domingo, junho 04, 2017

Girassol

Na noite em que o meu mundo desmoronou de forma irreversível, Alice desviou de sua rota habitual para me encontrar. Quando seus cabelos flamejantes surgiram da saída do metrô, caminhei em direção a mulher de pouco mais de um metro e meio feito um menino desamparado. Na curta duração de um abraço, seu corpo pequeno, miúdo, preencheu todo o meu vazio.

Caminhamos até uma cafeteria próxima da estação, onde ela me pagou um café. Desde o primeiro gole a bebida maltratou meu estômago que havia acordado irritado. No entanto, sorvi saborosamente a fim de sentir todo calor da infusão em meu sangue. Eu queria me sentir vivo.

A bem da verdade, aquela era uma das poucas pessoas do meu círculo social com quem eu conseguia me sentir plenamente a vontade. Não que a nossa relação fosse isenta de conflitos. Às vezes um breve curto circuito nos afastava por dias, semanas, porém, sempre voltávamos um para o outro. Alice, inclusive, esteve ao meu lado quando recebi a minha primeira carta de demissão, bem como, meses depois, celebramos juntos  a conquista de um novo emprego. Eu a considerava uma irmã mais nova, embora, muitas vezes, sua sabedoria fosse capaz de inverter estes nossos papeis. 

Do outro lado da mesa, Alice me ouviu pacientemente, como de costume. Seus olhos perspicazes me fitavam, atentamente, através dos óculos de lentes longas e hastes finas. Após o desabafo, ela ponderou  o meu relato e ofereceu possibilidades sobre o futuro e um horizonte de paz. Analisamos de forma racional todos os últimos acontecimentos que me fizeram procurá-la tão transtornado. Cercados pelo aroma de café, ela me legou o questionamento de pitonesa*.

- Gregório, não vale a pena abrir mão de tudo agora para ter um pouco de paz no futuro?

No final da noite, caminhamos novamente até a estação de metrô. Também conversamos trivialidades, banalidades cotidianas. Na plataforma, antes que seus cabelos de girassol desaparecessem completamente do meu campo de visão, levados pela escada rolante, gritei:

- Eu te amo.

- Eu te amo, chato – ela devolveu, docemente. 

Naquela noite, Alice acalentou o meu coração revolto, irado, inquieto e traído.

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Pitonesa: como eram chamadas as sacerdotisas do deus Apolo em Delfos.