sexta-feira, abril 28, 2017

A Praia

   Duda

Felipe entrou na viagem porque a gente precisava de um carro. Ele ainda parecia não ter entendido que Laura e eu não estávamos indo acampar em Sana e, sim, fugindo. 

Aquilo estava longe de ser um acampamento de férias.

O interesse dele por Laura ajudava, e ela usava essa informação a nosso favor. Embora, interiormente, me deixasse enojado. Em parte, porque Felipe era nada mais que um playboy, mimado e falocentrico. Em parte, por ciúme de Laura. Somos ex. namorados.

No dia que combinamos, Felipe nos buscou no apê dela, na Tijuca, pela manhã, no suntuoso Land Rover prateado comprado pelo papai. Abriu a porta do carro e nos ajudou a aguardar  os colchões e as pilhas de caixa com alimentos, remédios e produtos de higiene no porta malas e no banco traseiro do automóvel.

Em seguida, Laura se acomodou no banco do carona, enquanto ele dava partida. Animado, Felipe colocou a música No Feelings, do Sex Pistols, para tocar e aceleramos em direção onde pudéssemos pausar a angustiante e contínua sensação de seguir em frente sem propósito algum.

I got no feelings
A no feelings
A no feelings
For anybody else
Except myself, my beautiful selfish



                                                       Laura

A aula de teoria literária parecia exclusivamente ministrada para mim e Duda, os únicos que pareciam ter lido A Praia Cinzenta. No livro, o narrador, diante de tantas inquietações decide se atirar de um penhasco em Dublin, 8.000 metros em queda livre. Antes, com os pés no limite, prestes a se jogar, ele conta toda a sua vida num fluxo de consciência insano. Eu tinha simplesmente amado o enredo. Em anos cursando jornalismo, A Praia Cinzenta consistia no único livro que gostei de verdade desde o início da faculdade. Já Duda havia odiado, era um formalista. Um desses gênios cheios de referências, disputado tanto pelos professores técnicos, das redações, quanto acadêmicos, voltados ao magistério.

Rômulo, nosso professor, ordenou que redigíssemos uma resenha sobre o livro, em trio. Felipe logo colou na gente, o que deixou Duda visivelmente contrariado. Depois da aula, o boyzinho continuou conosco. Fomos fumar um baseado na praça, afastada do prédio da Unisal.

- E se a gente fugisse de tudo? - levantei a questão.

- Para onde? - perguntou Duda.

- Sei lá. Uma praia qualquer, num dia nublado.

- Você está sendo influenciada por aquele livro ruim – brincou Duda.

- Não é ruim só porque você não entendeu, Duda.

- Eu gostei – disse Felipe. – E topo a ideia de fugir. Eu não suporto isso aqui. O mundo é uma merda. 

- O mundo é muito cruel com você? - ironizou Duda.

- Não é com você? - devolveu Felipe, agressivamente.

- É diferente – respondeu Duda.

- Parem, garotos – ordenei.

- Tem mais de um garoto aqui? - caçoou Felipe.

Silêncio constrangedor.

- Cara, saí daqui, Felipe! – gritei.

- Eu...

- Vai embora.

- Laura...

- Vaza, cara!

Felipe jogou a mochila nos ombros e se afastou. Olhou para Duda como se arrependido do comentário, mas sem dizer nada, nos deixou. Duda estava paralisado. Era péssimo em se defender. Sentei ao seu lado e acariciei seu rosto bonito, másculo, com o indicador fiz um anel através da barba que começava a enrijecer e tomar forma. Não havia mais nada que lembrasse a antiga Duda, como ele era antes da terapia hormonal. Um ano depois, os músculos adquiriram o formato masculino e os seios eram escondidos por um colete especialmente desenvolvido para esta função.

Eu sabia como era difícil para ele, sem a aceitação e o carinho da família. No início da transição, ele se mudou para o meu apartamento e eu tentei adaptar o meu prazer ao que ele estava se tornando, mas o que a velha Duda me oferecia nenhum homem poderia substituir, nem mesmo a sua nova versão. Não era um problema dele. Eu gosto de chupar buceta. E logo depois, também, conheci a Drica e me apaixonei perdidamente por aquele jeito Cássia Eller, moleque de ser, sempre com um violão no braço e um cigarro pendurado na orelha. 

