quinta-feira, maio 25, 2017

O lado do paraíso

Naquela manhã, Cecília acordou sentindo-se revigorada. Há tempos uma noite de sono não lhe proporcionava tamanha energia.  Ainda na cama voltou-se para Johnny ao seu lado. Desejou o namorado como há semanas não o desejava – não que o romance houvesse esfriado. A vida só andava atribulada demais. Deslizou o corpo entre as pernas do homem, esgueirando-se nas curvas do edredom.

Após o ato, ela vestiu o roupão, abriu as cortinas do quarto e dirigiu-se à cozinha, onde preparou o desjejum. Carregava na sutileza dos movimentos a harmonia e serenidade. De ombros erguidos portava-se como se fosse a abelha-rainha, o útero da casa. Apalpou o paletó que Johnny costumava usar durante a semana, na universidade onde ministrava teoria literária, para checar se a veste finalmente secara. Em seguida, separou as cuecas do filho, fruto do primeiro casamento.

O namorado apareceu em seguida. Ele distribuiu as xícaras e pratos pela mesa da sala, ao passo que ela depositou as travessas de torrada e frios, além da cafeteira. Das caixas de som de um velho home theatre, Milestone, de Miles Davis, ecoava pelo apartamento e embalava a primeira refeição do dia.

O cheiro de café da manhã atraiu Igor, que deixou o quarto acompanhado da namorada. O adolescente era todo hormônio, naquela fase em que os primeiros traços da maturidade são esboçados no rosto ainda infantil. Auto confiante ao ser um dos primeiros de sua turma iniciados nos jogos sexuais, o adolescente garoteou um cumprimento com o padrasto, roubou uma fatia de pão e logo voltou ao quarto com a jovem.

Ao concluírem o desjejum, Cecília recostou-se sob a cadeira e acendeu um cigarro, encarando carinhosamente a gata que desfilava, languidamente, no parapeito da janela, sob a neblina leitosa que engolia os prédios ao redor.  Ao seu lado, Johnny saboreava o último gole de café imerso na leitura do jornal. Em tom professoral, ele comentava sobre o governo golpista, a crise, a Lava Jato e o que dizia aos alunos quando questionado sobre o quadro político do país.

Cecília aproximou-se e o beijou ao som de Take a Five, enquanto a fumaça do câncer encaixado entre o indicador e o dedo médio dançava pelo ar ao som do piano de David Brubeck.