terça-feira, junho 27, 2017

Maria, o menino e o mar

No deque do navio apinhado de gente saudando quem ficava em terra, dona Maria ergueu a mão esquerda e acenou para Betinho. Ao lado do rapaz cafuzo, com roupa de branco - terno de linho, colete e gravata - a espanhola, com a qual ele se casara, e a menina dos dois, completavam o pequeno cortejo.

Em sua outra mão, a passageira portava fotos já desgastadas do vilarejo de Enjeitado, sua terra natal.  Pequena e magra, a mulher saiu do reino dos pequizeiros ainda moleca para ganhar o mundo. Agora retornava a fim de descansar as canelas magérrimas estendidas na rede, debaixo do pé de manga, com os muitos sobrinhos a escutar suas histórias do sul. No peito ia ficar a saudade do filho, doutor José Roberto, seu Betinho.  

                                                                   
1. 

HÁ UMA VIDA, quando aportou no Rio de Janeiro, a retirante logo se ajeitou em casa de família, no Cosme Velho. Anos depois se ajuntou com um malandro sedutor. Alto, esguio, banhado em perfume, mas ele foi embora assim que lhe fez um filho. A mulher nem se incomodou com o desaparecimento do caboclo. Sonhava em ser mãe.

O menino nasceu pequeno, mas cresceu forte e saudável. Na infância não era fácil. Betinho apresentava rompantes de fúria e grandeza, a mãe vivia atrás dele com o chinelo. Arteiro, o moleque se escondia na biblioteca do doutor Inácio, entre livros, estetoscópios e balanças. No tempo livre corria na rua, pregava peças nos professores. Apanhava num dia e no outro retornava às travessuras. Mas nos jantares no casarão do Cosme Velho e nas quermesses da igreja de São Judas Tadeus, próxima dali, o menino sofria de uma timidez inimaginável. Vermelho, escondia-se num canto temendo quem se aproximava feito um pagão.

- Seu padre, no mundo esse menino é a peste, pinta o sete, aqui age feito bicho do mato, vai entender – justificava a mãe.


2.

QUANDO A EMBARCAÇÃO deixou o porto e a família tornou-se um ponto indistinguível, dona Maria afastou-se da amurada e andou pelo deque. Tinha estado ao lado de damas de vestidos e cavalheiros de cartola a vida inteira, mas nunca lhe fora permitido sentir-se como um deles. Agora poderia, tinha até filho doutor. Caminhou pelo local de cabeça erguida, sem ligar para as madames que a olhavam com  suspeita, enrolando a língua num francês tupinambá.

Dona Maria espantou-se quando Betinho decidiu ser médico. Nem lavando as ceroulas de toda capital conseguiria pagar os estudos do filho. A educação foi presente de doutor Inácio que mandou Betinho, a quem tinha como um filho, para Portugal. Incapaz de aguentar o jorro vermelho das hemorragias, o menino buscou a cura pela fala, uma tal de psicanálise. Voltou deslumbrado com a Europa, dado a arroubos de paixão como um Florentino Ariza. Se deitava com Yara hoje, no dia seguinte, chorava por Aninha. Declarava seu amor a Amélia e dormia com Isabel.

Dona Alzira, esposa de Inácio, já não o queria em casa. Dizia a portuguesa de busto largo e bigode farto, a bater as tamancas no chão de madeira do casarão atrás do marido:

- Esse negro é má influência, perigoso para nossos putinhos. Um dia há de acontecer uma tragédia – dizia a velha com carregado sotaque lusitano.

Diante das reclamações e agouros de sua senhora, o doutor emprestou a Betinho um quarto na Lapa, onde o jovem montou seu primeiro consultório. Entre seus clientes estava, dizem, Machado de Assis.

Dona Maria visitava o filho todo dia com um bolo a tiracolo. O cobria de sermões e recomendações como fazem todas as mães. Conferia o estado de suas roupas e a higiene. Remendava as calças do rapaz, enfiava jornal nos buracos dos sapatos e não deixava o imóvel sem presenteá-lo com um vintém sequer.

- Doutor não pode andar amassado assim – ralhava a mãe. - Parece que sua roupa andou dentro da boca de um boi. Sabe do que você precisa, menino? De uma mulher.


3.

NUMA PRIMAVERA, BETINHO percebeu que durante as sessões de psicanálise uma voz operística invadia a sala e distraia seus pacientes no auge das fúrias e paixões catárticas das livres associações. A espanhola ensaiava logo abaixo de seu apartamento entoando Bizet a plenos pulmões, em um perfeito castelhano. 