Onde será que ela está? Marcando presença em festas alternativas só para garotas no Facebook? Postando fotos com outras no Instagram?

- E se a gente fugisse de tudo? - Duda perguntou olhando fixamente em meus olhos.


                              Felipe

Paramos num restaurante na beira da estrada para conferir o mapa. O GPS do carro e dos celulares havia parado de funcionar e estávamos rodando, perdidos, há horas.

Laura, a minha frente, se erguia sob o papel que informava as rotas que devíamos pegar. Tentava explicar alguma coisa, mas eu não conseguia desviar o olhar dos peitos dela. Sem sutiã, os biquinhos cor-de-rosa me hipnotizavam. Quando ela ergueu os olhos e percebeu para onde os meus se dirigiam, voltou a se sentar na cadeira e ajeitou a camiseta. Não sei se estava constrangida. Para mim, havia gostado de ser vista. 

Rolava um boato na Unisal que ela e Duda haviam namorado. Mas para mim, aquilo nunca seria homem de verdade. Peguei o mapa e o analisei. Debatemos sobre quais caminhos seguir, até que ela se levantou para comprar alguma coisa na farmácia improvisada ao lado.

Olhei para Duda. Na faculdade, todo mundo sabia que ela era uma mulher se transformando em homem. Os traços, andróginos, e o jeito, cabisbaixo, talvez o fizessem semelhante a um desses veados alternas, mas nada indicava que havia uma xoxota entre suas pernas. Tentei imaginar. Me senti estranho e decidi me concentrar no mapa às minhas mãos.

- Desculpe pelo o que eu falei na facul, cara –  disse.

- Sem problema – respondeu Duda.

- Sabe, eu não sou preconceituoso.

- Ninguém admite que é.

- Eu tô tentando melhorar o ambiente, cara. Afinal, estamos na mesma trip.

- Tem certeza que estamos na mesma?

-Sim.

- Eu e Laura estamos fugindo. E você, seu playboyzinho? Do que você tá fugindo? Das multas de trânsito que seu papai vai pagar? – disse Duda - Você é a porra de um filho de papai inútil e fracassado. Sabemos a razão de você querer estar aqui que é comer a Laura, mas eu não vou deixá-la cair na armadilha de um babaquinha de camisa polo e sapatênis.

Voei em cima de Duda como se fosse Bruce Lee. 

O que ele sabia da minha vida? O filho da puta conseguiu desviar do primeiro soco. Em seguida, veio Laura me segurando por trás. Outra pessoa agarrou Duda e nos afastou. Eu o xinguei de veado, bichinha, aberração, mulher macho, sapatão. Do que ele entendia? Por que ele ou qualquer um era melhor do que eu? Eu não tinha o direito de viver a minha própria vida? Alguém sabe a pressão de seguir o roteiro que gerações da sua família já traçaram para você? Eu também quero fugir. Também quero ser eu mesmo. Não quero ser o meu pai, ou o pai dele, ou o pai do pai dele. Não quero ser mais um. Eu só quero ser eu mesmo. Eu odeio engenharia. Por que eu tô chorando? Não, meu pai não sabe que eu mudei de curso. Eu sou mimado? Por que vocês estão rindo? Por que vocês se acham melhores do que eu? Eu mereço ser eu também. Tô cansado de tudo isso. Calma o caralho! Não consigo respirar. Não to conseguindo respirar. Sai daqui, seu merda. Não encosta em mim. O ar... O ar... Eu vou deixar vocês aqui! Se virem. Eu não sou o playboyzinho reclamando de privilégios? Se virem, seus comunistas. Vocês não entendem que eu também quero fugir?
           

