quinta-feira, junho 29, 2017

Um corpo em Copacabana

Na calçada em frente à Galeria Menescal, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, Sônia fumou um cigarro, depois, outro. Logo, o último maço foi consumido enquanto a senhora observava os automóveis que percorriam o bairro. Aquela era uma via de tráfego intenso, nunca parava. Sônia caminhou até a beira da rua, desceu o meio fio, colocou um pé no asfalto. O sinal estava aberto quando o ônibus a atingiu. A bolsa e os sapatos voaram para longe. O corpo da velha foi lançado pelo coletivo. Já estava morta antes de atingir o chão. Uma multidão de curiosos que passava pelo bairro se reuniu no local.  


Dois dias antes, o diagnóstico, ao consultar o médico, lhe trouxe dois sentimentos: medo e alívio. Medo porque estava morrendo e a descoberta da morte sempre assusta. Alívio porque já lhe fora roubado todos os prazeres da vida, envelhecia sozinha entre memórias e quinquilharias. O doutor ofereceu opções de tratamento, mas não a iludiu: estava com os dias contados. Ela, sem fraquejar, de cabeça erguida, prometeu voltar na semana seguinte.

Ao chegar em casa, no suntuoso apartamento no edifício Chopin, em frente a praia de Copacabana, sentiu uma repentina vertigem. Quase não reconheceu a sala repleta de tapetes, os sofás antiquados para a época, as estatuas, quadros e fotografias espalhados pelo cômodo.  Germana! Germana! Germana!, gritou. Mas Germana havia ido embora anos atrás. Outra mulher vestida no mesmo uniforme da alemã apareceu.

- Dona Sônia, a senhora está bem? - perguntou a empregada.

Dandara ajudou a patroa a sentar-se na sala de estar. Ofereceu um copo d’água, sendo repelida com um gesto grosseiro. A doméstica voltou com uma dose de conhaque, encontrando uma recepção melhor.

Recomposta, Sônia caminhou até o quarto. O som dos sapatos ecoava pela casa vazia, povoada somente pelas suas lembranças, fantasmas. Os filhos viviam suas vidas, os netos, quase não os via. Zé, o ex. marido, estava nas Bahamas com a nova namorada, uma garota que ostentava 1/3 de sua idade.

O que aconteceria se dissesse aos filhos que estava morrendo? A casa se encheria de vida, eles a cortejariam, diariamente, ao pé da cama cumprindo cada um de seus mimos? Zé perceberia que estava perdendo o amor de sua vida e voltaria? Os netos se mudariam para o apartamento, a fim de gozar os últimos dias com a matriarca?

E o bastardinho? A perdoaria pelo que fizera no passado?

Sônia encarou-se no espelho. Ao se despir, imaginou os tumores espalhados, o pulmão tomado e os ossos infiltrados. Acendeu um cigarro. De que adiantava abandonar o vício agora? Tragou observando o reflexo na penteadeira. Em breve, mais um fantasma.

Ligou para o primogênito. A doméstica avisou que Ricardo estava de férias na Disney com Cecília e as crianças. Já Daniela foi doce e cordial, como de costume, prometeu visitá-la com os netos na próxima semana. O que certamente desmarcaria em cima da hora. Sônia, desiludida, não comprava mais os sanduíches e refrigerantes para receber os fantasmas que só anunciavam a sua chegada, mas nunca apareciam. Evitava falar com Zé desde a separação.

Morreria sozinha e a consciência da solidão arrancou um choro convulsionado das profundezas de seu âmago. Talvez, percebeu, já não vivesse, fosse somente um corpo que respira e se ocupa de outras funções básicas. Porém, indesejadas. Queria morrer.

Fumou mais um cigarro, bebeu outra dose de conhaque. Pensou em dar um teco, mas ao invés disso engoliu dois comprimidos de Rivotril. Seus sonhos foram povoados pelo bastardo. No dia seguinte acordou decidida a encontrá-lo.

***
Foi Zé quem trouxe o bastardo para casa. Já era madrugada quando o menino apareceu, assustado, segurando a mão do, então, marido de Sônia.

O garoto não possuía mais que dez anos de idade. A mesma idade de Daniela, dois ou três a menos que  Ricardo. Numa fúria de Hera desvairada, ensandecida feito Medeia, Sônia atirou vasos em direção ao companheiro infiel. Zé mandou o novo morador aos cuidados de Germana e sacudiu Sônia para tirá-la daquela histeria.

O bastardo dividia o quarto com Ricardo. No mesmo ano, foi matriculado no Santo Inácio. Os dois eram unha e carne, melhores amigos. Na adolescência, passaram a frequentar as mesmas festas e a curtir as mesmas garotas. O hobby preferido dos irmãos continuou o mesmo, implicar com Daniela.

