato de nossos corpos por nossos pênis até a última gota.