Uma tarde, após fechar o consultório, bateu à porta da estrangeira. Logo Betinho foi imediatamente enfeitiçado pelo farfalhar das saias que dançavam pelo tornozelo farto, de uma brancura cintilante. Manoela o atendeu com ternura, mirando-o com seus olhos de cigana, duas enormes esferas castanhas que pareciam centralizá-lo no mundo. Ela o recebeu aquela noite, bem como todas as outras e dançou para ele como jamais ousou para outro homem.

Ao saber do romance do filho, dona Maria tornou-se ainda mais criteriosa. Costurava as ceroulas do rapaz, ralhava com ele para que fosse mais dedicado a aparência, ajeitasse os dentes com seu Raimundo, não se esquecesse de aparar a barba e banhar-se com frequência. Para ela, Betinho passava da hora de casar.  A cerimônia não demorou a ser realizada. A neta nasceu nove meses depois. Betinho, Manoela e a criança se mudaram para uma casa em Botafogo. No entanto, contrariando o filho único, dona Maria se recusava a largar o trabalho no Cosme Velho.

- Tenho dinheiro suficiente para nós, mamãe – pedia ele. - Venha morar com a gente. Vai ser bom a minha filha crescer com ao lado da avó. Além disso, Manoela poderá aprender muito com a senhora sobre o lar e a maternidade.

- Eu não quero ir de um canto para o outro, Betinho, quero sair daqui para a minha terra.

O filho dissertava, enumerava motivos para a mãe mudar-se, mas Dona Maria fingia não ouvi-lo e tomava a netinha nos braços, completamente encantada pela garota. 

Após o quinto aniversário da menininha, a matriarca, já com todos os cabelos brancos numa longa trança e a pele semelhante a um pergaminho de histórias, comunicou.

- Vou embora para o meu sertão.

Betinho, que ficara ainda mais bonito com a idade ostentando a cabeleira grisalha, deu um salto. Pediu para que a mãe passasse um tempo com a família, mas dona Maria foi irredutível, queria morrer na sua terra.

- Não seja dramática, mamãe, a senhora ainda há de viver muito. Quem sabe até mais que eu – afirmava ele.

- Quem está sendo dramático é você. Tome tento, onde já se viu, homem feito, pai de família querer viver no mesmo teto que a mãe? – advertia dona Maria.


4.

NO DIA DA PARTIDA de dona Maria, ela, acompanhada do filho, da nora e da neta, cruzou  o porto da cidade, naquela época do ano, devido aos festejos de São João, decorado com bandeirolas de festa de junina por todo canto. A senhora de uma magreza miserável trazia consigo uma única mala.

Dona Maria, forte, prendeu o choro na garganta. Abraçou Manoela, a neta e, por último, Betinho. Este que limpava os olhos mareados com um lenço. A mãe o presenteou com um abraço mais longo do que de costume, pois nunca fora mulher de demonstrar grandes afetos. Ele, por sua vez, agarrou-se a ela, molhando o pescoço magro como fazia quando era pequeno e o mundo se agigantava.

No navio, munida das fotografias de um Enjeitado em preto e branco, já desgastadas pelo tempo, dona Maria acenou para os três. Estes em terra firma. Em seguida, caminhou até encontrar uma espreguiçadeira. Antes de deitar-se, um funcionário a serviço do barco alertou:

- Todos os passageiros tem de pagar uma tarifa se quiserem utilizar as espreguiçadeiras. Mediante o preço, podem usar a vontade durante toda a travessia.

Dona Maria retirou uma moeda da bolsa. Havia trabalhado a vida toda, poderia se dar aquele pequeno luxo. Pagou e esticou as canelas magérrimas, sentindo o movimento do navio singrando o mar e o cheiro do vento carregado de sal.

O embalo das águas lhe trouxe um sono inexorável a pesar-lhe as pálpebras. Fechou os olhos sem ligar para o frio. Em seus sonhos, Betinho a visitava no Enjeitado e dançava com ela entre as bandeirolas de São João, presas nas mangueiras e pequizeiros. As crianças ao redor, que poderiam ser os sobrinhos que há tempos não encontrava, os rodeava. Antes do fim da música, Betinho depositou nos cabelos brancos da mãe uma coroa de flores. Ela o abraçava mais uma vez. Encostada no ombro do filho, Dona Maria percebeu nele o perfume da flor de cravo.