segunda-feira, março 27, 2017

Valsa Para Corações Esquizofrênicos

A primeira vez que vi minha mãe chorar foi na morte de meu avô.  A segunda, quando meu pai contou que o tio Beto também havia nos deixado. Aos 13 eu pensava que só velhos com incontinência urinária não eram imortais. Guilherme também pensava assim.

Naquele dia, papai chegou como todos os dias em que nos visitava. Não parecia surpreso, tampouco, abatido, ao saber da morte do irmão. Talvez tivesse me dado um abraço mais demorado ou fosse só impressão.

Na sala, pediu para conversar a sós com mamãe. Dei meia volta, mas retornei correndo ao ouvi-la chorar. Meu pai, às vezes, se transformava em um animal agressivo. Mamãe estava recolhida no canto do sofá.

- Beto procurou por isso a vida toda – disse ele.

- O que aconteceu com o tio Beto? - perguntei.

- Ele morreu – respondeu meu pai, friamente.

Papai foi embora logo depois. Sentei ao lado  de mamãe e a abracei. Parecia o certo a se fazer. Ela agarrou-se a mim e senti as lágrimas molhando meus ombros, transpassando a camiseta. O choro, convulsionado, me deixou confuso e nervoso. Sem saber ao certo como agir. Quando relatavam a morte de alguém eu raramente sentia alguma coisa já que, na maioria das vezes, eram pessoas das quais eu já não tinha contato ou sequer lembrava. Foi o caso de meu avô.

- Você quer água? - perguntei.

Mamãe balançou a cabeça para os lados, negativamente. Em seguida, se recompôs. Perguntei como o tio Beto havia morrido. Assalto? Infarto? Andava doente? O diabetes subiu? O que desencadeou uma nova explosão de lágrimas. Comecei a me sentir impaciente e raivoso. Sem saber o que fazer, só queria que aquilo acabasse. Que a mulher que sempre amparava as minhas dores e angustias demonstrasse a solidez e a firmeza de sempre. Agisse como a âncora, o mastro do navio.

Tio Beto era um homem sisudo, sério, de poucos sorrisos. Nas reuniões de família seu nome era pouco citado e ele, também, raramente aparecia. Minha avó costumava falar que o caçula era de um temperamento terrível, como se fosse impossível amá-lo. No entanto, minha mãe sempre o apontava como uma das pessoas mais doces e divertidas que já conhecera. Minhas memórias de infância ligadas a ele são salpicadas de lembranças das nossas brincadeiras e brinquedos que ele mesmo construía.

 - Seu tio era um homem de poucos afetos, Felipe. – disse minha mãe, mais tarde, enquanto nós dois jantávamos. – Amava há poucos e demonstrava menos ainda.

Perguntei mais uma vez do que ele morrera. Novamente, o choro convulsionado apareceu. Ela ergueu o prato que mal beliscara e o depositou na pia da cozinha. Antes de seguir para o quarto, avisou:

- Amanhã é o enterro. Você vai.

- Eu tenho aula amanhã. – respondi, imediatamente, assustado.

- Seu tio gostava muito de você.

- Mas...

- Eu tô mandando, Felipe.

Enviei uma mensagem para Gui pelo WhatsApp. Ele ficou surpreso. Tia Rita não havia comentado nada sobre a morte do irmão. Deduzi que ele não fosse. Tio Beto era brigado com a família toda. Porra, eu ia ficar sozinho lá! Eu e o morto. Nunca desejei tanto a presença de Gui como naquele momento.

 A ideia de morte ainda era muito distante de mim, da gente. A bem da verdade, eu me tremia todo de imaginar um defunto por perto. Continuei trocando mensagens com Gui. Tentei não pensar na situação, porém, quanto mais eu evitava lembrar, mais ansioso eu ficava.

Não consegui pregar o olho a noite inteira.

                                                                       ***

Não tinha sido tiro, nem infarto, nem o diabetes. Ouvi fragmentos de conversas que traduziam comprimidos, overdose, remédio, depressão e só.

Também não entendi a razão do caixão fechado, mas achei melhor assim. Menos assustador. Sob a tampa de madeira, uma foto sorridente de Tio Beto clicada por um amigo da faculdade que estava ali, arrasado. Da família, só a minha mãe, o tio Rodolfo e meu pai, este que chegara há pouco. De resto, amigos, a viúva e a primeira esposa do falecido. Ambas inconsoláveis e abraçando-se. Alguns repórteres também apareceram por lá.