A bem da verdade Sônia até tentou amá-lo, mas tudo no garoto a lembrava da traição. A pele negra em contraste com a brancura dela e de seus filhos, os cabeços ouriçados que nada tinham em comum com as longas madeixas estendidas que Ricardo e Daniela herdaram. Via o nariz largo e os lábios grossos do bastardo como uma afronta ao refinamento que seus genes legaram do velho mundo. Paradoxalmente, as semelhanças entre pai e filho a incomodavam muito mais. Se reclamava de alguma predileção, ouvia do esposo: um é tão meu filho quanto o outro.

A convivência com o bastardo a angustiava. Começava a acreditar que ele eclipsava os próprios filhos, os legítimos. Precisava fazer alguma coisa. Tentou acusar o enteado de roubo, mas a tramoia não deu certo, Germana levou a culpa, foi demitida. Um dia, ao buscar Daniela na escola, enquanto a menina cruzava o portão e dava a volta no carro, Sônia admirou os peitinhos da filha. Em breve seria uma mulher linda, se já não o era. A mãe pensou algo irreversível, definitivo, que ninguém pudesse encontrar outro culpado.

***
Sônia contratou um detetive para encontrar o bastardo. Com as redes sociais não foi difícil identificá-lo.

Durante todos aqueles anos pensou tê-lo desgraçado. Até a proximidade da morte não sentia culpa ou remorso. Anteriormente, se pegava pensando nele. Será que virou bandido? Está na cadeia? Virou mendigo? A senhora se surpreendeu quando o detetive lhe forneceu um endereço na rua barata ribeiro.

Sônia caminhou por Copacabana até chegar a Galeria Menescal. Reduziu o passo ao aproximar-se do número fornecido pelo investigador. Parou em frente a uma estreita vitrine de livros usados. Adentrou o local. Um rapaz estava do outro lado do balcão.

- Você é o Leonardo? - perguntou Sônia, cordialmente.

- Não. Sou filho dele – disse o balconista. – Quer falar com meu pai?

- Ele está aqui?

- No estoque. Só um minuto que vou chamá-lo. Qual é o nome da senhora?

- Daniela – mentiu.

O rapaz entrou por uma porta. Pouco depois, voltou acompanhado de Leonardo. Os traços grosseiros sustentavam os óculos de grau de lentes grossas e aro de tartaruga, já os cabelos ouriçados em Black Power foram substituídos por uma reluzente careca.

***
Sônia e Leonardo sentaram-se um em frente ao outro em um café ao lado do sebo. Ela sentiu emanar do olhar do bastardo rancores acumulados. A velha falou da ausência dos filhos, da separação de Zé e, finalmente, contou sobre as dores, as suspeitas, os exames e o diagnóstico: estava morrendo. O olhar de Leonardo não se abrandou, tampouco o rapaz mostrou-se condescendente.

- Eu quero pedir perdão – disse Sônia. – Você perdoa essa velha?

- Não – afirmou Leonardo - você sempre me considerou uma mancha, uma ameaça a sua família perfeita.

- Vim pedir desculpas, mesmo depois de todos esses anos.

- Você vem se desculpar com essa cara de pau? Eu quase fui preso!

- Seu pai nunca ia permitir que você fosse para a cadeia. Foi só um susto. Eu estava com medo.

- Medo de que?

- Daniela e você estavam crescendo na mesma casa. Você, homem. E ela...

- Você me acusou de estuprar a sua filha, minha irmã.

- Meia irmã - corrigiu Sônia. - Hoje sabemos que isso não aconteceu.

- Você fez de propósito e continua mentindo – gritou ele. - Eu tinha treze anos quando um policial me algemou por causa da sua mentira!

- Leonardo, eu errei – disse Sônia, constrangida pelo tom de voz elevado do outro. – Estou pedindo desculpas.

Ele respirou fundo na tentativa de controlar a raiva. Retirou os óculos e pressionou os olhos. Em seguida, recolocou o adorno e encarou a mulher, desferindo um olhar cheio de nojo e ódio.

- Pois não desculpo. Pode ir embora e não volte a me procurar e nem chegue perto do meu filho.

- Quem você pensa que é? O que custa dizer “eu te perdoo”. Você sempre foi difícil de lidar e impossível de amar.

- Agora sim estou reconhecendo você – disse Leonardo, ironicamente. – Está colocando as asinhas de fora.

- Quer saber, não vou me humilhar por um criolo que sempre andou com o rei na barriga.

- Racismo, não!

Leonardo depositou uma nota de dez sobre a mesa e fez que ia levantar. Sônia tocou sua mão.

- Me perdoa – pediu.

- Não, você só não quer morrer sozinha – disse ele.


Leonardo deu as costas e voltou para o sebo. Sônia deixou o local pouco depois, sem olhar para as vitrines da loja do enteado. Despontou na rua oposta à barata Ribeiro, a Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Procurou o maço de cigarros na bolsa observando os transeuntes e automóveis que transitavam pelo bairro como formigas rodeando uma carcaça em decomposição.