sábado, março 18, 2017

O Bom Diabo

Lúcio era um sobrevivente. Esforçado, vendia de um tudo, hoje, a fim de pagar a janta de amanhã. Pau para toda obra, também trabalhava como motorista, eletricista, ambulante. Se precisar, até coveiro. Tinha amigos na Viera Souto, Delfim Moreira e era figurinha carimbada no submundo carioca.

Poucos gostavam de sua presença. Afinal, era um homem das ruas e carregava consigo a sujeira e o cheiro delas. O jeito malandro, a cara estourada e as histórias que contava - se reais ou de pescador, ninguém sabe ao certo – revelavam a podridão e a vida que existe dos dois lados do túnel Rebouças. Ninguém mais encarnava tão perfeitamente a máxima de Rubem Fonseca, “a cidade não é o que se vê do Pão de Açúcar”.

Lúcio andava mal vestido, mas embebido em perfume, no charme e na lábia. O velho fazia sucesso com as mulheres, mesmo com os dentes amarelados e a cabeça reluzente, sem um fio de cabelo, e queimada de sol. Também não era alto, mas os braços eram grossos, o tronco, duro, as pernas, duas toras de mangueira. Resultado de uma vida inteira carregando caixas e tranqueiras, correndo de lá para cá, e por aí vai. Não era homem de ficar parado.

Fora casado, mas a verdade é que seu único amor foi a mãe, dona Mirtes, de quem cuidou até os últimos dias. Depois da morte da velha, entrou para a igreja e jurou nunca mais infringir o Quinto Mandamento.

- No máximo, desovar. Sabe como é, Miguel, um homem como eu precisa sobreviver – disse. – O mundo não é nosso amigo, moleque. Lembra disso: o mundo não é teu amigo.

Estávamos em um pé sujo do centro da cidade, numa das vielas da Cinelândia, onde havíamos nos encontrado. Lúcio me pagou um cachorro quente e uma Coca-Cola.

- Se tu quiser uma cerveja não tem problema – afirmou ele.

- Prefiro refrigerante – respondi.

- Eu sei que você é chegado numa loira. Fazer cerimônia comigo até ofende.

Não contei do coquetel de remédios que corriam pela minha corrente sanguínea, há 24 horas, e já começavam a corroer meu estomago. Ninguém sabia. Enquanto lutava para me manter acordado e disfarçar a língua enrolada, falei sobre Leonardo e do quanto eu estava feliz com ele. 

- Quero conhecer o moleque. Dá um susto no cara, diz que se ele pensar em outro cuzinho, seu tio, que já foi até matador de aluguel, vai atrás dele – brincou o velho.

- Não vou falar isso – afirmei, escandalizado.

Lúcio riu de ficar sem ar. O rosto feio adquirindo a tonalidade de um tomate.

- Tu cai fácil na pilha – disse ele, retomando a calma.

Comentei sobre a sensação de solidão que me acompanhava aqueles dias. Da, pela primeira vez, incômoda impressão de ser diferente do resto do mundo e de estar sozinho para enfrentar o que vinha pela frente. Mais um, com a mesada contada e os dias cheios de ócio, alimentados por videogame e punhetas.

- Tu tá passando muito tempo em casa, moleque. – constatou Lúcio.

Tirou do bolso um cigarro. Acendeu e deixou no canto da mesa. Diante de meu olhar incrédulo, explicou.

- É pro santo.

- Mas você não é crente, Lúcio?

- Sou. Mas é bom agradar todo mundo.

Quando terminei de comer mais um cachorro quente, ele pediu a conta. Na rua, nos abraçamos em sinal de despedida. Senti os músculos duros e protetores ao meu redor.

- Garoto, para com esses medos que tu não tá sozinho, não – disse Lúcio antes de ir embora, na direção oposta.

Sabe-se lá para onde.

Sabe-se lá fazer o quê.

Ou quando retornaria.

Pela primeira vez, em semanas, me senti grato e contente.