                                 Duda

Felipe surtou no restaurante. Tentou me agredir e tudo. Tivemos que arcar com os prejuízos de copos, pratos, cadeiras quebradas do estabelecimento. E ainda, subornar uns policiais que queriam levar a gente para a DP. Felipe desmaiou do nada, o que no deixou muito preocupados. Eu e Laura o colocamos deitado nos bancos traseiro. Ele é pesado para diabo. Estou aqui com a cabeça dele no meu colo, espremidos entre caixas. Uma situação estranha.

Achamos melhor alguém ficar aqui com ele caso o cara acordasse agitado. A ideia foi de Laura. Sei que o surto de Felipe a assustou. Ela é muito sensível a essas coisas. Ela cresceu assistindo o pai agredindo a mãe. Assistiu os abusos físicos e psicológicos e as chantagens financeiras. Ninguém naquela casa a protegeu do que acontecia. Por isso Laura trabalhou desde cedo para meter o pé de casa.

A gente tava junto quando ela soube da morte do pai. Nunca sentiu remorso por isso. Sentia culpa da mãe ter se prendido a um casamento abusivo por sua causa. Sempre sofri por ser invisível entre os meus parentes. Escondido, principalmente, atrás de um corpo que não me traduz, mas aprendi desde certo que as vantagens de ser invisível é que as pessoas não escondem o que realmente pensam e, logo, é fácil aprender como elas são de verdade, inclusive, nos detalhes que elas escondem dos outros. Mas, jamais trocaria a minha capa da invisibilidade pela superexposição de Duda e toda culpa que ela sente pelos abusos da mãe.

Ela permanece calada enquanto a paisagem lá fora, através do vidro, passa feito um borrão. Felipe continua dormindo no meu colo. Parece ingênuo e inofensivo.


                                      Laura

A tensão no ambiente, alimentada pelo silêncio, estava me deixando cada vez mais nervosa. Liguei numa rádio qualquer que tocava Tempo Perdido, da Legião Urbana. A voz grave e compreensiva de Renato Russo me ajudou a relaxar e concentrar na estrada.

Três horas depois, com paradas somente para fazer xixi e fumar um, chegamos à praia. Num dia tipicamente carioca, quente e ensolarado, de nada a praia se assemelharia ao local descrito pelo escritor irlandês de A Praia Cinzenta que me guiou até aqui Em razão disto, escolhemos um final de semana nublado e chuvoso. Felipe ainda estava dormindo quando chegamos.

Duda e eu sentamos na areia úmida, tiramos os tênis e sentimos a água do mar molhar nossos pés causando a sensação de mil agulhas entrando em nossos dedos. Sorrimos um para o outro, leves. Ele passou a mão pelo minha cintura e enterrei o rosto em seu pescoço. Uma lágrima, que rapidamente se transformou em correnteza, desceu pelas minhas bochechas. Decidi não contar que a Drica tinha tirado as coisas de casa, levado as roupas e os livros. E lá estava eu, sozinha de novo, vazia novamente, tendo que reconstruir uma vida entre os intervalos da faculdade, no caminho até o estágio, sem transparecer o quanto eu queria me jogar, mergulhar até desaparecer, sem me preocupar com as contas para pagar, com os remédios da minha mãe, com as fotos que a Drica anda postando com garotas misteriosas.

Drica...

Afastei todo o fluxo de pensamentos que me bombardeava e abracei os meus joelhos. Respirei fundo aquele ar asséptico e frio. Sorri para Duda. Talvez ele estivesse pensando o mesmo, que havíamos chegado num local onde toda a realidade parece suspensa e podemos não nos preocupar em sermos devorados pelo tempo. Sem controle de nada. Distantes. Porém, próximos de nós mesmos.

Compartilhando o som das ondas e do vento. Felipe apareceu, em seguida. Sentou ao lado de Duda. Tocou seu ombro e os dois sorriram. Não era preciso dizer nada. Macular aquele ambiente calmo e bucólico com desentendimentos de horas atrás soava como um pecado irreparável. Pior, era como poluir o local com a língua falsa e suja dos homens.

Em silêncio, sorrimos um para o outro. Lado a lado, para nos aquecer, continuamos a admirar a praia cinzenta que se desdobrava em ondas cor de chumbo sob nossos pés. Era como se tivéssemos todo tempo do mundo.