- Beto era famoso? - perguntei ao tio Rodolfo. 

- Era um figurão da engenharia – respondeu.

- E ele morreu como? - perguntei, receoso.

Tio Rodolfo me lançou um olhar prolongado e voltou para as suas orações. Colei nos meus pais.

- Olha aquelas duas. Difícil imaginar uma única pessoa capaz de amar meu irmão. Imagine duas mulheres – ironizou papai ao encarar as viúvas.

- Não fala assim, Renato. Betinho tinha problemas, mas era gente boa – ralhou mamãe. 

- Meu irmão foi um deprimido, um neurótico a vida inteira, Aninha. Ele procurou por isso. Cavou a própria cova – afirmou meu pai.

Às vezes meu pai era a pessoa mais detestável do mundo. De uma arrogância e egoísmo sem tamanho. 

Mamãe começou a se sentir mal e pedimos um Uber pelo aplicativo de celular. Também mandei mensagens para Gui sobre a solenidade. Meu primo me convidou para ir a casa dele. Não queria deixar minha mamãe naquele estado, mas não queria lidar com ela. Perguntei se podia dormir na cada da tia Rita, o que minha velha permitiu. Saímos do Cemitério São João Batista, em Botafogo, e o carro me deixou em Copacabana, antes de seguir para o Recreio, onde morávamos.

Tia Rita estava recolhida no quarto. O marido estava, como de costume, em algum pé sujo por ali. Eu e Gui poderíamos ficar mais a vontade. Nos abraçamos por mais tempo. Em seguida, encarei seu rosto andrógino,  feminino e senti uma fisgada abaixo do umbigo. No quarto, deitamos lado a lado e seminus em sua cama. O cubículo, anormalmente bagunçado, ostentava discos de David Bowie, Barão Vermelho à Beyonce e Lady Gaga, e livros do Caio Fernando Abreu. Caixas de som plugadas ao iPod embalavam uma canção de Liniker.

- Nosso tio se matou. Tenho certeza – declarou Gui.

- Tia Rita te contou?

- Não, mas é óbvio.

- Como você sabe?

- Se estavam falando de comprimidos, remédios, overdose não está na cara que o Beto enfiou um bando de pílulas goela abaixo e passou dessa para a melhor?

De repente pareceu que o suicídio era a única versão possível. A indignação de meu pai, a dor de minha mãe, somado ao caixão fechado e ao que ouvi durante o funeral revelavam o que tio Beto tinha feito em suas últimas horas de vida. A única pergunta que me fiz foi “por quê?”. Por qual razão alguém tiraria a própria vida? Aos 13, o mundo ainda era meu parque de diversões.

Olhei para Gui, mais velho, aos 16, já até se barbeava, tinha voz firme  de homem feito, mas continuava sendo magricela com as costelas sob a pele cobertas pelo início de uma pelugem. O abracei, atento ao silêncio no apartamento e temendo que alguém entrasse no quarto e nos flagrasse tão próximos e íntimos. Gui afagou os meus cabelos e me encarou.

Olhei fixamente para os olhos verdes a minha frente, como se perdido em uma floresta, sem volta.  Ele parecia já saber do que para mim ainda estava envolto num tênue véu branco, leitoso. Eu estava quase esquecendo tio Beto quando Gui voltou ao assunto.

- É melhor a gente fingir que não sabe de nada sobre o cara ter se matado – disse ele.

Seus dedos percorreram a minha nunca e desceram pela espinha. 

- Fica sendo o nosso segredo – murmurou.

Depositei a cabeça em seu peito. Ouvi seu coração acelerado e tive a sensação de que havia uma sinfonia dentro dele. O meu batia igual, como se estivéssemos compondo uma música que só nós éramos capazes de ouvir.

A canção cada vez mais alta -  uma valsa para corações esquizofrênicos - ecoando de dentro para a fora da gente, fez com que, aos poucos, eu me esquecesse de todo o mundo lá fora. Inclusive, minha mãe, meu pai, tio Beto e até mesmo a existência da morte.