quinta-feira, junho 29, 2017

A filha desleal

Bóris entrou no elevador e foi como se todo cubículo espelhado houvesse ficado ainda menor. O ar tornou-se rarefeito e pesado, empesteado pelo cheiro daquele homem. Pressionei o meu corpo fortemente contra a parede de vidro, na tentativa de me manter o mais distante dele.

Pelo reflexo que revestia todo local reparei na cor escura da pele de Bóris, o mesmo tom da minha, bem como, em sua estrutura óssea angulosa, assim como eu também possuía. Ele ainda era mais alto, mas eu não ficava muito atrás. Subitamente um pensamento me veio: e se este homem fosse meu verdadeiro pai?

- Você está passando bem, menina? - perguntou o vizinho.

Ele sorria exibindo os dentes perfeitamente brancos e alinhados, cuidados por minha mãe. As imagens dos caminhos que a pouco vi percorridos por aquela boca me invadiram. Corri para fora do elevador como se fugindo delas. Estava completamente enojada.

Com dificuldade abri a fechadura de casa. Vomitei na pia do banheiro, sem tempo de alcançar a privada. Em seguida, deitei nos azulejos gelados do assoalho até conseguir retomar a calma. E se sou o produto de uma mentira, o fruto de uma traição, um caso extra conjugal? Pensei no homem que acreditei ser meu pai a vida toda e senti pena dele, tão apaixonado e devotado aquela mulher. Com certeza não sabia de nada.

            ***
Naquela noite não jantei com meus pais, tampouco no outro dia. Mais tarde, meu pai – ou o homem que acreditei a vida toda ser– apareceu em meu quarto. Carinhosamente, tentou conversar. Perguntou se eu estava doente. Me afagou em seus braços peludos. Percebi o quanto contrastávamos: ele, branco, eu, escura. Ele, gordo, eu, tão esguia. Seus traços remontavam a uma ancestralidade que em nada eu me identificava.

Enquanto isso eu fugia de minha mãe. Nem me dava ao trabalho de responder suas mensagens. Comecei a odiá-la. Tinha raiva do que ela havia me transformado, do que fazia com o pobre homem que a amava, de não ter, naquele dia, fechado a porta do consultório odontológico em que trabalhava, e desde que clinicara ali, ter me dado uma cópia da chave por precaução e por não ter atendido o celular quando eu liguei avisando que ia visitá-la. Eu a odiava pelo que me obrigou a ver. Fui tomada por ódio e asco daquela mulher. Incapaz de reconhecer qualquer gesto sincero de bondade e preocupação. Eu também me sentia traída. Eu queria expô-la, constrangê-la, xingá-la de vagabunda, vadia.

No terceiro dia, jantei com ela e Mario. Fixei o olhar em meu prato como se a tarefa de comer demandasse uma grande concentração. Às vezes erguia os olhos e via a mão daquela mulher a acariciar o marido, ofertar-lhe um sorriso, beijá-lo e ele, tão devoto, tão idiota, demonstrava o quanto a amava desde a forma de servi-la até corresponder às carícias. Fuzilei os dois com o meu olhar. Todo ódio que sentia por ela começava a contaminar Mario. Como alguém poderia ser tão cego, tão burro? A esposa estava dando para o vizinho debaixo do seu nariz, há anos, e o corno não desconfiava de nada. O casal de amantes, inclusive, o fizera assumir a paternidade de uma criatura que talvez não pertencesse a ele.

Resolvi provocar. Soltar um pouco do veneno que estava me corroendo, ou quem sabe, só herdei dos meus pais verdadeiros.

- Luciana, há quanto tempo o Bóris é seu cliente? - perguntei, maliciosamente.

- Não chama mais sua mãe de mãe, Valentina? - intrometeu-se Mario.

A mulher tocou a mão do companheiro e me encarou numa falsa candura.

- Desde que nos mudamos para esse prédio, uns vinte anos. Um dia ele bateu aqui desesperado por causa de uma cárie. Por quê, filha?

Não respondi e a encarei seriamente na tentativa de fazê-la entender o meu olhar, reconhecer que eu sabia da sua infidelidade, mas Luciana o sustentou cínica e bravamente. Levantei da mesa, levei o prato para a cozinha e me enclausurei no quarto.

Comecei a espionar a rotina de Bóris na tentativa de encontrar mais semelhanças entre nós. Descobri por Raimundo, o porteiro, que nosso vizinho era contador, no que depositei mais semelhanças entre a gente: a aptidão para os números. Remexi o lixo, vasculhei as redes sociais. Comparava nossos rostos e gostos e cada dia eu me convencia mais de que era o maldito fruto da relação entre ele e minha mãe.

Decidi estragar seus encontros no consultório que ocorriam duas vezes na semana, de acordo com a agenda dela. Na primeira vez, inventei que estava passando mal e que ela precisava me levar ao médico. Mario estava aplicando provas na universidade em que era professor de teoria literária e, segundo a minha mentira, não queria incomoda-lo. Na segunda vez, surgi de repente no local de trabalho da minha mãe. Bóris não apareceu.

Eu também o odiava. Não tanto quanto minha mãe, mas não suportava. Ele e a mulher haviam me transmitido a sua doença. Aliás, eu era o resultado dela. Além disso, um inocente estava sendo enganado. Mario, um pai tão afetuoso e bondoso. Um marido tão apaixonado e dedicado. Quem dera que ele fosse meu pai de verdade. Às vezes, entrava em casa decidida a contar tudo e esperava que ele matasse Luciana e o amante. Quiçá a espancasse, a punisse. Mas, no fundo, temia que ele fizesse algo contra si mesmo. 

Em casa as brigas com a mulher eram frequentes. Um dia não aguentei e a chamei de puta, saboreando cada letra, p-u-t-a, as vogais e consoantes, agridoces, estalavam prazerosamente na minha boca. Mario não só a defendeu, como desferiu uma bofetada em meu rosto. Fiquei em choque. Quase vomitei na mesma hora todas as verdades que eu sabia; que ele era um corno, um chifrudo e sustentava uma mulher infiel e a filha ilegítima. Que era um gordo sedentário e não à toa era traído debaixo de seu nariz, também com aquela barba nojenta de comunista e a barriga de Papai Noel ele nem deveria mais saber como trepar. Como ele ousava ficar contra mim que o protegia? No entanto, me contentei em correr para o meu quarto e chorar. Chorei a noite inteira. Chorei até o dia raiar. Chorei até ficar seca e sentir mais nada dentro de mim, nenhuma gota d’água, um fragmento de sentimento qualquer.
         ***

No dia seguinte, após Mario e Luciana saírem para o trabalho, fiz que ia para a escola. Tomei banho, vesti o uniforme e coloquei a mochila nas costas. Subi três andares de escada e pousei o dedo sob a campainha de Bóris. Respirei fundo enquanto ouvia a movimentação do outro lado da porta. Ele atendeu vestido somente de cueca. A expressão sonolenta e irritadiça revelou que ele não havia gostado nada de sair da cama.

- Preciso falar com você, é importante – declarei, enfaticamente.

 Meu coração batia apressado.  Eu estava decidida a revelar o que sabia a partir do dia em que entrei no consultório de minha mãe e vi aquele homem dentro dela. Na porta de Bóris, fingi checar as horas no celular e disquei para Mario. Pelo horário, devia estar no intervalo de suas aulas. Coloquei no viva voz ao ouvi-lo atender e escondi o aparelho no bolso do casaco, rezando, interiormente, para que ele não desligasse. 

Entrei no apartamento do amante de minha mãe decidida a contar toda a verdade.